Por Carlos Roberto Parra

          Não era um dia comum no Inferno. Não que houvesse, para nós, algo de ordinário em qualquer dia no lago de fogo, que de lago não tem tanto assim, mas a ocasião entre os diabos era de festa. Após o excelente mandato de Maldanado, chegava a hora de seu sucessor, Pecabessa, assumir o posto de presidente das Regiões Infernais e, como era de costume, prepararam um jantar de gala red-tie em que o novo chefe de governo faria seu primeiro discurso.

          – Atenção – pediu um demônio do alto do púlpito – por favor, gostaria de pedir a atenção de todos por um momento.

          Pouco a pouco o falatório começou a cessar na medida em que os presentes voltavam seus olhos para o palco principal.

          – É com imenso prazer que anuncio Vossa Potestade, o Sr. Presidente das Regiões Infernais, Dr. Pecabessa! Por favor, fique à vontade.

          Levantou-se de seu assento, então, uma figura não tão imponente, de aparência comum e coluna um tanto quanto curva, todavia o respeito que inspirava era quase palpável. À pequenos e lentos passos, chegou ao púlpito, limpou sua garganta e se dirigiu, com voz serena, a seus companheiros:

          – Queridos irmãos, é um prazer estar aqui, neste momento, proferindo este discurso a vocês. Agradeço imensamente ao nosso chefe de Estado, Vossa Majestade, o Príncipe das Trevas, pela ilustre presença. Agradeço também a todos vocês, que apesar de todas as acusações de bondade a mim direcionadas, continuaram me apoiando e permitiram que eu chegasse até aqui. Agradeço também ao meu grande mestre e amigo Dr. Maldanado, cujo brilhantismo conheci quando ingressei, ainda um pequeno diabinho, na Academia de Treinamento de Tentadores para jovens demônios, logo após um horrendo discurso do falecido Dr. Remeleca. Quem imaginaria que hoje eu estaria aqui, assumindo o posto mais alto que um diabo pode almejar? Ou ao menos que pode almejar sem ser expulso do país.

          Estou ciente de nossas dificuldades pontuais, pois, apesar de agir sempre da mesma forma, o Inimigo segue tendo êxito em resgatar de nossas mãos aqueles que Ele deseja, todavia é necessário olhar o lado cheio do copo. Graças ao excelente trabalho realizado pelo meu antecessor em seus mandatos, hoje nossos esforços são reduzidos pela metade, senão mais! É claro que seu antecessor, o último representante eleito do Partido do Belzebu, fez um ótimo trabalho quando aplicou o programa Facho Unido na Europa. Ainda me lembro de, sendo ainda um acadêmico em formação, ouvir infinitas críticas sobre como o governo faria para transformar um pintor fracassado em algo que nos fosse útil, ou mesmo aquele jornalista italiano, apesar de Vero Eretico, que ninguém dava um centavo, bem como da surpresa de todos com o resultado excepcional. Mas a sutileza do último mandatário é inigualável. Nem mesmo eu me atrevo a dizer que posso realizar coisas maiores enquanto estiver na cadeira presidencial. Foram, de fato, feitos incríveis!

          É muito bonito falar de nossos trabalhos mais destruidores. Quem nunca se animou nos bancos da Academia ao ler sobre Qin Shi Huang, ou nunca sonhou em um dia produzir um Farinata através de suas próprias tentações? Se cabe aqui um relato pessoal, sempre invejei o trabalho que Vossa Majestade realizou com Caim. Imagina só tentar alguém a matar um quarto da população mundial? Todavia, admiro muito, talvez mais do que qualquer outro, o trabalho de meu antecessor, Dr. Maldanado. Nenhuma estratégia poderia ser de maior utilidade para a causa do Inferno do que a total destruição da verdade. Não a Verdade, com um V maiúsculo – quisera eu poder destruir o filho do Inimigo. Mas a verdade enquanto valor. O melhor de tudo é que, para isso, ele sequer precisou retirar o apreço que os homens têm por ela, muito pelo contrário, foi isso que ele proporcionou: verdades, verdades para todo mundo! Cada um com sua verdade. Logo nós, filhos da mentira, utilizando da maior arma de nosso Adversário em nosso favor.

          Não foi, entretanto, um trabalho fácil. Não! Foi necessário muito esforço e muitos grandes homens. Obviamente foram de grande utilidade os escritos daquele bigodudo que foi formado no governo anterior, mas ainda muitos haveriam de vir. Primeiro fingimos provar – convenhamos que esses humanos se impressionam com pouco – que o mundo real não é passível de ser conhecido, depois aumentamos o conceito para a inexistência de um “mundo real” – finalmente consumando uma obra que havia sido iniciada com Górgias. Depois disso, sequer foi preciso nos preocupar com a filosofia – que à essa altura já havia se tornado uma filodoxia. Nosso único papel foi instigar o ego nos homens, pois logo já estariam utilizando nossas ideias em favor próprio, a verdade, enfim, passou a ser plural, nada universal, mas democrática, cada um podia livremente (rá!) escolher a sua.

          Por falar em democracia, aí está outra grande ideia do Dr. Maldanado, banalizar essa palavra, tirar seu significado e, acima de tudo, transformá-la em um ídolo. Quer ter seu próprio dinheiro? É antidemocrático! Quer pensar diferente da intelligentsia? É antidemocrático! Quer que crianças sejam reprovadas por não alcançarem boas notas? É antidemocrático! Tudo é democracia, nada é democracia e assim caminham os pobres humanos depositando no “eu sou igual a você” todos os seus desejos invejosos e avarentos travestidos de preocupação com uma democracia que sequer sabem definir.

          Que diremos, pois, à vista destas coisas? Não mais precisamos fazer muito para atrair nossas presas. Eles vêm até nós com suas próprias pernas! É claro que desde o Dia da Serpente – que não sem razão veio a se tornar nosso maior feriado – a natureza humana se tornou parecida com a nossa, mas nunca foi tão fácil a manter assim. Não precisamos colocar maus desejos em seus corações ou tentá-las ao mal, basta mantê-las no conforto de suas casas que ali mesmo podem cometer toda sorte de pecados. Nem a luxúria de Casanova, a injustiça de Giges ou mesmo a loucura de Nero nos foram tão valiosas quanto o ócio e a futilidade dessa geração. Portanto, espero que no decorrer deste mandato possamos mantê-los ainda mais enfurnados em seus próprios egos e afundados em seus próprios desejos. Mais uma vez obrigado a todas as Vossas Desgraças pela presença e pelo apoio. Seis vivas à futilidade!

          – Viva! Viva! Viva! – gritaram os demônios reunidos – Viva! Viva! Viva!

Publicado Por Carlos Roberto Parra


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