13 de junho de 1888​. Cidade de Lisboa. Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, filho de Joaquim de Seabra Pessoa (funcionário público e crítico musical) e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira. A morte do pai, em 1893 (aos cinco anos de Fernando Pessoa), é uma grande marca na vida do autor, trazendo grandes dificuldades financeiras à família, que passou a viver na casa de Dionísia, a “avó louca” do poeta. No ano seguinte, morre seu irmão Jorge, que nasceu no ano da morte do pai, e surge o Cavaleiro do Nada, Chevalier de Pas, o amigo imaginário para quem Pessoa escrevia cartas. Tendo atingido esse ponto, abdico em parte dos números e precisões, tão rigorosos e fixos, para abarcar toda a flexibilidade do autor aqui em destaque de uma maneira mais fidedigna e menos documental.

É comum a associação do nome Fernando Pessoa a seus heterônimos, recebendo destaque Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, embora muitos mais tenha havido. Os primeiros heterônimos de Pessoa surgiram na adolescência do poeta e aqui ressaltamos dois: Alexander Search e Charles Robert Anon. Ambos eram também adolescentes (o primeiro inclusive tinha como data de nascimento a mesma de Pessoa), mas, enquanto Search podia se aproximar mais de Fernando, Charles carregava o temperamento oposto. Aqui começa a se delinear a grande qualidade do poeta fingidor. Com o tempo, Fernando Pessoa se muda sucessivas vezes com sua família, perde a irmã e outros familiares e até se inscreve na Faculdade de Letras, embora quase não frequente o curso. Acaba por trabalhar como correspondente de línguas estrangeiras e tradução. Estreia na literatura com a publicação não de poesias, mas de artigos na revista ​A Águia​, sofrendo várias críticas ao provocar polêmicas junto à intelectualidade portuguesa. Logo sua produção poética começa a crescer e surge seu mestre: Alberto Caeiro. Em uma carta a Casais Monteiro, o poeta descreve como foi o momento que se deu conta da presença de Alberto Caeiro, um de seus principais heterônimos, reconhecido como mestre até pelo próprio Pessoa.

“E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não
conseguirei definir. (…) Abri com um título, ​O guardador de rebanhos​. E o que se
seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de
Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu
mestre.”

Assim deu-se o nascimento, em sequência, dos demais heterônimos supramencionados. Cabe destacar já a diferença entre pseudônimo e heterônimo. O primeiro tem como finalidade esconder o autor por trás de um nome falso. Em contrapartida, o último é a criação de uma nova personagem, que escreve sua própria obra e guarda sua própria personalidade, sem a intenção de esconder o autor, voz independente. O criador do heterônimo é conhecido como ortônimo, tendo sido Fernando Pessoa o próprio responsável pela criação dessa designação.

A partir daqui, fica clara a falta de necessidade dos números com os quais começamos. Falar sobre Fernando Pessoa é algo que vai muito além de uma mera biografia que, inclusive, pode ser considerada a parte menos interessante. A grande questão acerca de tão reconhecido nome está na sua identidade e sua relação comos heterônimos. Parece me contraditório querer resumir tal poeta aos dados numéricos e históricos de sua vida material, haja vista que seu reconhecimento é em grande parte marcado pelo imaterial, as personagens criadas, sua identidade e suas ideias. O próprio ortônimo tem uma obra vasta e de grande complexidade, mas, como aqui não cabe a análise profunda de tal produção poética, venho propor uma discussão acerca da validade ou não de perguntas como “Quem é Fernando Pessoa?” e seus desdobramentos. Para tanto, selecionei 3 poemas para melhor ilustrar as principais características do patrono aqui estudado e sua relação com o leitor e os heterônimos.

alemack

Poema 1: Autopsicografia (Fernando Pessoa ortônimo)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração

Poema 2: Isto (Fernando Pessoa ortônimo)
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

Poema 3: O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro)
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei.Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, ​Aqui estou​!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

A partir daí, podemos divagar na relação de Pessoa com seus heterônimos e também com o leitor. Nos poemas 1 e 2, percebemos que o poeta admite uma postura diferenciada quanto à relação que tem com o leitor, entregando a este a carga sentimental do poema. Assim, é exposta a confecção racional do poema, escapando do subjetivismo do autor, já que o próprio leitor fará uma interpretação com sua própria subjetividade.

Discute-se o possível motivo pelo qual o poeta não queria revelar-se criador de
seus heterônimos, o que envolve certamente a relação com o leitor e o modo como o
último faria sua leitura. O que sabemos é que Fernando Pessoa procurou a
independência entre si e seus personagens e uma verossimilhança tamanha que
toda a criação só fora levada a público após a morte do poeta, a partir de uma carta
que enviara a um amigo, responsável pela divulgação da verdade por trás dessas
personalidades.

Nesse sentido, é extremamente comum que, passados 84 anos da morte do
autor, datada de ​30 de novembro de 1935​, os leitores ainda tentem investigar mais
a vida e a obra de Pessoa e seus heterônimos para tentar descobrir quem
supostamente era o autor, suas intenções subjetivas com a criação dos personagens
e sua motivação para manter esse segredo. Assim, não posso me abster da
discussão e, para melhor explicar meu posicionamento, retomo o poema 3 a partir
do trecho a seguir transcrito:

“Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Alberto Caeiro e Ricardo Reis e Álvaro de Campos e Fernando Pessoa,
Se ele me aparece como sendo Alberto Caeiro e Ricardo Reis
E álvaro de Campos e Fernando Pessoa,
É que ele quer que eu o conheça
Como Alberto Caeiro e Ricardo Reis e Álvaro de Campos e Fernando Pessoa.”

Note que uma pequena edição foi feita para melhor transparecer meu entendimento acerca da obra e da discussão aqui proposta. Em outras palavras, acredito que levar a fundo a discussão de quem era ou não Fernando Pessoa nos encaminha a muitas interpretações e suposições que acabam por se fundamentar mais na subjetividade do próprio leitor do que da racionalidade do poeta, que se entretém com esse comboio de corda (metaforicamente).

Em suma, Fernando Pessoa é exatamente quem se mostrou ser, pois é assim que ele se fez, para nós o vermos. Destaca-se em toda sua produção, principalmente, o caráter poético mais imaginativo do que sentimental, e a vivência de cada estado de alma “antes pela inteligência que pela emoção”. Ele é “como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas”, como ele mesmo nos descreve. Caso o leitor não goste do meu posicionamento ou o ache insuficiente, defendo-me com uma última citação atribuída a Caeiro:

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.”

Escrito por Juliana Bueno, membro da ALEMack

Postado por Rafael Almeida

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