Por Carlos Roberto Parra

No texto da última semana, começamos a analisar as virtudes intelectuais de forma individual, começando justamente por aquelas necessárias para um bom início de trabalho intelectual ou, como é o nosso foco aqui, de pesquisa acadêmica. A saber, passamos pela curiosidade, pela humildade intelectual e pela autonomia intelectual. Hoje, portanto, seguindo a lista apresentada, abordaremos as virtudes necessárias para uma boa execução. Vale ressaltar, porém, que não estou apresentando nenhuma espécie de receita de bolo ou fórmula mágica para aprender a pesquisar. Eu mesmo não sou nenhum autor de Cambridge Companion. As virtudes intelectuais, como vimos no primeiro texto da série, são habilidades e características adquiridas através da prática habitual a fim de alcançar os bens epistêmicos próprios da atividade intelectual e, acima de tudo, alcançar a sabedoria, que vale muito mais do que a simples inteligência.

Atenção

A primeira das virtudes listadas para uma boa execução do trabalho intelectual, enfim, é a atenção. Creio que não seja nenhuma novidade dizer que somos constantemente bombardeados por informações de todos os cantos, pulando das telas do celular e do computador diretamente para os nossos olhos, como que projetadas para tomar imediatamente nossa atenção. Até pouco tempo atrás não se falava de outra coisa senão o documentário da Netflix, “O Dilema das Redes”. Pois bem, não são poucos os adversários da atenção, sobretudo da atenção ao trabalho intelectual. Nós prestamos atenção ao ver filmes, séries, eventos esportivos e afins com muito mais facilidade do que ao estudar. Estudar não é uma atividade fácil e requer muito esforço, sobretudo quando ainda não há um costume bem definido. Sendo assim, o desenvolvimento da virtude da atenção é fundamental para o bom desenvolvimento da pesquisa acadêmica.

Desidério Murcho, em Virtudes Epistêmicas, nos lembra que “Os seres humanos conseguem feitos impressionantes — mas não sem as condições apropriadas. Ninguém ganha jogos olímpicos se não disciplinar a sua vida, orientando-a completamente pela dedicação que os treinos lhe exigem, e isto é óbvio talvez para qualquer pessoa. Menos óbvio é que o exercício apropriado da racionalidade — condição importante para o florescimento humano — exige também dedicação e colide com a atenção fugaz que salta de irrelevância para irrelevância, num desfilar sem fim de notícias e entretenimentos concebidos para chamar irresistível e instantaneamente a atenção, apesar de serem em absoluto irrelevantes para a própria pessoa.” E ainda que “somos também incapazes de crescer como seres humanos sem limitar cuidadosamente a nossa atenção ao que a merece.”

A verdade é que sempre estamos prestando atenção em algo. O grande desafio ao se desenvolver a virtude da atenção é justamente reordenar nossas prioridades a fim de destinar a atenção a algo que seja realmente digno dela. Assim como, no texto passado, diferenciamos curiositas e studiositas, temos que diferenciar a atenção ruim da atenção boa. É muito fácil desenvolver uma atenção corrompida, focada em coisas que não contribuem para o florescimento do trabalho intelectual – e falo também contra mim – mas o desenvolvimento de uma atenção que se dedique àquilo que contribui para a obtenção e manutenção dos bens epistêmicos é um trabalho que exige disposição e muita prática.

Diligência Intelectual

Parece óbvio dizer isso, mas, para o desenvolvimento de um trabalho intelectual virtuoso, é necessário evitar erros. Segundo a definição de Jason Baehr, a diligência intelectual é justamente “uma disposição a perceber e evitar armadilhas intelectuais e erros.” Ninguém gosta de errar, isso é verdade, mas ninguém gosta, também, de perceber que errou. Acredito que isso se comunique bem com a questão da humildade intelectual, que tratamos anteriormente, mas vai um pouco além. Parte da disposição em que consiste a diligência intelectual é a disposição a perceber os erros, ou seja, é necessário que, mais do que apenas evitar, se busque os possíveis erros presentes em seu trabalho. Enquanto, com a humildade intelectual, o pesquisador virtuoso reconhece que não é infalível e pode cometer erros, este se vale da diligência para buscar ostensivamente esses erros que pode ter cometido.

Murcho escreve que “Nenhuma compreensão da epistemologia é adequada, e nenhuma proposta promissora, se não incluir processos contínuos de correcção de erros. Quem gosta de exibir-se com opiniões muito chocantes e rápidas porque pensa que isso mostra a sua grande sagacidade mais não faz que provar a sua tolice.” E é comum que incorramos nesta tolice ao pesquisarmos. Não é raro, em grupos de pesquisa, presenciar um outro aluno falando de sua pesquisa como se acabasse de redescobrir a roda, mas perceber que, pensando um pouco mais profundamente, a ideia não tem sentido algum ou não há meios de ser atingida no momento. Ser diligente é reconhecer a própria falibilidade e estar disposto a empenhar-se em corrigir.

Rigor Intelectual

Isso nos leva, quase que inevitavelmente, ao rigor intelectual, que, segundo Jason Baehr, consiste em “uma disposição a buscar e prover explicações. Insatisfeito com meras aparências ou respostas fáceis. Procura por significado e entendimento mais profundos.” Isto é, vá fundo! Retomando a questão do imediatismo de informações que a era digital nos trouxe, encontramos aí outro inimigo do desenvolvimento das virtudes intelectuais. Pense no fenômeno das Fake News. Se aqueles que as propagam desenvolvessem algum nível de rigor intelectual, buscariam, antes de compartilhar qualquer coisa, informações mais profundas a respeito da notícia, do caso ou seja lá o que for. Não é incomum ver diversas hashtags sendo levantadas em todo canto da internet por conta de falas ou acontecimentos que, no final das contas, acabam por se provar opostos, ou pelo menos bem diferentes, do que se estava propagando. Murcho é incisivo, novamente, ao dizer que é “Claro que é mais fácil insistir nessas impressões superficiais, e é talvez algo irritante assumir que sem estudar cientificamente as coisas as impressões quotidianas são amiúde de valor cognitivo nulo, ou perto disso. E é também claro que ser exaustivo é uma virtude que, a ser praticada, eliminaria da vida contemporânea os intermináveis talk-shows televisivos em que se fala de tudo sem estudar seja o que for. Porém, uma vez mais, é preciso optar entre o exibicionismo mediático que nada contribui para o florescimento humano, e uma vida que leva a sério a tarefa de viver bem a vida.”

Imagine os efeitos disso na pesquisa. Eu mesmo não sou nenhum conhecedor de Kant, conheço apenas o básico e talvez nem isso direito, mas me lembro de uma ocasião em que estava conversando com um amigo que já leu mais Kant do que a sanidade média permite e havia um outro rapaz na sala. Esse rapaz veio conversar conosco. Logo de cara, começou a falar que discordava completamente de Kant, que achava a teoria ridícula e tudo mais, descrevendo alguma espécie de espantalho bem mal feito que ele havia construído sobre o filósofo. Até mesmo eu, ignorante no assunto, podia perceber que aquilo estava completamente errado. Parafraseando Dr. Davi Charles Gomes, a quem muito admiro, às vezes dois dedos de conhecimento é pior do que nenhum conhecimento. De nada adianta juntar migalhas e tentar construir alguma coisa sobre elas. Para o desenvolvimento de um trabalho intelectual, de uma pesquisa acadêmica ou qualquer outra coisa que envolva conhecimento, é necessário o rigor intelectual. É necessário ir mais fundo, buscar conhecer as nuances, as exceções, os pontos fora da curva, as críticas. De nada adianta apresentar uma vasta piscina de conhecimento se a sua profundidade não permitir sequer molhar os pés.

Vá fundo!

Agora que você já conhece as virtudes necessárias para um bom começo e um bom desenvolvimento, não espere mais e coloque a mão na massa! Como vimos no primeiro texto, as virtudes, muito mais do que meras apreensões intelectuais, são práticas, hábitos, são características que se desenvolvem única e exclusivamente por meio do exercício. Busque um livro, encontre um tema, pesquise! Mas lembre-se de não se contentar apenas com a superficialidade do conhecimento ou deixar erros sem correção por desatenção ou preguiça. Seja intencional na pesquisa, não faça apenas pra cumprir tabela. Dificuldades virão e o próximo texto é justamente sobre elas. Até lá!

Referências Bibliográficas

Publicado por Carlos Roberto Parra


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