Por Gabriella Assalis

A natureza da palavra amar tem base filosófica e dá margem a diversas discussões, em que Baruch Spinoza, filosofo holandês, chegou a descrever como “amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.” (Espinoza; Ética, parte 3).

Na Grécia o termo amar se dividia em três : Eros (como um amor apaixonado e muitas vezes como sinônimo do desejo ); Philia (amizade e lealdade à família, à comunidade, ao trabalho) ; Ágape (o amor de Deus para com os homens e vice-versa). (Filosofando – introdução a Filosofia, da editora moderna. Pag 82).

Se anteriormente, a palavra amar tomava varias definições, para Bauman: “a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco as quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização” (Bauman; Amor Líquido, página 19).

De maneira geral, ao se analisar um caso de divórcio litigioso projeta-se o óbvio, a falta de interesse, de ao menos uma das partes, em continuar o relacionamento. Contudo, pela perspectiva de Bauman, essa falta de querer dar continuidade vem por razões sociológicas anteriores.

Ao tratar dos casos encontrados na Vara da Família no Tribunal de Justiça de São Paulo, em que houve traição e desrespeito ao leito matrimonial, entende-se que o objeto de desejo deixou de ser o vínculo antes priorizado, o casamento. Bauman afirma que para a sociedade moderna o impulso se tornou algo que precisa ser instantaneamente extinto, não permitindo que o desejo seja elaborado e por fim satisfeito. Ao fazer a mesma analogia que Bauman, percebe-se que o relacionamento é como um investimento baseado em impulsos, ao se encontrar algo considerado mais lucrativo, substitui-se, abandonando completamente a imagem sólida de amar. Para os inúmeros casos do judiciário sobre dissolução matrimonial em razão do adultério, compreende- se que cônjuge é atraído pelo novo, o desconhecido, exatamente como em um shopping Center, as pessoas tornam-se ‘’produtos’’ substituíveis no passo que deixam de atender as expectativas.

“Numa cultura consumista como a nossa , que favorece o produto pronto para uso imediato , o prazer passageiro (…) a promessa de aprender a arte de amar é a oferta de construir a experiência amorosa à semelhança de outras mercadorias (…)” (Bauman; Amor Líquido, Capítulo 1).

Um ponto a ser analisado é a razão da maior parte desses casais terem filhos se a modernidade líquida valoriza a liquidez das relações. Quanto à isso, Bauman ratifica que: “amar é querer gerar e procriar e assim o amante busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar” (Bauman; Amor Líquido, Capítulo 1). Assim, muitas das vezes,a própria ambição em ter filhos parte da ideia de um amor pervertido, que busca procriar o belo, e que , a pessoa, o eu, sendo um ente livre e exercendo sua própria vontade, toma alguém por companheiro e assim como adora seu amante, adora a si mesmo por ter sido o seu eu quem foi capaz de escolher o que de tanto se vangloria.

Portanto, resta compreender que as relações afetivas estão cada vez mais vinculadas aos conceitos de modernidade líquida, aumentando continuamente as demandas no judiciário. Assim, se faz mister declarar que o Direito é o reflexo da própria sociedade, atuando como espelho das transformações sociais, neste caso dos vínculos matrimoniais.

Postado por Rafael Almeida


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