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Imagem por Nando Motta/ Voz das Comunidades

Com o adiamento das datas de aplicação do Enem, os estudantes ganharam mais forças para lutar por seus ideais, mesmo no momento em que a pandemia de Covid-19 deixa número recorde de mortes por dia no país. Entretanto, a grande quantidade de perguntas sem resposta ainda assusta a maioria dos vestibulandos, que veem agora, mais do que nunca, seus direitos constitucionais de acesso à educação limitados, devido à despreparada e deficitária gestão atual do MEC.

Arcadas, 29 de maio de 2020.

Ao Ministro da Educação Abraham Weintraub,¹

Em meio à atual crise humanitária associada à pandemia do novo coronavírus que o Brasil vem enfrentando — de forma muito displicente, diga-se de passagem —, com diversos problemas de sobrecarga dos sistemas de saúde e de pouca adesão das populações mais humildes ao ensino a distância, eu retorno a pergunta ao senhor, Abraham Weintraub: e se uma geração inteira de profissionais fosse perdida? Médicos, enfermeiros, engenheiros, professores?² Digo, uma geração de profissionais advindos das camadas pobres da sociedade brasileira, claro. É fato que quem tem condições de se concentrar nos estudos em meio à situação de caos pela qual passamos, com centenas de mortes diárias e em um período de isolamento social sem precedentes, já faz parte da classe de privilegiados por excelência. Mais do que isso, quem tem a oportunidade de estudar nesse período, muitas vezes o faz como um ato de resistência, para tentar se ver livre do ciclo vicioso que é a pobreza no Brasil.

Porém, senhor Ministro, nem todos nós podemos ficar limitados à prática de atividades escolares agora.

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Imagem por Duke/Dom Total

De acordo com pesquisa publicada pela UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância -, 17% da população entre 9 e 17 anos não possui acesso à internet.³ Pergunto-me de que maneira esses jovens conseguirão fazer exercícios de aprendizagem, assistir às aulas on-line e até mesmo como farão a inscrição no Enem; mas a resposta, infelizmente, todos já sabem. A situação se agrava ao pararmos para pensar que existem também alunos mais velhos, os quais desejam ingressar nas universidades, mas estão sobrecarregados ou envolvidos em atividades essenciais – não devemos, tampouco, desvalorizá-los ou desencorajá-los nesse momento.

E quanto àquele menino de periferia, que sonha em entrar na faculdade, mas passa o dia cuidando dos irmãos mais novos que não têm onde ficar devido ao fechamento das creches? É claro que também será afetado. Como sempre, ao menos para os mais pobres, o Brasil não pode parar. A mãe dele, técnica em enfermagem, é exemplo disso: sai de casa todos os dias cedo para socorrer as vítimas da pandemia em hospitais particulares da região. E seus filhos, quem socorre? Na pior das hipóteses, na verdade, esse jovem já não tem mais a oportunidade de cuidar dos irmãos menores ou até mesmo da própria mãe. Por vezes, já é tarde demais.

De onde esses estudantes devem tirar forças para “se reinventar” e “se superar”. Sinceramente, não sei. Tirar dos mais pobres do país a oportunidade de entrar nas universidades é um ato egoísta e desonesto, para dizer o mínimo. Porém, não diria que estou desapontado com as atitudes do MEC no que se refere ao Enem — todos já sabíamos o que esperar da atual gestão —, mas me espanta a insensibilidade do senhor Ministro, que insiste em estimular os jovens de todo o Brasil a estudar e a se esforçar como se nada estivesse acontecendo.

De certa forma, penso que estamos diante de uma situação nunca antes vista na educação do Brasil: suas atuais performances são dignas de um novo conceito de anacronismo, dessa vez mais concreto e prejudicial a todos os jovens do país, não apenas no âmbito moral. Afinal, enquanto lidamos com prejuízos sociais sem precedentes, o senhor faz parecer que se encontra em um país livre de problemas educacionais tão basilares e do crescimento exponencial do número de mortes por Covid-19, que nos destrói mais a cada dia.

Por fim, enquanto escrevo, questiono-me se seria a pessoa certa para elaborar esta carta para o senhor. Afinal, também faço parte dessa camada de “privilegiados por excelência”, que sempre tiveram condições de estudar e concluíram o ensino fundamental e médio com certa dignidade. Porém, estou minimamente ciente da dura realidade de nosso país. E o senhor também deveria estar.

A mentalidade de que não devemos nos deixar abalar por toda a situação gerada pelo SARS-CoV-2, expressa por uma das propagandas de divulgação do Exame Nacional do Ensino Médio, reflete o posicionamento de um Ministério da Educação totalmente alheio de suas obrigações com a população brasileira, a qual, por mais uma vez, se tornou refém das deliberações de representantes educacionais elitistas.

Os estudantes ganharam a batalha, mas provavelmente perderão a guerra. Até quando nos submeteremos a isso?

Cordialmente, despeço-me.

Caio Henrique da Silveira e Silva

¹ Parece pretensão de minha parte escrever diretamente ao representante máximo da educação no Brasil, eu sei. Porém, acredito que, aliás, o destinatário do texto pouco importa. Afinal, ainda que esse texto não chegue a Abraham Weintraub – o que provavelmente deve acontecer –, a carta serve como desabafo destinado a todos os profissionais de educação e estudantes, privilegiados ou prejudicados, em meio ao caos educacional pelo qual estamos passando.

² Faço referência à propaganda elaborada pelo MEC para divulgar a abertura de inscrições do Enem 2020, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=apufjiGlIY0. Acesso em: 16 de maio.

³ Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/unicef-alerta-essencial-garantir-acesso-livre-a-internet-para-familias-e-criancas-vulneraveis. Acesso em: 16 de maio.


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Postado por Rafael Almeida

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