Paulo Pereira da Silva, 7º semestre.

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Os operários, Tarsila do Amaral

Já parou para refletir acerca do como seria ter a vida visceralmente metamorfoseada, por medida invasiva e autoritária de outrem ou por supervenientes circunstâncias, tal qual Gregor Samsa[1], que experimentou inusitada e surreal transformação….ou por que não citar as nebulosas arbitrariedades sofridas por Josef K [2]? É…. Franz Kafka bem retratou, metaforicamente ou não, realidades das quais estamos (alguns mais do que outros, neh rsrs) suscetíveis a experienciar. E -permitam-me o recorte analógico- se é para falar sobre violência seletiva do Estado, há milhares de pessoas que poderão atestar com a própria vida (lembra do Rafael Braga?) o que a literatura tão bem nos ilustra.

Qual seria a importância da literatura, da arte, dos mais diversos saberes sobre cultura…..para se pensar a sociedade e o Direito ? Ora, a interdisciplinaridade entre as múltiplas e plurais áreas do conhecimento, tem um imenso potencial de lançar luz à questões que, sem essa perspectiva das expressões humanas, seria muito difícil enxergar. É nesse sentido que o emérito sociólogo e crítico literário, professor da FFLCH-USP, Antonio Cândido, In Memoriam, fala acerca do que definiu como Direito à Literatura:

“A literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.”[3]

Além da Literatura, podem ser citadas muitas outras formas de se fazer arte, que, infelizmente, estão sendo cerceadas por meio dos ataques mais vis em tempos tão sombrios.

A Faculdade de Direito do Mackenzie, tanto valoriza esse direito teorizado por Antônio Cândido, que assertivamente criou os Projetos Integradores, que são constituídos por um conjunto de atividades acadêmicas de cunho transdisciplinar e propiciam dinâmicas críticas e enriquecedoras sobre os mais diversos assuntos.

As alunas Natalia Dias e Luiza Martins, participantes do Projeto Integrador Arte, Cultura e Direito, relatam, respectivamente, sua experiência:

A realidade que vemos nesse projeto integrador está constantemente em conflito com a realidade que vivi grande parte da minha vida, me fazendo enxergar novas perspectivas e situações que nunca passaram pela minha cabeça.

Eu acho que o Projeto Integrador muda sua forma de ver o mundo, pois a partir do momento em que se inicia, nos tira de nossa realidade e apresenta algo completamente novo, que não seria possível de compreender sem aquelas pessoas. Os debates nos quais nos envolvemos são enriquecedores, trazendo informações que não tínhamos noção de que existiam, porém, ao ficarmos sabendo, nos chocam, e mais uma vez, muda sua visão de mundo. É interessante o modo com os assuntos são abordados e como a professora trata disso, pois a mesma se coloca em nosso patamar, aceitando nossas falas e ouvindo nossas opiniões. O tema deste mês foi loucura, e sinto que saio com uma bagagem muito maior do que quando entrei, pois aprendi a olhar as pessoas que são intituladas de “loucas” de uma outra forma, passando a estranhar a minha própria realidade, ou seja, foi formado um olhar antropológico em mim.Em resumo, é uma experiência maravilhosa, a energia do grupo, as experiências, o conhecimento adquirido, me faz ter vontade de que dure um longo tempo

A brilhante professora Bruna Angotti, coordenadora do Projeto, reserva um dos encontros para discutir o livro O Alienista, de Machado de Assis, confira o relato das alunas:

Machado de Assis é um dos meus escritores favoritos, sempre amei suas obras, e com “O Alienista” não seria diferente. O diálogo entre esta incrível obra e o tema “Loucura” que estamos trabalhando é perfeito, visto que no decorrer da história a pessoa que acusava as outras de serem loucas acaba, no final, sendo a própria louca. Mas o que realmente é a loucura? É não seguir padrões de comportamento determinados pela sociedade? É possuir algum distúrbio psicológico? Dentre muitas definições, cada indivíduo tem sua forma singular de enxergar o mundo, isso é o que torna possível a troca de experiências e perspectivas entre as pessoas, o que nos tornar, dentre muitas outras características, humanos.

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Tivemos uma discussão sobre o livro “O Alienista” e esse fato me trouxe reflexões tanto no momento do debate quando em casa, sozinha.Cada pessoa possuía uma palavra para definir o livro e deveria associá-lo com alguma música ou filme. Uma palavra que foi muito adotada foi “paradoxo”. De início causou um estranhamento, mas então, entendemos a partir disso, que a vida é um eterno paradoxo.O que julgamos ser tão normal pode não ser normal para outras pessoas, e o que é considerado “loucura” pode apenas ser uma visão construída por uma sociedade em que se prega a extrema perfeição.Com o debate, percebemos que exatamente essa extrema perfeição nos deixa loucos, por não podermos ser nós mesmos, por não podermos fazer o que queremos.O paradoxo é falarmos de loucura enquanto reprimimos a nossa.

O contato com realidades distintas, não somente enriquece o capital cultural, mas, também, aguça nossos sentidos mais humanos e enrijece nossa sensibilidade antropológica. Por vezes, esse contato será possível apenas através de um filme, de um livro, uma peça de teatro, uma música….afinal, A vida é Loka, dos racionais, é muito diferente dos “vida louca” do TUSP (rsrs)…..qual dos perfis Simão Bacamarte[4] teria predileção em internar na Casa verde?

 

 

 

 

 

[1] Personagem do livro A metamorfose, de Franz Kafka, que em determinado dia acorda no corpo de um grande inseto.

[2] Personagem do livro O Processo, de Franz Kakfa, que acorda certa manhã, e descobre /que é réu em um longo e incompreensível processo por um crime não especificado.

[3] Antonio Candido, do ensaio “O direito à literatura”, no livro “Vários escritos”. 3ª ed.. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

[4] Personagem central do livro O Alienista, de Machado de Assis. Psiquiatra que interna as pessoas compulsoriamente no manicômio da cidade.

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