Por Paulo Pereira

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

O tema das macro e microagressões sistêmicas que atacam a população negra foi a tônica dos últimos dias, dada a repercussão de alguns assassinatos cometidos sob os requintes da tão comum violência policial, bem como os protestos em reação à tais atrocidades.

Paralelamente, como uma gotícula neste abjeto manancial de vileza em que chafurda o Brasil, assolado pelas desigualdades estruturais que foram maximizadas pela pandemia, anuncia-se uma boa notícia: o gênio da literatura brasileira foi novamente aclamado, desta vez em âmbito internacional[1]. Sim, falo de Machado de Assis, homem negro (e é importante mencionar isso porque  muitos de vocês costumam tentar “embranquecer” ou invisibilizar tudo o que de mais célebre é produzido pelas pessoas negras, né? rsrs), autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, clássico da literatura brasileira que recebeu uma nova versão em inglês, publicada nos EUA na última semana (02/06), teve todos exemplares vendidos no mesmo dia.

Diante deste contexto, te convido, cara leitora/caro leitor, a refletir comigo sobre outra obra escrita pelo “bruxo”[2], o conto “Pai Contra Mãe”. Trata-se de um conto publicado originalmente no livro “Relíquias da Casa Velha” (1906,)  escrito cerca de dezoito anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, mas que narra uma história que se passa num período anterior à promulgação da Lei Áurea.

A narrativa apresenta as angústias vividas por uma família de pessoas brancas e pobres, que, para além das dificuldades típicas do seu cotidiano, passaram a se preocupar com a chegada de uma criança. São eles: Clara, a gestante; sua tia, Mônica; e seu marido, Cândido Neves.

Cândido, é a personagem que ganha relevo na história, pois, para garantir o sustento da família, dedica-se a um ofício muito comum à época: capturar escravos fugidos. Ele seria uma espécie de “capitão do mato da cidade”.

Vejamos um trecho que apresenta esta “modalidade de trabalho”.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Depois de idas e vindas em suas experiências profissionais, Cândido se sentiu contemplado no ofício de capturar escravos fugitivos, tanto pelo retorno financeiro que lhe era rentável e que desafogava financeiramente a sua humilde vida, quanto por estar exercendo uma “função nobre” em busca da garantia da “ordem” que lhe causava encanto.

Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo.

No entanto, passados alguns meses, na medida que se aproximava o momento em que Clara deveria dar à luz, a família viu-se numa grave crise material, visto que o ofício de Cândido já não mais trazia o sustento de antes; ao pai, era cada vez mais raro encontrar escravos fugidos, até que a história culminou na seguinte situação:

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua […] Tia Mônica teve a arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. […] Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também.

As circunstâncias tanto se agravaram, que a melhor solução encontrada pela família seria a de entregar o bebê para a adoção. Houve consenso, o pai estava disposto a fazê-lo no dia seguinte.


Pois bem, se você chegou até aqui e sentiu alguns incômodos, muito que bem! Você está lendo de maneira correta. Se não, poxa, tá na hora de pensar um pouco sobre algumas coisinhas, né, minha filha?….. pra todos os efeitos, vamos dar uma pausa no conto machadiano para ponderar algumas questões.

A literatura tem o incrível potencial de nos permitir visitar alguns lugares e períodos históricos e tangenciar problemas de outros tempos. Neste prisma, podemos observar, dentre muitos outros aspectos, a coisificação e mercantilização da pessoa negra, acrescida dos métodos de grave tortura e vilipêndio de seus corpos. Tudo isso permeado pela construção da superioridade da raça branca, inclusive, dos brancos pobres. Assinale ainda que, para Cândido, o ofício de capturar escravos fugidos não era a única opção que lhe restava, porém, mesmo diante do insucesso na “profissão”, ele escolheu seguir nesta lida em detrimento do sustento de sua família, afinal, tratava-se de uma função muito importante para a sociedade….

Ok, acho que essa parte deu pra pegar, mas, e daí?

Vamos primeiro trabalhar com frases simples (porém, só verdades, rs), dessas que circulam por aí nas redes, pra ficar didático. ‘Você, pessoa branca, não escravizou ninguém, porém, usufrui das estruturas que te privilegiam’; ‘você não deixa de sofrer por ser branco, mas a cor da sua pele não te fez sofrer mais, seu sofrimento não tem a ver com a sua raça’.

Pois bem, agora, é importante pensar a construção, a classificação e a hierarquização das raças como um processo histórico, social, econômico, jurídico, filosófico, etc….como algo intrínseco ao Estado brasileiro. É como diz o professor Silvio Almeida:

Os diferentes processos de formação nacional dos Estados contemporâneos, não foram produzidos apenas pelo acaso, mas por projetos políticos. Assim as classificações raciais tiveram papel importante para definir as hierarquias sociais, a legitimidade na condução do poder estatal e as estratégias econômicas de desenvolvimento.[3]

Na mesma esteira, aduz Maria Aparecida Silva Bento, em sua tese de doutorado defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, quando empregou o termo “pacto narcísico” para trabalhar a questão do privilégio branco:

 Os estudos silenciam sobre o branco e não abordam a herança branca da escravidão, nem tampouco a interferênciao da branquitude cmo uma guardiã silenciosa de privilégios […] não é por acaso a referência apenas a problemas do outro, o negro, considerado diferente, específico em contraposição ao humano universal, o branco. [4]

As ideias que construíram o branco enquanto universal, enquanto ser humano, enquanto não racializado, em detrimento do negro como não humano, como categoria, como “diferente” ensejam os chamados pactos que perpetuam privilégios de uns e a desgraça de outros.

O amor narcísico está relacionado com a identificação, tanto quanto o ódio narcísico com a desidentificação. [5]

Certo, agora quero dialogar (aquele meme do “diálogo” rs) com vocês que estão por aí dizendo na internet que são “antirracistas”. Será que são mesmo? Bom, eu tenho certeza, por exemplo, que muitos de vocês, quando tiverem a oportunidade/poder de contratar um estagiário/advogado, esse profissional não será uma pessoa negra (se quiser, depois te recomendo algumas leituras, mas já é madrugada e estou cansado pra colocar a referência aqui). Estou certo, também, que a muitos de vocês não incomoda o fato de que nesses vários grupos que ‘representam’ a Faculdade de Direito do Mackenzie em competições, moots e etc, não tenha pessoas negras….hm…lembra do “pacto narcísico”? Um rostinho negro não pode representar o Mackenzie, né? Mas, ok, silenciar esses e outros fatos é muito mais cômodo, né? Afinal, estamos todos postando hashtags antirracistas, né, amore? rsrs

Aiai, voltemos ao conto…


Cândido Neves, lamuriando-se, já com o filho nos braços para entregar à adoção, de repente se depara com um ‘acaso’ que vai mudar a sua vida:

Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme.

De pronto, o pai deixou o filho nas mãos de um conhecido e foi em busca da valiosa escrava, Arminda, que lhe poderia garantir a quantia de cem mil-réis.

Eis que, após agarrá-la ferozmente, vem a súplica:

–Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! — Siga! repetiu Cândido Neves. –Me solte! –Não quero demoras; siga!

O apelo não teve resultado. O pai arrastou Arminda pelos vilarejos da cidade até entrega-la ao seu ‘dono’. Foram momentos pungentes e agônicos que marcaram uma bruta violência contra a mulher negra. A mãe.

Instantes após o encontro com seu ‘dono’, eis que o pior acontece:

No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe

Cândido Neves voltou pra casa saltitante, pois, depois da quantia recebida, teria como garantir o sustento de sua casa e já não precisaria mais entregar o filho para adoção. Comemorou. Foi uma vida em detrimento da outra. O Pai contra a mãe.

No episódio do aborto, Machado expõe a figura do pai como alguém que presencia um espetáculo.

Cândido Neves viu todo esse espetáculo

pai contra mãe
imagem obtida em: fabulasecontos.com.br

 

Ora, hodiernamente, vivemos não somente a herança dos tempos da escravidão. Vivemos o Racismo Estrutural. O fato de umas vidas valerem mais do que outras é um dado da realidade tão comum que a sociedade não se exaspera caso não haja um intenso apelo midiático. O Mercado, que contribui visceralmente para que esse sistema perpetue, tão logo tenta se pintar como “antirracista”, se apropriando e levantando bandeiras que na prática não passam de um Marketing vazio, pois, haja vista que na realidade, arrefece o racismo institucional e reproduz a discriminação racial diuturnamente.

O Estado, as instituições públicas, a polícia, celebram o “espetáculo das mortes”. Afinal, existe todo um processo histórico que fundamentou a legitimação da violência contra os corpos negros. É o que Achille Mbembe conceitua como “Necropolitica”, o Estado escolhendo quem deve viver e quem deve morrer, pois, quando se nega a humanidade do outro, qualquer violência torna-se possível.  Mais uma vez se reverbera o “pacto narcísico” que atribui humanidade a uns e reificação a outros, realidade que é explícita na atuação das medidas de ‘segurança pública’, na ‘guerra às drogas’, que na verdade é outra forma de legitimação das mortes e do encarceramento em massa de pessoas negras e periféricas. ‘Em Alphavile a coisa funciona diferente’…..

Para além desses flagelos, é muito simbólico e sintomático, que a primeira morte por Covid-19 noticiada no Brasil foi a de uma mulher, negra e empregada doméstica. O racismo estrutural e a violência crônica transcendem fronteiras e atacam a saúde pública, a educação, o saneamento…..e se prolifera em todas as dimensões da vida social.

As veleidades da família de Clara e Cândido Neves foram suficientes para a aniquilação da vida de Arminda, que lutava e anelava por liberdade e de seu filho, que, com uma expectativa de vida, sequer teve a oportunidade de viver. É estarrecedor saber que assassinatos de crianças como a de João Pedro e Ágatha ocorrem corriqueiramente. É doloroso sentir que meninos como o Miguel são conduzidos à morte por madames brancas (enquanto elas, em meio à pandemia, exploram outras mulheres negras) que os tratam com ultraje. Que assimilam o seu óbito com desdém e reafirmam que algumas pessoas estão marcadas para morrer. Afinal, como verbaliza Cândido Neves ao final do conto:

Nem todas as crianças vingam.

 

[1]https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/06/nova-traducao-de-machado-de-assis-nos-eua-esgota-em-um-dia.shtml

[2] Bruxo do Cosme Velho é um epíteto consagrado a Machado de Assis. O termo ganhou força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou o poema: “A um bruxo, com amor”, no qual o poeta fez referência à casa (número 18) da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis. O poema toma a casa como ponto de partida, como um passaporte para a proximidade com Machado, e, a partir daí, faz um “passeio” pela obra do autor, do geral ao particular, sem, para tanto, manifestar uma loa ao homenageado, mas uma admiração profunda e respeitosa ao “bruxo”.

[3]Almeida, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural ? / Silvio Luiz de Almeida . -. Belo Horizonte/MG): Letramento, 2018. 43 p.

[4] Bento, M. A. S. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público/Maria Aparecida Bento. – São Paulo: s.n., 2002 – 46 p.

[5] Bento, M. A. S. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público/Maria Aparecida Bento. – São Paulo: s.n., 2002 – 44  p.

 

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