Parapeito qualquer de uma cidade medíocre. Não sei que horas são.

Minha língua transita ao redor de meus lábios enquanto tomo meu último gole de uísque barato. Respiro profundamente e observo-a pela última vez. Bela, pálida e solitária. Como eu. Como nós.

As pálpebras cessam enquanto objetivo me lembrar da trilha de pedras que foi responsável por e guiar ao mais profundo e solitário buraco deste arranha-céu. Tentativa falha e previsível. Torpe e ininteligível.

A transmissão das regras começara em uma manhã qualquer. Mensagens enviadas pelo subconsciente ao indivíduo. Sussurros presentes entre linhas.

Sentimentos existem? Ou são apenas frutos e construtos psico-hormonais com o escopo de criarem pretextos para legitimarmos nossas cotidianas ações genuinamente instintivas?

ALEMack

O que eu disse?

Não foi nada.

Passaram-se os anos e a questão retornava cada vez mais frequentemente a mim.

Puberdade.

Namoro (ou qualquer tipo de relação interpessoal afetiva).

Tentavam se aproximar de mim. Diversas vezes.

Mas vim sozinho ao mundo e assim quero sair.

Ao meu ver, relações sentimentais nessa fase da vida na mais eram do que um construto social e biológico. Social no que tange à pressão da sociedade em começar à vida sexual. Biológico no que tange à transição e evolução deste pedaço de carne e osso.

Era sempre a mesma coisa.

“Você não liga pra qualquer pessoa!”

“Você é incapaz de se comunicar sentimentalmente!”

Todos estavam certos. Para mim, o propósito da criação de vínculos advinha apenas em meu escopo de permanecer invisível.

Com o passar dos anos isso apenas piorou.

Não sentia o gosto ou cheiro. Apenas a textura.

A integral banalização do sentimento seguida de frustrantes investidas.

A música, ou melhor, o blues que provém da caixa de som está chegando ao fim.

Pergunto-me uma última vez se existe alguém como eu. Algum indivíduo que – dentre estas milhares silhuetas brilhantes nestes edifícios – tornou-se também incapaz de manter contato com essa realidade sem cheiro ou gosto.

Quem sabe amanhã eu encontre esta pessoa.

Quem sabe… talvez um dia.

Escrito por Vitor Hossu Ferreira, membro da ALEMack que possui como patrono o escritor Fiódor Dostoiévski

Postado por Rafael Almeida

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