Paulo Pereira da Silva, 7° semestre

Qual seria a caricatura construída e atribuída ao aluno bolsista, no imaginário de quem, quiçá, nunca teve contato frequente e direto com tal público, na condição de colega de curso?

Amálgama. O corpo discente da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie está, paulatinamente, metamorfoseando-se. A presença de alunos bolsistas e/ou negros é realidade cada vez mais presente. Diante disso, é necessário desconstruir alguns estereótipos que beiram a delinear a imagem de um aluno “café com leite”.

Geralmente, quando se tangencia o presente tema, de pronto surgem imagens acerca da lida de pessoas que vivem em vários “quartos de despejo da cidade” e seguem escrevendo seus “diários de favela”, criando páginas que exprimem todos os desafios, dissabores e angústias enfrentados na diária transição de mundos antagônicos.

As projeções não estão erradas, no entanto, para além do indivíduo que é oriundo da escola pública, que teve um ensino defasado, não estudou inglês, mora nos extremos das periferias, enfrenta horas em um transporte público de péssima qualidade, não tem dinheiro para se alimentar na faculdade, dentre outros elementos constantes neste pacote de mazelas sociais, estão pessoas brilhantes. É necessário destruir ideias que resumem as pessoas a tão somente um “pacote de problemas”.

Ora, precisamos afastar a ideia de um aluno “coitadinho”, que tem dificuldades com a matéria, que por ter tido uma base de péssima qualidade/não ter tido base, não sabe escrever, interpretar textos complexos, fazer boas apresentações orais ou assimilar o conteúdo das aulas. É quase uma ideia de inaptidão. Por vezes, já cheguei a ouvir de algumas pessoas, opiniões que levam ao entendimento sintetizado em “do que adianta entrar, se não vai conseguir acompanhar”. Pois bem, não é isso que os dados apontam.

Na euforia inexprimível pela aprovação e matrícula no Mackenzie, fui pesquisar ainda mais sobre a Faculdade. Para minha decepção, me deparei com notícias de um protesto realizado pelos então alunos, em 2012, que se manifestavam contrários à adesão do Enem, como um dos exames para ingresso na Universidade. O protesto versava sobre o denominado “tradicional Vestibular Mackenzie”. Nesta toada, lançando luz aos fatos, pode-se visualizar que havia um real e assumido interesse, na não entrada de determinados públicos na tradicional Universidade, visto que o Programa Universidade para Todos -Prouni, do Governo Federal, concede bolsas integrais e parciais, para que alunos de baixa renda possam estudar em Universidades Particulares. Pois é, “meus pêsames negah kkk “, entramos.

Estudos realizados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em que foram analisados mais de um milhão de notas do Enade entre 2012 e 2014, revelam que o desempenho dos alunos do Prouni é igual ou superior aos demais discentes. A informação não surpreende a quem precisa conciliar os estudos com o trabalho e não pode pegar DP (há um baixo limite), porque, caso isso aconteça perderá sua bolsa e junto verá se esvair todo um emaranhado de sonhos. Mamãe e papai não vão (nem existe essa possibilidade) pagar. É a oportunidade da vida, um divisor de águas e ciente disso, o bolsista trabalhará com muito esmero, à sua maneira, a fim de aproveitá-la da melhor forma possível.

Sim, retomando, o aluno chega com as mais diversas defasagens, produto da Escola pública, todavia, ao mesmo tempo, prova sua capacidade ao vencer o Enem, mesmo sem ter tido a famigerada “época do cursinho”, sem aquele “terceirão” preocupado com o vestibular, aquele que vai pra “Porto”. Sem estrutura, sem apoio, sem acesso à direitos básicos, mas lê, estuda, se informa, é autodidata e aos poucos, cria o seu repertório acadêmico para enfrentar o mundo. Uma vez dentro da Universidade, quando ouve frases como “vocês aprenderam isso na escola”, o aluno se dá conta de que precisa estudar ainda mais e é justamente isso que o motiva a seguir em frente e ser, cada vez mais “o melhor”. Não se trata de um discurso que faz coro com a meritocracia (até porque, isso é impossível em nosso país) , tampouco de uma romantização de públicos vulneráveis, até porque, na prática, isso não é nada bonito, dói.

Tal qual Carolina Maria de Jesus, negra, pobre e favelada, nos encontramos ainda na diária entrada e saída do “quarto de despejo da cidade”, estamos recolhendo os papéis do lixo e escrevendo nossa história. Seus preconceitos, caro leitor, não são capazes de nos rotular à condições subservientes. Vestidos das indumentárias mais humildes e recolhendo papéis sujos, é que estamos escrevendo nosso best seller.84b731ac-d0f4-4399-ba29-e1762f09160f.jpg

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Jornal Prédio 3 – JP3, é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe e escreva! Siga no Instagram!