Paulo Pereira da Silva, 7º semestre

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Prelúdio. Alta noite, afável frescor que envolve e refrigera, luz que transcende. Um magnífico passeio pelos vilarejos de uma comunidade. Região humilde e composta por um público majoritariamente negro. Ah…torpe viagem! A imagem já não mais é, assim, tão bela.

Considerado a melhor produção cinematográfica da última década pelo aclamado site especializado em entretenimento, Indie Wire, e ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2017, sim, falo de Moonlight: Sob a Luz do Luar. A produção retrata a vida do protagonista Chiron, em três atos (sua infância, adolescência e vida adulta). O filme acontece em um bairro periférico, em situação de vulnerabilidade social e apresenta o cotidiano de jovens negros. Certamente trata-se de uma história repleta de tiroteios, violência, tráfico, cujo âmago esteja na reiteração de situações atinentes às várias facetas da criminalidade e da agressividade, certo? Bom, não é bem isso…

Malgrado todas as problemáticas acima mencionadas estejam presentes, o filme não atende às expectativas que se costumam criar em volta de um protagonista negro. A história é delineada com abordagem e transcorrer mais lentos e, de certa forma, doce e poética. As imagens e a fotografia são lindas, expressam dádivas de uma excelsa obra de arte. Pois bem, a narrativa conclama o expectador a refletir sobre dilemas da masculinidade e da sexualidade do homem negro, envolto em estruturas sociais terrivelmente opressoras.

Chiron, na infância e adolescência, sofre agressões físicas e verbais por parte dos indivíduos de sua comunidade. As práticas ocorrem pelo fato de o personagem não reproduzir a mesma performance social dos outros garotos negros, motivo pelo qual sua masculinidade, bem como sua sexualidade, são postas em questão. Ora, se as estruturas sociais moldam e constroem modelos de masculinidade altamente tóxicos, nos quais a construção do “masculino” se baseia em supostos baluartes de força, virilidade, agressividade e no mitigar das  expressões de afeto, sentimentos e emoções, a situação se assevera quando se trata da construção da masculinidade negra.

No artigo Masculinidade e criminalidade em Moonlight: Um Estudo sobre as conexões entre identidade e delinquência, (leia o artigo aqui) escrito pelo brilhante professor Adilson José Moreira, em conjunto com o professor Humberto Fabretti, há uma breve descrição acerca da violência sofrida pelo personagem principal:

[Chiron] Não exibia os elementos característicos da masculinidade negra, um tipo de identidade que, naquele contexto, se expressa por meio de uma agressividade acentuada […] é curioso perceber que os outros garotos o chamam de homossexual, mas isso não parece estar ligado a um comportamento dele, mas, sim, porque ele não exibe o tipo de masculinidade que homens negros deveriam ter.

Neste prisma, verifica-se uma imposição social guiada por estereótipos descritivos e prescritivos que impõe forçadamente condutas que o negro, desde a mais tenra idade, deve seguir e reafirmar a fim de que possa garantir sua existência.

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Na adolescência, ainda padecendo das mesmas tormentas, Chiron experiencia um peculiar momento de felicidade. O jovem desfrutou instantes românticos de entrega e envolvimento corporal com seu então amigo, Kevin. O magnetismo da cena leva a crer que já nada mais importa, apenas os beijos, os toques, o mar e dois garotos apaixonados reverberando sob luz do luar.

No que tange à sexualidade do personagem, observa-se que o filme passa a lançar luz e dar visibilidade para a questão do homem negro gay, visto que a mídia, o cinema e os mais variados meios de comunicação são brancos. Os filmes retratam realidades de pessoas brancas, constroem e reproduzem estéticas baseadas no branco, é um mundo LGBTQ+ branco, um mundinho do gay “padrão Mackenzie”.

Já na vida adulta, Chiron encontra-se longe de Kevin e não teve nenhum outro tipo de envolvimento sexual ou afetivo com outra pessoa. Por circunstâncias inerentes ao meio e ao sistema, característicos do Racismo Estrutural e Institucional, o personagem agora incorporou elementos da masculinidade negra socialmente imposta e é um dos líderes do tráfico local. Com corpo grande e forte, expressa virilidade e demonstra ser um homem truculento e temido, tornou-se justamente o estereótipo do homem negro e, claramente como forma de sobrevivência, se envolveu no tráfico.

Nas últimas cenas, Chiron reencontra-se com Kevin e em um dos diálogos , o personagem principal se vê com dificuldades de responder uma pergunta: Quem é você ?  Chiron teve sua subjetividade furtada de forma atroz. Suas idiossincrasias, individualidades, sua performance social, tudo foi destruído pelas estruturas sociais alicerçadas na masculinidade negra socialmente construída que o fez reorganizar sua vida à luz das características impostas para sua sobrevivência.

Por fim, entre olhares de desejo, os dois homens se contemplam de forma mágica, a conversa segue quase que em forma de flerte e, talvez, o que mais se espera, é uma quente cena de sexo. No entanto, o filme combate a outra prática estereotipada: a sexualização do homem negro. Assertivamente, a produção elucida que o homem negro não é um objeto fetichizado de prazer, mas, sim, um ser humano que possui direito ao afeto. A cena termina com um singelo abraço.

Independente da orientação sexual, o homem negro tem direito a uma cultura de afeto, ao amor; possui o direito de expressar seus sentimentos e emoções, de ser sensível e isso não o tornará “menos homem” ou “alterar” sua sexualidade. Quanto aos que estão na intersecção de minorias -negro e gay- , enfrentando um arsenal de dissabores, é importante salientar que a sociedade, por meio dos diversos tipos de discriminação, tentará dilacerar suas subjetividades, todavia, o caminho é continuar resistindo, colorindo as estruturas acinzentadas e cheias de trevas, deixando a luz brilhar, desde a aurora, até transluzir e resplandecer sob a luz do luar.

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