A MORALIDADE SOB UMA VISÃO ARISTOTÉLICA E O RELATIVISMO MORAL DE NIETZSCHE

Por Enzo Oliveira

Entre os anos 1006 e 966 A.C, Israel esteve sob o governo do Rei Davi. Rei escolhido pelo povo, após 40 anos do reinado do Rei Saul, sogro de Davi. Diante do descontentamento do povo, instabilidades políticas e a ascensão do jovem Davi, Saul começa a perder sua popularidade e Davi passa a ser o nome cogitado para ocupar o trono do reino de Israel. Dentre os acontecimentos de mais destaque na trajetória de Davi, podemos citar a guerra contra Golias, o restabelecimento de Jerusalém como capital e pelo fato de ter sido pai de um dos homens mais ricos da história, Salomão. Tendo a apresentação de Davi como ponto de partida, podemos discorrer de forma mais compreensiva diante do dilema que breve será apresentado aqui.

Na primavera seguinte, época do ano em que os reis costumavam sair para a guerra, Davi mandou que Joabe, comandante do exército, filho de Zeruia, irmã de Davi, e irmão de Abisai e Asael, fossem atacar os inimigos. Eles venceram os amonitas e cercaram a cidade de Rabá. Ainda que Davi tenha ficado em Jerusalém. Após acordar de um sono vespertino, o jovem Davi vai em direção ao terraço do palácio e, ali avista uma mulher tomando banho, imediatamente descobre que seu nome era Bate-Seba, filha de Eliã e esposa de Urias, o heteu. Ele ordena que tragam a jovem moça até seus aposentos, onde ali iria manter relações sexuais com ela. Após esse acontecimento, Davi movido pela cobiça manda colocar Urias na linha de frente da batalha, fazendo isso intencionalmente, já que sabia da grande probabilidade de Urias ser assassinado. Foi o que aconteceu, Urias foi morto pelos inimigos, deixando assim Bate-Seba viúva. Davi, astutamente manda chamar Bate-Seba para seu palácio e a nomeia sua esposa.

Por mais esforço que seja feito, é inevitável que hora ou outra acabemos entrando no questionamento da moral. O que é certo e errado, o que é moralmente correto perante a sociedade, e mais, como saber se o comportamento ético está solidificado em princípios ou está meramente vinculado ao temor perante sentença alheia. Assim como a dinâmica da retórica, partimos de um Topoi rumo a uma conclusão prática ou em direção a um consenso entre ambas as partes envolvidas no debate, que não necessariamente significa um ponto final. Mais do que nunca tem se questionado a relevância da moral seja em decisões judiciais, decisões políticas ou teses filosóficas embasadas na moralidade.

Essa linha de raciocínio começa a surgir com mais força a partir do final do século XIX, quando Nietzsche publica seu livro “Genealogia da Moral”, obra que complementa uma obra anterior, intitulada “Para Além do Bem e do Mal”. Nietzsche questiona o conceito de bom e mau, buscando se distanciar ao máximo das definições cosmológicas gregas e dos princípios da moralidade judaico-cristã, concentrando-se em entender porquê rotulamos algo como bom ou mau. Ao analisar a subjetividade dos termos “bom” e “ruim”,entende que não é algo intrínseco à natureza humana, e sim definições criadas a partir dos interesses escusos dos indivíduos, Ou seja, a partir do momento em que eu determino que X é bom, automáticamente Y passa a ser o oposto.

Para Nietzsche existiam dois tipos de moral: A moralidade do senhor que valoriza o orgulho, força e nobreza, enquanto a moral dos escravos valoriza coisas como a bondade, humildade e simpatia. Os senhores tem como antônimo o “ruim”, já os escravos o “mau”. O ruim está mais relacionado com a técnica, já o mau está mais relacionado com crueldade. Ele aponta que a moral dos escravos nasce do ressentimento, onde há uma reação do que vem de fora, tudo que lhe seja estranho é mau perante o seu modo perceptivo da moralidade. Em determinado momento, após o judaísmo e o cristianismo, Nietzsche observa a revolta da moral dos escravos, consolidando-se como única moral, aniquilando a moral dos senhores:

“(…) a moralidade não é outra coisa (portanto, antes de tudo, nada mais) senão a obediência aos costumes, sejam eles quais forem; ora, os costumes são a maneira tradicional de agir e de avaliar.”

 (Nietzsche, em ‘Aurora’, §9)

Em diversas vezes nos vemos fazendo exatamente o oposto daquilo que temos como preceito moral. Seria isso hipocrisia, uma força maior interior ou apenas falta de convicção nos princípios?

Os filósofos gregos tratam isso como Akrasia ou Acrasia, que consiste em uma ação que contraria o seu melhor juízo, em outras palavras agimos de forma Y sabendo que deveríamos agir de forma X, muitas vezes movidos pela emoção. No grego “A” é negação, Kratein é controle, logo Akrasia é a falta de domínio sobre nosso extintos perversos e contrários a ordem natural das coisas.

Por esse motivo, trouxe como introdução a narrativa histórica do rei Davi e Bate-Seba. Mesmo sabendo ser errado colocar Urias na linha de frente para morrer e consequentemente possuir sua esposa, Davi meticulosamente articula uma estratégia para concretizar seu desejo. A grande análise da Akrasia é que as decisões erráticas tomadas são feitas conscientemente, mesmo tendo-se ciência das consequências que aquela atitude acarretará.

Sócrates, por sua vez, afirma que o indivíduo é capaz de agir contrário às suas vontades e analisa que alguém que conhece o bem é incapaz de agir contrário. É sabendo o que é o bem que se evita o mau. Logo, ele acredita que a Akrasia não exista, e basta a vontade de agir corretamente, que ele obterá êxito. Ele enxerga o bem como soberano à vontade má, A ideia é que farei o bem, pois possuo conhecimento do bem e do mal, logo agirei da forma correta. A falta moral é consequência da ignorância, já o acerto moral é consequência da sabedoria. Sócrates não acredita no impulso de fazer algo errado.

Em seu livro,“Ética a Nicômaco”, Aristóteles afirma a existência da Akrasia, indo na direção completamente contrária à de Sócrates. Aristóteles analisa pela perspectiva da eterna guerra entre razão e emoção, na qual por mais que a razão aponte em uma direção, caminha-se na direção oposta, dando voz à emoção.

Ele divide a alma ou a psiquê humana em duas partes, a Intelectiva e a Sensitiva. A primeira corresponde ao conhecimento baseado na razão, já a segunda parte pelo caminho dos impulsos. Essas são as virtudes dianoéticas e as virtudes éticas. A virtude é medida por hábitos, pelas ações repetidas, ações constantes no tempo. Ser virtuoso não é ter conhecimento, ser virtuoso é ter um hábito, as coisas boas são medidas pelas ações e não pelas intenções. Um princípio é uma diretriz de ação, onde sua definição é um pouco incerta, mas que é algo onde sabemos que não há nem um excesso e nem a completa ausência. A coragem por exemplo é uma virtude, logo a ausência de coragem é a covardia, já o excesso dela é a temeridade.

Ele enxerga a prática da virtude como algo que inclina a pessoa para o bem. Então, a discussão está em torno de quais princípios nós nos baseamos quando tomamos determinadas decisões. A temperança por exemplo, é a justa medida entre a devassidão e a insensibilidade. Quando somos guiados instintivamente pelos desejos/impulsos, caímos no extremo da devassidão, por outro lado quando há a extrema racionalidade e excesso de calculismo, caímos na insensibilidade. Evidentemente o debate acerca da moralidade é deveras complexo e extenso, mas com as diversas perspectivas filosóficas aqui apresentadas é possível construir uma base de raciocínio sólida que nos guiará a uma reflexão de nossas convicções.

Fontes:

“Ética a Nicômaco”, Aristóteles (335 a.C. a 323 a.C)

“Genealogia da Moral”, Friedrich Nietzsche (1887, Leipzig)

“Bíblia Sagrada”, Versão King James (1611)

“Diálogo Protágoras”, Platão

Imagem

King David In Prayer, 1886

Publicado por Enzo Oliveira


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