Minha mãe, a professora Leonor, tinha um belo estoque de frases de efeito que usava tanto e rotineiramente, como um “bordão”. Uma das expressões que repetia nas mais diversas situações do dia a dia era o “já vai tarde”, que servia para resolver uma questão corriqueira ou um grande problema, até mesmo de ordem pessoal. Isto é, se alguém a incomodava à exaustão, ao final do incômodo, ela dizia: “já vai tarde!”. E, assim, estava resolvido o impasse, sem que o interlocutor, que havia causado o mal estar, sequer tomasse conhecimento da desfaçatez.

Então menino curioso, pensava com meus botões, quem é que iria sair mais tarde e para onde, sem atinar que não se tratava de nada disso. Demorou para cair a ficha e, por causa dessa minha ignorância pueril, imaginava minha mãe rogando pragas constantes para transeuntes que atravessavam seu caminho. Só mais tarde percebi que se tratava, na verdade, de pura e natural sabedoria advinda sabe-se-lá de onde. É que, ao se valer desse bordão, ela já havia chegado à conclusão, fruto de rápida e eficiente elaboração racional, de que seria melhor eliminar o problema que se lhe apresentava insolúvel, de difícil solução ou mesmo que lhe tomaria precioso tempo, que preferia gastar em outro assunto mais interessante. E, por assim agir, minha mãe tirava inteiramente da cabeça aquilo que a incomodava profundamente e que não tinha, pelo menos, de imediato, como resolver.

Esse ano civil que acabou se apresentou mais ou menos igual, pois, no mundo inteiro, foi conturbado, recessivo, esquisito, escandaloso, violento, incoerente, pernicioso, rancoroso, preconceituoso, desigual, racista, e, enfim, próximo do horroroso. Estivesse a professora Leonor por aqui, nesse mundinho dos quase vivos, certamente diria: “já vai tarde, 2019!!


A coluna “Cronículas” nos prestigia com diversas crônicas e textos do professor emérito da Faculdade de Direito do Mackenzie Jeremias Alves Pereira Filho, que lecionou por 40 anos no Mackenzie e foi presidente do Centro Acadêmico

Postado por Rafael Almeida

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