WhatsApp Image 2020-05-07 at 7.35.45 PM (1)A cada cem anos, aproximadamente, a espécie humana enfrenta tempos de pandemia.

São tempos difíceis para todos, onde não há predileção.

Tempos aonde os valores e antigos paradigmas são questionados.

Tempos aonde é colocado em cheque a competência de especialistas.

Tempos aonde muito do que se aprendeu deve ser reaprendido.

E, nesta ceara, diante da pandemia, há os que estão na linha de frente. Este termo, “linha de frente”, tem origem nas guerras onde os soldados de frente da batalha são sempre os que irão morrer primeiro. Quando se trata de uma infecção de alto contágio, os “soldados” da linha de frente são aqueles que dão suporte para que os demais não sucumbam. E, se estes adoecerem, no caso concreto, não teremos os soldados de retaguarda para que a integridade dos demais seja garantida.

Ou seja, os profissionais da saúde são solitários, sendo os únicos soldados, pois não há que se falar em soldados de retaguarda, mais bem equipados para enfrentar a pandemia e o alto contágio dela proveniente.

Diante disto, faz-se necessário uma reflexão.

Profissionais da saúde, neste caso, não podem adoecer, pois inexiste quem esteja na retaguarda, sendo que, os soldados da frente da batalha são os mesmos que, em tese, estariam na retaguarda, ou seja, todos os Profissionais de saúde, sejam eles de hospitais altamente especializados, de Unidades de Terapia Intensiva ou de Unidades Básicas de Saúde, correm riscos de se contaminar, se não protegidos e “cuidados adequadamente”, seja no que tange ao adoecimento físico, por uma infecção de alto contágio, seja em relação ao adoecimento mental, decorrente da enorme pressão psicológica.

Profissionais da saúde devem trabalhar com segurança, não apenas para garantir a própria saúde, mas também a vida dos demais.

Tenho observado muitos questionamentos, alguns de operadores do direito, à respeito de sua liberdade, ou de seu direito de ir e vir.

Todos nós, conhecedores ou aprendizes da Constituição Federal e dos Direitos Fundamentais, bem como aqueles que pouca ou nenhuma chance tiveram de estudar, sabemos, quase que por instinto, qual é o direito mais precioso e que deve ser preservado quando cotejado com os demais: a vida. E, quanto a isto, acredito não haver grandes divergências.

Sabemos o quanto nossos direitos devem ser colocados em uma balança de proporcionalidade.

Sabemos, ainda, que o direito de ir e vir, quando cotado junto ao direito a vida, este último é o mais primata, inerente não apenas aos seres humanos, mas a todos os serem que respiram em suas múltiplas formas em nosso planeta.

Posto isto, importante frisar que não há vida humana que valha mais que outra vida humana, quando cotadas em paralelo.

No momento em que um médico é posto a escolher entre duas vidas, ou entre a própria e a de outrem, não está, ele, a exercer a medicina, mas a exercer a terrível função de um deus seletivo, para o qual um ser merece ter mais chances do que outro ser.

E ninguém merece ter esse papel, seja pela sua consciência, seja pelo objetivo maior do seu ofício, que é o de cuidar, salvar, curar, e, quando isto não for possível, confortar.

Não são os médicos seres desprovidos de sentimentos, emoções, dores, questionamentos. E quem disse que deve ser assim? Quando da escolha desta profissão, não foram eles obrigados a abrir mão de seus sentimentos, e jamais foi previsto ter que escolher quais vidas merecem sobreviver.

Os profissionais de saúde não são eles transmissores como dizem alguns. São “cuidadores”. E, sem eles, quer adoeçam física quer mentalmente, não haverá salvação para ninguém.

Os Equipamentos de Proteção Individual são mais do que necessários neste período, sendo imprescindíveis aos profissionais de Saúde.

No Município de São Paulo, no dia 25 de abril do corrente ano, constatou-se 3.106 profissionais de saúde afastados, dos quais 713 casos confirmados com Covid 19, e 13 óbitos decorrentes.

Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para profissionais de saúde devem ser prioridade em todo o país. Dentre todas as compras, a que mais se deve investir neste momento é a de EPI para estes profissionais.

Para cada médico que adoece, muitos pacientes ficam sem assistência.

São necessários leitos sim, mas são imprescindíveis profissionais aptos a manipular leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Sejam fisioterapeutas habilitados a operar ventiladores, médicos e enfermeiros, bem como técnicos das mais variadas áreas.

Impossível não falar da questão psicológica destes profissionais, do enorme peso que carregam, sem tempo ou disponibilidade do autocuidado, sejam eles médicos, enfermeiros, profissionais da segurança, limpeza, dentre outros que “não podem parar”.

Enquanto as demais áreas podem e DEVEM permanecer em isolamento, estes não podem parar, sendo eles, imprescindíveis para que superemos este período com o mínimo de sequelas.

E quem irá cuidar deles?

Muitos profissionais de saúde são grupos de risco ou apresentam quase na sua totalidade parentes próximos que são grupos de risco e, enquanto salvam a vida de alguns, estão colocando em risco a vida de seus familiares.

Este artigo está longe de esgotar o tema, mas deixo um questionamento. De quem é a responsabilidade de zelar por quem cuida e cura muitos de nós, colocando em risco a própria vida?

Insisto em dizer que esta responsabilidade é de todos. De toda uma sociedade e particularmente de cada um de nós. Cada um no seu ofício, cuidando da própria saúde e zelando pela saúde dos nossos profissionais incansáveis.

Em meio a tudo isso temos que tirar um aprendizado: o que realmente importa é a vida, em todas as suas maneiras de expressão, a vida humana, a vida de todos, jovens, idosos, pretos, brancos, deficientes, amarelos. Ou seja, não há vida que valha mais que outra vida. Findo propondo que cuidemos de quem cuida do que temos de mais precioso. Protejamos quem traz esperança aonde não havia esperança.

Eles também sofrem, também adoecem, tem familiares, filhos e dores, principalmente quando se deve escolher entre vidas.

Parabenizo este projeto, de suma importância, o de cuidar de quem está lá na frente da batalha. Pessoas que são frágeis e que tem sobre seus ombros o desconhecido.

Agradeço por tomarem para si esta responsabilidade que é de todos.

@Projetohigiamentesaudavel

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Melina Pecora, médica com formação pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, títulos de especialista em Pediatria e UTI Neonatal, advogada, pesquisadora.

Postado por Bruno Boscatti


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