Durante a última semana, o filme “O Poço”, produção espanhola da Netflix, tem dado o que falar, gerando inúmeras interpretações. Hoje, gostaria de compartilhar resumidamente a minha interpretação do filme, sem prejuízo de qualquer outro entendimento. Peço licença para escrever na mesma disposição lógica que me ocorreram os pensamentos no decorrer da experiência pós filme.

Dessa forma, para que possam compartilhar da linha de raciocínio, dividi a reportagem em tópicos repletos de spoilers, então se ainda não viu la película, vea ahora!

Para evitar qualquer prejuízo por esquecimento de personagens, segue uma relação de nomes e traduções.

Goreng: em malaio, significa frito. O termo Nasi Goreng, ou arroz frito, é uma culinária malaia consumida pelos brasileiros em rodízios de comida oriental.

goreng

Buharat: palavra utilizada na cozinha turca, grega e no oriente médio para designar uma mistura de temperos

barahat

Imoguiri: é um complexo de cemitérios reais em Yogyakarta, no centro-sul de Java, na Indonésia. Além de significar montanha de neve, usada para designar a cadeia montanhosa Himalaia.

imoguiri

Miharu: cidade de localizada na província de Fukushima, no japão, atingida pelo acidente nuclear ocorrido em 2011.

miharu

Trimagasi: união das palavras “terima kashi” que significa agradecimento no idioma malaio.

trimagasi

Brambang: na indonésia, a palavra significa cebola roxa.

Brambang

Ramsés II (cachorro da Imoguiri): Ramsés II foi o terceiro faraó a governar a 19ª dinastia do Egito. Suspeitasse que tenha causado a morte de seu irmão, próximo na linha do trono. Com a morte de seu irmão, aos 14 anos, Ramsés foi declarado o príncipe regente e posteriormente o faraó.

333 níveis com 2 pessoas em cada nível: 666

Logo que filme termina, nos deparamos com uma mensagem de caráter bíblico, funcionando como um convite ao espectador para repensar o que acabou de ver. Com 333 níveis e 2 pessoas por andar, temos 666 indivíduos compondo a estrutura do poço. O que indica que a logística do poço, embora defendida pela administração, era motivada na crueldade, desapego à vida e castigo aos “pecadores”

Representação da sociedade

Acredito que seja uma das mensagens mais perceptíveis do filme, mas vamos destrinchar…Quando o filme dispõe personagens em uma estrutura vertical, onde os de cima são mais favorecidos e os de baixo menos, certamente está fazendo uma referência às relações viscerais geradas pela desigualdade social, óbvio.

“Você é comunista? Os de cima não ouvem comunistas” – Trimagasi

Essa frase, dita pelo velho Trimagasi (companheiro de cela do protagonista), após Gureng ter cogitado em pedir para que racionassem a comida, reflete algo muito presente  na sociedade: a desqualificação intencional de discursos para manter comodidades e permanecer no status quo (manter as coisas como elas são). Sem dúvida, a intenção de racionar comida para sobrevivência de todos não é um discurso essencialmente comunista, mas humano. Aplicando à nossa experiência cidadã, benefícios públicos aos mais pobres são frequentemente definidos como práticas comunistas pela classe média ou alta.

Livro Dom Quixote e faca Samurai Plus

Com o passar do tempo no poço e o aumento da dificuldade de comer, a cultura, representada pelo livro Dom Quixote, torna-se cada vez mais inútil, ao contrário do que acontece com a violência, representada pela faca Samurai Plus. A faca, inclusive se amola sozinha, simplesmente com o próprio ato de cortar – uma metáfora bem construída para o fato de a violência gerar mais violência.

Essa mensagem fica clara quando a ex-funcionária da Administração, Imoguiri, grita com Goreng, questionando por que alguém traria um livro para um lugar como aquele.

O Cavaleiro andante de la mancha

Quem já leu a obra de Miguel de Cervantes, sem dúvida assemelhou o protagonista com as características físicas do personagem Dom Quixote. Isso revela que Goreng possui uma postura de viajante no filme, levando a bondade através da loucura. Insanidade essa de contestar a lógica vigente do poço, aparentemente incontestável.

Mais do que isso, a obra Dom Quixote data de 1605, quando, observando o decaimento dos romances de cavalaria, o autor resolveu fazer uma sátira com o gênero. Por consequência, a obra representa uma sátira à retratação dos cavaleiros romanos da idade média. Mais tarde falarei um pouco mais dessa ligação.

“Qual o nome do seu filho?” – Goreng

Como já vimos, no poço os nomes dos personagens possuem significado, traduzindo seu  papel no filme. Ironicamente, muitos são traduzidos do malaio para algum tipo de comida. Além de ser uma menção à importância da comida no contexto do poço, nos indica um pouco sobre a relevância de cada personagem no filme. Assim, Goreng (arroz frito), Buharat (temperos) e Brambang (cebola roxa) são ingredientes de uma receita para um acontecimento relevante: a transmissão de uma Mensagem.

O filme confirma esse aspecto na fala de Goreng, quando pergunta à Mihurat qual o nome de seu filho, ficando sem resposta. Por certo, mesmo sem retorno, o nome da criança seria relevante à trama, provavelmente indicaria um gênero de comida. O que nos leva à mensagem principal que Goreng e Buharat tentam passar à administração.

“A panna cotta é a mensagem” – Brambang

Como insinuado por Brambang, o fato de a panna cotta chegar intacta de volta ao nível 0, seria incontestavelmente uma quebra do sistema. Uma vez que a estrutura do poço é pensada para despertar o pior da sociedade, individualidade e crueldade. O fato de um prato ser recusado, significaria que houve um ato de consciência coletiva dos prisioneiros para formular um gesto de protesto, indicando esperança à Administração.

Mas quem é a Administração?

Para responder essa pergunta, analisaremos o filme como um todo. Comecemos pelas mensagens bíblicas. Como explicarei ao final, penso que a bíblia foi meio pelo qual a mensagem do filme pôde ser transmitida de maneira universal, mas de nada trataria de um significado religioso. Acompanhe.

O número de indivíduos sujeitos ao poço, 666, faz alusão ao número da besta, mencionado no “livro da revelação” – parte da bíblia que retrata visões do apocalipse. Esse fato nos indica para além da crueldade sistemática ou castigo eterno daqueles que  estão sujeitos ao poço, mas é um aviso para procurarmos por passagens bíblicas.

“Você violou o quinto mandamento” – Goreng

Quando Goreng insinua que o Trimagasi matou seu último companheiro de cela, afirma que o velho violou o quinto mandamento (não matarás). Dessa forma, mesmo sabendo que ao matar, Trimagasi teria violado a lei de seu Estado, Goreng menciona a lei de Deus. E essa associação não é estranha ao velho Trimagasi, que não manifesta surpresa. Com isso, entendo que os 10 mandamentos seriam a lei instituída pela Administração. Logo, a lei de Deus seria a lei da Administração.

7 pecados capitais

No decorrer da descida ao último nível, nos deparamos com alusões aos 7 pecados capitais. Sejam eles:

Gula: cena em que o menino deficiente afirma que cortará a barriga do companheiro de cela para comer a comida que lhe foi dada.

Ganância/avareza: em determinado nível, nos deparamos com um senhor que trouxe uma elevada quantia em dinheiro para o poço, mesmo sabendo que não teria utilidade. Provavelmente apenas para não deixar à mercê de seus familiares.

Ira: cena em que Goreng e Baharat encontram dois indivíduos atacando a Miharu, armados com espadas.

Luxúria: representada pelos atos do casal acima do nível 6, de onde partiram Goreng e Baharat para sua missão de levar comida a todos os níveis.

Preguiça: em determinado nível, encontramos uma pessoa deitada que não se levanta com a chegada dos missionários, claramente sem o menor interesse em se posicionar frente aos novos acontecimentos.

Orgulho/vaidade: mesmo sabendo que trazer um cachorro não seria uma escolha solidária ou bem vista no poço, Imoguiri escolhe Ramsés II para acompanhá-la. Ainda que não soubesse de todos os aspectos do poço, Imoguiri sabia que havia pelo menos 200 níveis e que trazer um cão poderia causar a morte do animal. Foi uma escolha vaidosa, um capricho desnecessário.

Inveja: a inveja é elemento estrutural do poço, os níveis mais baixos sempre almejam às condições dos níveis mais altos, e fariam qualquer coisa para tê-las.

Com isso, sabemos que não é atoa que Dom Quixote, o livro escolhido por Goreng, é uma sátira com a cavalaria romana da idade média, povo que crucificou Jesus Cristo. Da mesma forma, não é coincidência Goreng ser constantemente chamado de messias pelas assombrações de Trimagasi e Imoguiri. E sobretudo, não é ao acaso a caracterização final de Goreng, muito semelhante à representação de cristo caminhando para a cruz.

goreng ferido

Sabendo disso, se fosse um Scotland Yard, meu palpite seria:

A Administração nada mais é que uma representação divina, o cozinheiro chefe seria Deus que coordena seus representantes para fornecerem à humanidade um castigo, mas com uma bondade divina irreal – algo confirmado pela cena do cabelo no banquete. Goreng seria o messias, afinal, ele se sacrificou para dar esperança aos demais. A Mensagem é a esperança de que, em meio ao pior da humanidade, ainda há inocência e pureza. Além da criança demonstrar esses aspectos, também revela que a Administração não tem pleno controle sobre a estrutura do poço, como pensa ter.

A falta de controle fica escancarada quando a criança retém a panna cotta no nível 333. Mesmo após a plataforma ter descido, não vemos nenhuma alteração de temperatura no nível. Dessa forma, a justificativa que o poço existe para gerar solidariedade espontânea, cai por terra, revelando a crueldade da estrutura ao não se importar com o controle dos últimos níveis.

Inclusive, esse fato gerou o suicídio de Imoguiri…Ao se deparar com o nível 202, Imoguiri soube que a lógica do poço não era solidária, mas simplesmente cruel, pois não haveria comida suficiente para mais de 200 níveis. Isso mostrou que sua passagem voluntária pelo poço não havia sentido algum.

“A Administração não tem consciência, mas alguém no nível zero pode ter” – Brambang

Voltando ao assunto do começo: a mensagem do filme não é religiosa, ao contrário. Em minha interpretação da Administração como Deus, a frase de Brambang insinua que a Deus não tem consciência, mas seus representantes sim. Ora, se Deus não tem consciência, ele teria sido inventado por quem tem. E, na verdade, o controle da humanidade estaria na mão de seus supostos representantes divinos, que castigam seus pares sob a justificativa de estarem fazendo a vontade de Deus. Acredito que nossa civilização já se deparou algumas vezes com essa situação…

Bônus – por que a criança está no último nível?

Supondo que Miharu tenha entrado como voluntária apenas para proteger sua filha, com o tempo elas descobriram que os níveis mais baixos tem menos controle da Administração, e, assim, a comida poderia ser retida fora da plataforma. Dessa maneira, todo vez que Miharu descia com a plataforma, levava em seus bolsos comida para sua filha, que poderia manter armazenada por vários dias sem alteração de temperatura no nível. Dessa forma, a criança conseguia sobreviver no poço, sempre se escondendo embaixo da cama e evitando que a Administração a encontrasse na troca mensal de níveis.

Bruno Boscatti

Análise dedicada a minha amiga quarentena

 

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