O ufanismo pueril e as tradições da Faculdade de Direito da USP

Rodrigo Portella Guimarães

Uma breve resenha não pode ser corretamente iniciada caso eu, além de cumprimentar meus colegas de academia, não agradeça essa incrível oportunidade de participar desse genial projeto de integração entre a Gazeta Arcadas e o Jornal Prédio 03. Como surpresas, por vezes, não são bem-vindas, gostaria de deixar claro que aqui não há nenhuma tentativa de isenção. E mais, ousaria dizer que quero te convencer de que não há outra postura que não nossa união contra a perversidade. Sei que nossa relação não é das mais amistosas possíveis, sobretudo quando pensamos nos jogos universitários e, talvez, um dos capítulos mais acirrados dessa nossa história é a já cinquentenária “Batalha da Maria Antônia”. Fiquei assustado quando, em uma conversa recente, alunos afirmaram desconhecer um dos episódios mais ricos da histórica política e estudantil brasileira. Tive a conclusão, então, que a política não é mais um assunto interessante e constante no diálogo das pessoas da minha idade. Por isso, nesse diálogo inicial entre nós, gostaria de esboçar um relato sobre essa passagem e tirar algumas lições e missões que ela pode nos trazer para enfrentar a conjuntura atual.

O ano de 1968 é daqueles que mudaram a história. Para se ter uma ideia, nesse ano, o jovem estudante Edson Luís foi morto no Rio de Janeiro, fato considerado um dos estopins para a consolidação do AI-5; pela França, greves estudantis em universidades e escolas do ensino médio mobilizaram vários setores da sociedade em uma paralisação geral; nos EUA, a juventude manifestava-se contra a Guerra do Vietnã; e na antiga Tchecoslováquia, explodiu o movimento denominado Primavera de Praga, que, embora não tenha obtido êxito, demonstrou um racha no Partido Comunista, em seu caráter global. É justamente nesse cenário que, em 02 de outubro de 1968, alunos do Mackenzie enfrentaram os alunos da USP, sobretudo da FFLCH, que era sediada onde hoje é o TUSP.

O motivo, em linhas gerais, dizia respeito a um conflito político-ideológico entre um grupo de alunos do Mackenzie defensores da ditadura militar, alguns inclusive militantes do grupo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), e estudantes da USP, contrários ao regime e, muitos deles, representantes das grandes entidades estudantis, como a UNE e a UEE. Essas entidades organizavam, na rua, um pedágio para arrecadar recursos, quando foram atingidos por uma chuva de pedras e, a partir disso, o conflito se intensificou às vias de fato. Coquetéis molotov, pedras, barras e, inclusive, armas de fogo foram utilizadas. José Guimarães, aluno da USP, foi morto alvo de tiros. Muitas personalidades importantes do cenário político-intelectual brasileiro fizeram parte desse evento, como José Dirceu, então presidente da UEE, Antônio Cândido, um dos maiores críticos literários do nosso país e Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, são alguns dos exemplos.

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Parece longe da nossa realidade atual, mas, a essa época, a Rua Maria Antônia, nas próprias palavras de José Dirceu, “era uma rua privilegiada, concentrava estudantes, conversas, ideias e amores”. Era um dos principais polos de discussão da política estudantil em São Paulo, até pela existência da faculdade de ciências humanas e alimentada pela rivalidade entre as duas instituições. Hoje, talvez, a política não seja um assunto preferido e discutido, perdendo espaço para outros assuntos como balada, rolê ou futebol. Há razão. A política, ao mesmo tempo que encantadora, é cansativa e, muitas vezes, deprimente. Hoje, além disso, vivemos em uma negação muito grave do ato político e uma descrença muito severa em relação ao sistema político brasileiro. Por isso, é compreensível que o assunto fuja das rodas de conversa, pois temos aquela sensação que nossa discussão resulta em um vazio em que poucos ganham dinheiro com a nossa exploração e com um suposto roubo do patrimônio público.

Embora seja compreensível que a política tenha perdido espaço, não podemos naturalizar o seu afastamento. A política, enquanto diálogo e discussão, é essencial ao Ser Humano, sendo a única medida para solução de problemas. Embora possa ser estratégico, a grupos de interesse conhecidos, esvaziar a política e o ato político, o cenário atual exige de nós ação. Se, outrora fomos rivais, o momento atual não nos permite, de nenhuma maneira, adotarmos a mesma postura. Após profundas batalhas para consolidarmos o Estado Democrático de Direito, 30 anos após, estamos observando, de maneira inacreditavelmente passiva e indiferente, a sua destruição por um grupo de obscurantistas aliados ao grande capital dilacerante do povo trabalhador brasileiro. Assim, ajamos enquanto temos tempo.

Sem que um juridiquês incômodo me tome, a Constituição brasileira de 1988 traz como bases do nosso Estado Democrático de Direito a soberania nacional, a defesa dos direitos fundamentais e a garantia dos direitos humanos, consubstanciado na Dignidade da Pessoa Humana. Não parece ser um exercício muito complexo perceber que todas essas bases vêm sendo constantemente atacadas, afastadas, negligenciadas e ironizadas em nome de um projeto que degrada o povo brasileiro e suas garantias historicamente conquistadas. Nesse processo, algumas Agathas serão mortas e florestas serão tomadas por fogo, pois interessa a quem está, hoje, no poder, ou que, dele se beneficia.

Assim, queridos companheiros, não há espaço para imobilismos. Ouso dizer, não há mais espaços para meras propostas de resistências. Que a clássica frase “existo porque resisto” me perdoe, mas nossa resistência tem virado chacota na mão dos que hoje nos governam. Não há mais espaços para tal postura passiva, de mera reação em meio ao caos. Precisamos, sim, nos encontrar, dialogar e traçar projetos e estratégias de embate direto em nome do nosso bem mais valioso: o Estado Democrático de Direito.

Não se deixem enganar, por vezes, o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções, mas sempre arderá em fogo. Além disso, da mesma forma que não podemos nos isolar em nossas universidades, apesar de ser uma boa atitude nos aproximarmos, isso só terá eficácia quando considerarmos menos academicismos, menos interpretações intelectuais e nos propusermos a debater a materialidade e a moralidade popular. Aqui, como apresentação do nosso projeto, proponho um apelo de luta e de ação. A aprazível Rua Maria Antônia há de ser, novamente, um palco para o nosso encontro, dessa vez, do mesmo lado da história, na defesa contra a boçalidade reinante. Talvez, os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados. Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética. Irmãos Mackenzistas: vamos de mãos dadas.

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