Carlos Parra, membro da ALEMack

“Ele diz ‘à misericórdia’, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda nação seria condenada”. João Grilo

Indiscutivelmente a obra mais conhecida de Ariano Suassuna, o Auto da Compadecida se tornou um clássico não apenas do teatro, mas também do cinema brasileiro, passando a fazer parte do imaginário nacional, imortalizando, por exemplo, a expressão “não sei, só sei que foi assim”. A comédia, no sentido mais estrito da palavra, não tem como finalidade apenas proporcionar risos à plateia, mas provocar, também, a reflexão acerca da condição humana e do mundanismo.

Antes de qualquer coisa é necessário ressaltar que, apesar da magistralidade na execução, o filme dirigido por Guel Arraes e protagonizado por Selton Mello e Matheus Nachtergaele não é fiel à obra original de Ariano Suassuna. O filme poderia ser chamado também de O Mercador da Paraíba sem qualquer prejuízo da relação entre título e história, pois, apesar de preservar elementos do Auto da Compadecida, a trama principal se assemelha muito mais à peça de William Shakespeare. Faço esse aviso para que não se tenha em mente a história desenvolvida no cinema no decorrer deste texto.

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Logo no início do espetáculo, portanto, o objetivo da peça é abertamente anunciado pelo Palhaço, personagem que representa o próprio autor. “Ao escrever esta peça onde combate o mundanismo, praga de sua Igreja”, diz o personagem, “o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia”. Se nem mesmo o próprio autor escapou das críticas, quanto mais seus personagens. A obra, portanto, foi criada para denunciar o mundanismo e apresentar ao público o estado depravado da alma humana. Pois em um julgamento, como diz João Grilo no trecho que antecede o presente texto, “toda a nação seria condenada”.

O primeiro ato, que corresponde ao período entre o início da peça e o enterro do cachorro, logo de cara apresenta João Grilo e Chicó, os protagonistas com quem o público é rapidamente levado a se afeiçoar. João Grilo é um mentiroso de mão cheia e sempre dá um jeito de se safar das embrulhadas em que se encontra ao se valer de sua lábia. Chicó, bem menos esperto, também é conhecido por suas histórias mirabolantes e sem explicação, “não sei”, responde sempre que questionado, “só sei que foi assim”. Logo em seguida são introduzidos o Padre, o Sacristão, o Padeiro e sua mulher, personalidades completamente distintas, caricatas e indubitavelmente pecadoras. Os clérigos tão apegados ao dinheiro e ao status social, o padeiro ganancioso e violento, a mulher adúltera e dissimulada, cada qual com sua própria transgressão.

A trama, todavia, é construída de maneira que torçamos para que as mirabolantes enganações de João Grilo deem certo e a dupla de amigos saia ilesa. O tom cômico da obra não excluí certa tensão nos momentos em que as artimanhas de João estão sob alto risco, como na visita do Major Antônio Moraes à igreja ou na chegada de Severino, o cangaceiro assassino, à Taperoá. Mesmo assim, as mentiras não são justificadas pelo protagonismo do personagem ou são deixadas de lado como meras ferramentas de sobrevivência que qualquer pessoa utilizaria, mas são contadas entre as acusações contra ele e aceitas por Manuel (Nosso Senhor Jesus Cristo). João Grilo, independentemente de seu protagonismo, se encontra entre “toda a nação” que seria condenada.

O julgamento, realizado no terceiro ato, apresenta uma realidade que muitas vezes é negligenciada: não há um justo sequer (cf. Romanos 3:10). Toda a humanidade se encontra sob a maldição do pecado, em um estado de depravação e morte. Seja religioso, criminoso, mentiroso, contra todo ser humano existem acusações, em todo homem e em toda mulher existe a semente do pecado aprofundando suas raízes no coração. Mesmo o palhaço representa um autor insensato e cheio de solércia. Entre as embrulhadas e os risos, por trás das cortinas de cada fala, Ariano Suassuna indica uma verdade tão evidente quanto escondida: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” (cf. Romanos 3:12).

O elemento religioso é indissociável da obra de Ariano Suassuna e é explicitado pelo próprio autor no início do espetáculo. O mundanismo, para o dramaturgo, é a praga de sua Igreja, mas o pecado é a praga de toda a humanidade. O que resta aos homens é o apelo à misericórdia, e apenas a ela, pois, julgados por nossa própria justiça, seríamos todos condenados. O desfecho do Auto da Compadecida traz uma única mensagem: é através da graça de Deus que o homem alcança a salvação. Discussões teológicas podem ser realizadas acerca da intervenção da Compadecida no processo da redenção, mas essa discussão é para outro momento, verdade é, e muito clara, que os esforços dos homens são vãos para conquistar a salvação, pois esta é um presente.

Em sua reflexão sobre a vaidade dos homens, emprestando o título de Matias Aires, Ariano Suassuna conclui o que se soube desde o começo: “Ele diz ‘à misericórdia’, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda nação seria condenada”.

Publicado por Rafael Almeida


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