Rodrigo Portella Guimarães

Relembrar a infância é um exercício nostálgico em que, geralmente, revivemos bons momentos de brincadeiras, correrias e descobertas. Porém, por estarmos em fase de crescimento e desenvolvimento cognitivo, deixamos de prestar a devida atenção para os aspectos mais ocultos das coisas. Embora rodeado pelo seu caráter lúdico, o quebra-cabeças é o exemplo claro dessa afirmativa. Fato é que uma completa compreensão de sua essência nos fornece uma lição que seria fundamental, não apenas aos problemas individuais mais (sic), também, ao cenário político e econômico enfrentado pelo Brasil, hoje.

Para montarmos um quebra-cabeças, antes de mais nada, temos que retirá-lo da caixa. E, já nesse momento, algumas considerações podem ser feitas. Geralmente, as peças vêm embaralhadas da maneira mais aleatória possível e, o único guia que temos é uma abstração: a imagem presente, geralmente na tampa, tida como a correta organização das peças, isto é, um tipo-ideal da correta conformação das coisas. Uma vez feito o exercício de retirá-las da caixa e descobrir a correta engrenagem, devemos nos questionar: o que fazer para chegar lá?

aa

Primeiro passo é saber se, sozinhos, somos capazes de realizá-lo. Para tal, não basta apenas saber o número de peças, mas também, a dificuldade em organizá-las. E, se não, quais pessoas vamos escolher para realizar tal missão: as mais espertas ou as que são mais nossas amigas; por que não, uma mistura dos dois grupos? Dependerá da estratégia a ser seguida, que leva em conta tempo e eficácia, acima de tudo. Uma vez levado em conta tais pressupostos, podemos seguir.

De pronto, pensamos que temos as possibilidades de começar pelo meio ou pelas bordas, ao que respondo que a única forma correta é a segunda. E, isso, não por mero dogmatismo burro, mas pela lógica das coisas. Não há como se obter o resultado correto, se não dermos o formato e a base inicial a ser seguida. Isto é, seja qual for o formato da coisa, se circular, triangular ou quadricular, fato é que o que da identidade à coisa são suas bordas, isto é, o pressuposto inicial que devemos partir e, só então, seguimos em direção ao núcleo.

Além do trabalho, muitas vezes em equipe ou autônomo, bem como, da necessidade de uma estratégia e um percurso previamente definido a seguir, fato é que, quase que invariavelmente, percalços serão encontrados. E isso vai desde um erro em uma peça a ser colocada até uma falha integral na estratégia seguida, o que pode envolver tanto o plano em si como as pessoas escolhidas para executá-lo. Nesse cenário, o caminho mais fácil a ser seguido, por óbvio, é o da desistência; o correto, todavia, é o da análise. Ter um objetivo significa, além de tudo, resistência e pragmatismo, nisso envolvendo doses de experimentalismo e criatividade.

Em última instância, a essência do quebra-cabeças é planejamento, é seguir o plano, tendo em vista a aleatoriedade inicial e o tipo-ideal a ser alcançado.

Ainda que tal brincadeira seja muito popular no nosso país, fato é que tal lição não é apreendida por nossas crianças, tornando-nos um povo alheio a planos e objetivos. Nesse cenário, com uma cultura carente desse aspecto, nossos governantes passam a reverberar tal comportamento, em uma prática governamental de medidas aleatórias, pontuais, sem um devido plano de fundo, um, assim chamado, tipo-ideal.

Muito se discute, hoje, nas camadas à esquerda, que dois são os problemas centrais para a construção de um outro Brasil: o afastamento em relação às bases (o debate esta concentrado nas universidades, alheio ao povo) e a hegemonia petista, enquanto um partido antiquado, burocrata e corrupto. De pronto, nego as duas afirmativas, pois elas erram na lição primordial do quebra-cabeças: não há como começarmos sua montagem se não soubermos o que queremos montar. Não da para defendermos um outro país se não soubermos qual o nosso tipo-ideal. Ou seja, o pressuposto fundamental da esquerda deve ser a proposição de um efetivo projeto de país. E, isso, jamais poderá ser mero artifício retórico, camuflado com expressões genéricas, do tipo, “mais igualdade, menor pobreza, menos violência”, mas com metas, estratégias e pensamentos de curto, médio e longo prazo. Por óbvio que é um modo facilitado em governos ditatoriais, porém, a prática demonstra que é também adequado aos sistemas democráticos, desde que uma cultura àquele seja construída.

Por óbvio, uma ressalva deve ser feita: não podemos cair na ilusão do senso comum, do consenso. Não existem sociedades perfeitas, em que todos sairão felizes e contemplados, sobretudo, no interior da conformidade capitalista, regida pela lógica da escassez. Ou seja, o primeiro passo do projeto é escolher quem serão seus contemplados e, apenas dessa maneira, um trabalho efetivamente de base, ou seja, do convencimento direto, pode ser feito. Além disso, apenas com a apresentação de um projeto sério podemos descobrir quais são os partidos, de fato, comprometidos ou não com nosso povo.

E, dentro disso, como se configuraria tal projeto? Estipular metas de acordo com a complexidade e tempo é caminho mais preciso. Então, se quisermos possuir um Brasil soberano, com diminuição profunda da pobreza, com erradicação dos preconceitos e com elevado desenvolvimento tecnológico e científico, a longo prazo, devemos ter a noção do que fazer no hoje, no amanha e daqui a 20 anos.

Nesse percurso, como muitos problemas serão enfrentados e, muitas das estratégias irão se demonstrar ineficazes, a mitologia descritiva do nosso povo parece estar ao nosso favor. O que seria o “jeitinho brasileiro” se não, um gritante pulsar de criatividade, motor de um experimentalismo essencial ao nosso desenvolvimento. Então, por que não imaginar uma região de livre-iniciativa combinada com áreas fortemente reguladas, tudo isso a serviço do projeto imaginado. E, se algo der errado, usamos a criatividade do nosso povo, para remodelarmos o que erramos?

Fato é que demonstramos ignorar uma lição fundamental de um dos jogos mais banais de qualquer criança brasileira e, nisso, passamos a enfrentar o estado de coisas hoje instalado, de um profundo desrespeito com o povo brasileiro, que constrói, dia a dia, esse país, mas que não vê qualquer fruto disso. Mudaremos quando tivermos o compromisso de sermos grandes, livres e soberanos. Seremos capazes quando houver a disposição de pensar e propôs um novo Brasil a todos aqueles que não aguentam mais estar onde estão e receber ideias daqueles que sempre as proferiram. O meu quebra- cabeças forma um novo e pulsante Brasil.


A Gazeta Arcadas é a revista digital de alunos e docentes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), com características e formas próprias. Em uma parceria firmada entre o JP3 e a Gazeta Arcadas, há trocas de textos todo mês, com variados temas. Confira o texto do JP3 na Gazeta Arcadas!

Postado por Rafael Almeida

Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3

 

Mais notícias e informações:

Jornal Prédio 3 – JP3, é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe e escreva! Siga-nos no Instagram!