Por João Paulo Mortari Neves

O drama polonês “365 dni”, baseado no livro homônimo da autora polonesa Blanka Lipinska, estreou na plataforma de streaming da Netflix, e causou diversos comentários nas redes sociais e até no âmbito jurídico a respeito de sua maior polêmica: a romantização das relações abusivas e o assédio sexual. O filme traz, em determinados aspectos, referências à cultura pop. O próprio diretor de fotografia, Bartek Cielica, revelou que há inspiração no desenho “A Bela e a Fera” da Disney, em que segue o seguinte o modelo: um homem rico exibe um novo mundo, repleto de aventuras, para a heroína. Note que essa premissa também serviu de paradigma para a trilogia de “Cinquenta Tons de Cinza”, que foi muito comparada ao próprio “365 dni” pelos internautas devido às cenas eróticas.

Todavia, há certas diferenças fundamentais a respeito do filme polonês. O filme concentra o drama em dois personagens: Laura Biel, uma executiva polonesa bem sucedida, e Don Massimo Torricelli, líder de uma família italiana envolvida na máfia siciliana. O italiano Massimo, após se apaixonar e reencontrar, após anos de buscas, a polonesa Laura, decide a raptar e lhe oferecer uma proposta: ela teria 365 dias para se apaixonar por ele, e caso ela não se apaixonasse nesse período, ele garante que a libertará do cárcere. É nítido, se não explícito, que a primeira diferença é a caracterização de haver uma relação abusiva entre o gangster italiano e a executiva polonesa. No entanto, o fator abuso não fica limitado somente a isso: em diversas cenas é possível analisar atos de importunação sexual do próprio protagonista, principalmente nas cenas que retratam os primeiros momentos de cárcere de Laura. O que já não ocorre na trilogia supracitada.

No entanto, a direção do filme não cria a atmosfera de seriedade que um abuso deveria ter. Ao contrário, há uma romantização das cenas, muito por conta do roteiro da atuação da atriz polonesa Anna-Maria, que interpreta Laura, ao passar a impressão de estar complacente e serena aos assédios sexuais e violências psicológicas do italiano, não demonstrando sentimentos de medo e tristeza por ter sido privada de sua liberdade, tanto social como sexual. Além disso, os efeitos audiovisuais também concorrem com a culpa da romantização, como por exemplo as músicas românticas e de tons eróticos, que geram a sensação de se tratar de uma relação platônica e consensual. Isso cria um ambiente devasso e “natural” na obsessão e dominação do protagonista agressor.

Cria-se, dessa forma, a fantasia romantizada em torno do assédio sexual, tanto para o assediador, que é representado por um homem bonito e poderoso, que diversas vezes demonstra “controlar” os ataques de fúria para compreender a  mulher, o que é um tanto incomum para os fatos e casos na realidade, e uma mulher que, aquém da beleza, também é poderosa, mas se submete à dominação do abusador e, como é abordado no filme, se apaixona por ele, incitando a memória do telespectador a buscar a famigerada Síndrome de Estocolmo. Ademais da naturalização, passividade e fantasia em torno da relação abusiva, há uma referência que a criminologia passou a utilizar, e é também citada no filme: a síndrome da gaiola de ouro.

Essa síndrome corresponde a uma forma de violência psicológica, e em determinadas vezes física, que ocorre, principalmente, devido à alta posição de ápice social das mulheres, ou até mesmo com relação à beleza esplêndida, com base nos padrões da sociedade. O agressor se utiliza da mulher, que apresenta um status social elevado, como um adorno, e mantém essa relação com base em violências psicológicas, físicas e sexuais. Nota-se que essa síndrome dialoga com a economia de bens simbólicos bourdieusiana, em que a mulher é objeto pelo qual o homem poderá realizar a troca para acumular o capital simbólico, ou seja, auxiliar e facilitar as alianças prestigiosas na sociedade [1]. Ocorre o mesmo no filme, onde o protagonista Massimo escolhe, mediante um sequestro, uma mulher que fosse esteticamente atraente e ocupasse um alto cargo na sociedade para ser sua esposa, ou na visão de Bourdieu, o seu adorno social, para compor a prestigiosa família Torricelli. Um dos exemplos da síndrome da gaiola de ouro foi a relação abusiva da atriz Luiza Brunet e do empresário Lírio Parisotto, em que a atriz e modelo brasileira era exibida como parte integrante do patrimônio do empresário [2].

O risco que o filme traz é de reproduzir as matrizes de percepção e de pensamento de uma cultura de assédio que assombra as mulheres, como nos casos de assédios sexuais do produtor de filmes Harvey Weinstein e do financista Jeffrey Epstein, onde a importunação sexual era vista como uma troca de “favores” ou até mesmo “normais” no ambiente social e de trabalho.

Os eufemismos do filme com relação aos abusos estão na contramão da realidade mundial, que por exemplo, de acordo com estimativas da ONU Mulheres, em média 35% das mulheres do mundo já sofreram violência sexual, o que corresponde a 2 bilhões e 730 milhões de mulheres [3].

Dessa forma, nota-se que, ao abordar essa temática, o filme poderia ter sido mais prudente com relação à forma de tratar o assédio sexual e as relações abusivas adjunto das síndromes de Estocolmo e a da gaiola de ouro, haja vista que é um fato complexo, e que pode enraizar nas vítimas traumas que elas terão que lidar pela vida inteira. Embora o filme tente lidar com esse tema e, aparentemente, utilizar o apelo erótico e romântico da trilogia de “Cinquenta  Tons de Cinza”, ele falha ao abordar o assunto com o mínimo de seriedade, prudência e sensibilidade a um tema que, além de polêmico, é atual e onipresente em todas as camadas da sociedade.

Broken Mirror Reflection

[1] BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 15a ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2019, p. 80.

[2] Facts and Figures: Ending violence against women. UN Women, 2019. Disponível em: https://www.unwomen.org/en/what-we-do/ending-violence-
against-women/facts-and-figures. Acesso em: 18 de Março de 2020.

[3] MACEDO, Nathalí. Luíza Brunet e a Síndrome da Gaiola de Ouro. Geledés, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/luiza-brunet-e-sindrome-da-
gaiola-de-ouro-por-nathali-macedo/. Acesso em: 18 de Março de 2020.

 

Publicado por Rafaela Cury


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