Hoje, a Academia de Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mais conhecida como ALEMack, inicia sua coluna no JP3 com textos mensais de seus integrantes para fornecer-nos pitadas de literatura e encantar-nos com o fantástico mundo literário. Para estrear, a membro Luíza Carvalho Matsuo escreveu sobre Antônio Carlos Jobim!

Antônio Carlos Jobim: um gênio brasileiro

Antônio Carlos Jobim é conhecido no Brasil e no exterior como um dos compositores mais importantes da segunda metade do século XX. Autor de composições originais e sofisticadas, inspiradas pela fauna brasileira e pela paisagem carioca, foi um dos precursores do movimento da Bossa Nova, e foi por meio de suas composições que a música popular brasileira adquiriu o status sinfônico, transcendendo as fronteiras nacionais para ganhar o mundo.

Filho de Jorge de Oliveira Jobim, diplomata gaúcho, e de Nilza Brasileiro de Almeida, Tom Jobim nascera no bairro da Tijuca (RJ) em 25 de janeiro de 1927. A família Jobim, no entanto, mudou-se para Ipanema um ano depois, bairro no qual Tom passou os primeiros anos de sua vida.

A figura do pai ausente era algo que sempre o fascinou. Em uma tentativa de compreender sua própria identidade, as descobertas de textos assinados por Jorge Jobim, ou até mesmo histórias sobre algum episódio vivido por ele, eram de extrema importância para Tom. Em uma entrevista concedida em meados de 1980, disse: “Sérgio Buarque de Holanda me deu uma carta do meu pai, escrita para ele. Isso é um conforto para quem, como eu, não teve pai”.[1]

 A amizade de Jorge Jobim e Sérgio Buarque de Holanda foi algo momentâneo. Ambos se conheceram em um evento na Livraria Garnier e, por certo tempo, chegaram a trocar cartas sobre ideias e livros e diálogos que devem ter sido interessantíssimos, a considerar as divergências intelectuais de um crítico literário amante do parnasianismo e de um intérprete modernista.

A ausência do pai foi fruto de um relacionamento conturbado entre Nilza e Jorge, cujo temperamento era excessivamente possessivo e ciumento, além de ter se envolvido em relacionamentos extraconjugais com outras mulheres. Jorge e Nilza moraram juntos até o primeiro aniversário de Tom. No entanto, Jorge mudou-se para Petrópolis pouco tempo depois. Em meados de 1930, houve uma tentativa de reconciliação do casal, da qual nasceu Helena Isaura Jobim, irmã de Tom. Contudo, tal reconciliação foi frustrada, pelos mesmos motivos que levaram à separação inicial.

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Jorge Jobim, além de diplomata, trabalhou como jornalista e crítico literário, tendo publicado poesias de autoria própria por meio de coletâneas elaboradas em conjunto ao poeta Alberto de Oliveira e incorporadas pela Biblioteca Nacional. Ao todo, foram quatro coletâneas publicadas, sendo a última delas intitulada “Ó minha infância, com os mais lindos textos para crianças”, elaborada exclusivamente por Jorge e datada como obra escrita durante a “Primavera de 1927”, a obra trazia em sua primeira página uma dedicatória para Tom: “Para o meu Antônio Carlos ler quando tiver oito anos”.[2]

Porém, quando o jovem Tom completara oito anos, seu pai veio a óbito em consequência de uma parada cardíaca, em 19 de julho de 1935, na Casa de Saúde Dr. Eiras. Anos depois, Tom recordaria a cena de sua mãe chorando enquanto seu avô a chamava de canto para conversar. “. “Entendi logo o principal: papai havia morrido. Na hora não senti nada. Mal o conhecia”, disse. Se lera ou não a coletânea de contos publicada em sua homenagem, não se sabe.[3]

Em meados de 1930, Tom havia se mudado para Copacabana com os avós maternos e com os tios, passando por diversos lares, dentre eles, uma casa na Rua Constante Ramos, uma pensão na mesma rua e por fim, uma casa na Travessa Trianon, também em Copacabana. Em 1937, sua mãe casou-se novamente, e mudaram-se para uma casa na Rua Almirante Saddock de Sá, em Ipanema.

Tom e Helena receberam por parte da família materna todo o apoio necessário para sua criação.[4] Sua avó Maria Emília era pianista e cantava muito bem, entretanto, seu contato com o neto foi breve, pois veio a óbito quando Tom tinha quatro anos. Seus tios João e Marcelo também o influenciaram fortemente, principalmente no tocante ao estilo boêmio. Sua mãe Nilza, gostava de cantar, e tinha o hábito de cantar para Tom e Helena uma cantiga francesa, cuja poesia repetia:

 “Malbrough s’en va t’en guerre, mironton, mironton, mirontaine”

Em virtude desta cantiga, Helena passou a chamar o irmão de Ton Ton, apelido que o identificaria para sempre.

De seu avô Azor, Tom herdou o amor pela natureza. Desde pequeno, acompanhava o avô em passeios pelos morros vizinhos de Ipanema, onde recolhia pedras semipreciosas, que eram sempre identificadas pelo avô. Seus passeios rotineiros pelos montes eram contemplativos e durante a adolescência, costumava fazer todo o percurso sozinho.

Em 1938, Nilza Brasileiro de Almeida fundou uma escola em sua própria casa, visando atender as crianças cujas mães trabalhavam fora de casa, a escola cresceu rapidamente e em 1946, passou a chamar-se Colégio Brasileiro de Almeida. Devido a isso, Nilza sentiu a necessidade de investir em novos equipamentos, dentre eles, um piano para acompanhar as aulas de ginástica, instrumento que inicialmente ocupou sua garagem.

Tom, que estava com 13 anos na época, se interessou pelo instrumento rapidamente. Acompanhava assiduamente as sessões musicais dos tios Marcelo e João, arriscava-se no violão e tocava marchas de carnaval na gaita de boca. Após o almoço, sentava-se ao piano e desvendava os segredos do instrumento.

Avançou sozinho até onde pôde, mas uma hora, alguém deveria instruí-lo para que pudesse continuar seus estudos, assim, Nilza contratou Hans Joachim Koellreutter, um alemão de 24 anos cuja militância antinazista o levara a ter de fugir da Alemanha, pois começou a despertar a atenção da polícia.

Koellreutter ensinou para Tom noções de harmonia básicas e contraponto clássicos. Foi do professor que ele herdou as influências de Debussy e Chopin. No futuro, as influências musicais que perpassariam seu estilo seriam as mais diversas, uma mistura do jazz norte-americano com aquilo que já havia de mais sofisticado na música brasileira, como a obra de Villa-Lobos, Ary Barroso e Dorival Caymmi.[5]

Em 1946, iniciou o curso de arquitetura, abandonando-o no mesmo ano para se dedicar à carreira de pianista, tocando em casas noturnas em Ipanema e Copacabana. Nesse meio tempo, dedica-se aos estudos de composição, harmonia e orquestração e encerra seu trabalho nas boates em meados de 1952, quando é contratado para trabalhar como arranjador e pianista pela gravadora Continental.

Gravou suas primeiras composições em 1953, sendo elas: “Pensando em Você” e “Faz uma Semana”, por Enâni Filho e “Incerteza”, em parceria com o letrista Newton Mendonça. Em 1954, compõe parte da trilha sonora da peça “Orfeu da Conceição”, junto a Vinícius de Morais, com quem trabalharia posteriormente na composição de grandes clássicos como “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade”, em parceria com João Gilberto.[6]

No ano de 1962, “Garota de Ipanema” alcança grande sucesso nos Estados Unidos. No mesmo ano, o saxofonista Stan Getz junto a Tom e João Gilberto gravam uma versão instrumental da música “Desafinado”, o que leva a gravadora Audio Fidelity a promover um concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, em Nova York em parceria com o Itamaraty.

Depois deste episódio, Antônio Carlos Jobim permanece em Nova York, onde lança seu primeiro álbum solo “The Composer of Desafinado Plays”. Seu trânsito entre Brasil e Estados Unidos é peça chave do processo de consolidação de sua carreira, período que lhe rendeu gravações com Frank Sinatra, Charlie Byrd e Stan Getz, somando um total de oito LPs, além de convites cinematográficos e alguns Grammys.

No ano de 1968, retorna ao Brasil, desta vez para ficar. Compõe em parceria com Chico Buarque a canção “Sabiá”, que vence o 3º Festival Internacional da Canção. Lança mais três álbuns, que são “Matita Perê” (1973); “Urubu” (1975) e “Terra Brasilis” (1980). Em 1984, forma a Banda Nova, formada por amigos e parentes e com ela grava os seus últimos dois discos: “Passarim” (1987) e “Antônio Brasileiro” (1994).

Ao ledo de Vinícius de Morais e João Gilberto, Tom Jobim integra a trindade fundadora do movimento da Bossa Nova. Impulsionado pelas pulsões desenvolvimentistas, a Bossa vem com intuito de promover um imaginário moderno, ideal que fascinara o Rio de Janeiro dos anos 1950, refletindo as diversas transformações por quais passava a capital.

O caráter intimista da Bossa, combinado com a identidade de sua expressão popular que simbolizava aquilo que era novo e moderno, passa a designar um novo estilo de vida, moderno e arrojado. A designação de Juscelino Kubitchek como o “Presidente Bossa Nova”, traça um panorama claro da estética do movimento combinado à ideologia política vigente.

Tais características revelam pontos importantes de sua obra, que era ao mesmo tempo popular e sofisticada, instrumental e vocal, uma mistura de jazz e samba, até mesmo proza e verso, como se observa em Orfeu da Conceição. Pensar em Tom Jobim é pensar a intersecção de um pianista das noites boêmias consigo mesmo, em sua face erudita, influenciada pela expressividade melódica de Villa-Lobos e exposta ao mundo como um retrato da música brasileira do século XX.

Escrito por Luíza Carvalho Matsuo

[1] CABRAL, Sérgio. Antônio Carlos Jobim: Uma Biografia. São Paulo: Lazuli, 2008.

[2]  CABRAL, Sérgio. Antonio Carlos Jobim: Uma Biografia. São Paulo: Lazuli, 2008.

[3] CABRAL, Sérgio. Antonio Carlos Jobim: Uma Biografia. São Paulo: Lazuli, 2008.

[4]  JOBIM, Helena. Antonio Carlos Jobim: um homem iluminado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

[5] TOM Jobim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

[6] TOM Jobim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Referências

Postado por Rafael Almeida

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