Por Rocco Gasparini

Já não dá para esperar mais. É conivente com o país ficar parado enquanto Jair Bolsonaro desmantela o Estado brasileiro, desafia as instituições e tenta proteger a si mesmo e aos seus aliados das consequências de suas ações criminosas. Para se livrar do vírus do bolsonarismo, o povo vai às ruas pedir o impeachment.

Não é possível se manter informado e ter qualquer tipo de ilusão de que Bolsonaro é um estadista honesto. Todas as semanas aparece alguma suspeita nova. As bizarrices conservadoras e o comportamento desatino do Presidente que caracterizavam este governo em seus primeiros meses cederam espaço para o que há de pior na política brasileira nas manchetes.

Em uma única semana, o Brasil foi bombardeado com a descoberta de dois escândalos de corrupção gravíssimos que usavam como fachada a compra das vacinas. No primeiro, verificou-se que a compra ardilosa da vacina indiana, a Covaxin, apresentava um valor excessivamente elevado, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro. No segundo, um representante da empresa Davati Medical Supply relatou à Folha de São Paulo que um funcionário do Ministério da Saúde exigiu 1 dólar de propina por dose de vacina para fechar o contrato de compra da Astrazeneca.

A extensão e a verdadeira natureza de ambos os escândalos ainda estão sendo investigados pela CPI da Covid e a Polícia Federal, então, é provável que os desdobramentos das articulações penumbrosas realizadas pelo governo federal ainda sejam discutidos pelos próximos meses.

Quando se pensava que Bolsonaro não podia se afundar mais no seu desprezo absoluto pelas vidas de seus compatriotas, descobre-se que este governo lucrou com a pandemia. Descobre-se que Bolsonaro era, de fato, coveiro, porque fez da morte o seu negócio.

Não é exagero algum dizer que, se confirmado, este é o maior escândalo da nossa história republicana. Embora não tenha sido Bolsonaro quem inventou a corrupção institucionalizada, certamente a inovou e a expandiu em todos os níveis.

Apesar de causarem revolta, as notícias não surpreendem. Todo mundo que conhecia a carreira política de Bolsonaro em 2018 sabia que era um santo de pau oco. São 28 anos como deputado federal marcados pela inanição, falas preconceituosas e por pequenos roubos. Segundo seus colegas da Câmara, não foi o bom senso ou a virtude ética que lhe dificultava a participação dos grandes esquemas, era a falta de contatos na máquina fisiológica da corrupção. Por falta de amigos, o deputado federal Jair Bolsonaro tinha que se contentar com contratação de funcionários fantasma, peculato e colocar o dinheiro da gasolina, bancado por dinheiro público, no bolso. E, mesmo assim, nosso povo foi vítima do seu discurso moralizador.

Como justificativa fajuta para não abrigar ao povo, diziam que o Brasil não podia parar. Eles desprezaram a salvação de vidas para salvar a economia e não conseguiram resgatar nem um, nem outro. O ministro Paulo Guedes, um incompetente total quando a matéria é economia e timoneiro por trás deste desastre, limita-se a reproduzir o mesmo modelo econômico que, tragicamente, é endêmico ao Brasil desde o governo FHC.

Eu tive a oportunidade de ir em dois dos três grandes atos da Avenida Paulista nos últimos meses. Não são poucas as placas que vi nas manifestações de gente dizendo que perdeu um familiar para o vírus. Só posso imaginar a revolta que devem sentir quando lembram dos últimos momentos de seu ente querido em um leito de um hospital público, fornecido com muita dificuldade pelo Sistema Único de Saúde, o grande herói da pandemia. Quando este inferno acabar, uma das primeiras pautas que devem ser discutidas é esse teto de gastos criminoso, que gerou a menor taxa de investimento público no Brasil desde 1947, com 0,1% do PIB. E, mesmo com recursos escassos, o setor público fez o possível e o impossível para consolar nosso povo.

Enquanto centenas de milhares morriam prematuramente para uma doença que tem vacina, Bolsonaro e os bolsonaristas negavam a pandemia, faziam esforços ativos para piorar a situação e ainda lucravam. É um sentimento de revolta mais do que justificado.

O povo não quer ir às ruas. O povo está sendo forçado a ir às ruas.

Esse cenário implica num dilema natural: não seria hipocrisia advogar pelo comportamento consciente de ficar em casa, obedecendo o distanciamento para evitar mais contágios? Não somos nós a turma da ciência, da verdade, da oposição ao obscurantismo?

Primeiramente, quero tratar dessa questão com a remarcação óbvia: aglomerar não é bom, em nenhuma circunstância. Apesar da leve suavização do cenário, as orientações dos especialistas permanecem as mesmas: não sair de casa, a não ser que seja extremamente necessário. E, por mais que o povo de boa fé dê o seu melhor para cumprir com o distanciamento, é natural que, num ambiente muito cheio, haja condensação de pessoas. Apesar da tentativa de tornar o evento o mais seguro possível, não existe risco zero quando se trata do coronavírus.

No entanto, eu mesmo te pergunto: qual é a alternativa? Diante de tremenda injustiça, o que fazer? Qual solução existe que não seja ir para as ruas pedir o fim do genocídio? É razoável dizer que as manifestações são contra as vidas quando o que os manifestantes querem é justamente a preservação das vidas?

Não existe impeachment sem apoio popular. Por isso é tão importante ir às ruas, com os devidos cuidados: distanciamento, máscara — de preferência PFF2 — e muito álcool.

É muito importante reiterar que o impeachment é um recurso constitucional para punir um governo que tenha cometido crime de responsabilidade. Note que eu estou sendo muito cuidadoso com a minha escolha de palavras: o impeachment não é remédio para um governo ruim, é a resposta para um governo criminoso.

Existe uma corrente de opinião, cada vez mais atrofiada, de que outro processo de impeachment em menos de 30 anos desencadearia uma crise institucional que põe em risco a própria solidez do Estado brasileiro. Essa é uma realidade que os nossos irmãos peruanos conhecem muito bem.

Eu mesmo era um adepto dessa corrente em 2019. Argumentava com meus colegas que não é porque não gostamos do Bolsonaro que devemos tirá-lo. Devíamos sim, comparecer à cerimônia de posse, estender-lhe a mão e desejar boa sorte ao herdar um país tão complicado de governar como é o Brasil. Se a derrota de uma eleição nos condenou a ser oposição, é essencial para nossa integridade que, ao exercer uma fiscalização inexorável, não sejamos uma oposição desonesta.

Agora, o argumento se inverteu. Se não dermos uma parada neste governo após meio milhão de irmãs e irmãos brasileiros que foram vítimas de uma política genocida deliberada, quando vamos? Estamos há tanto tempo falando de uma “reação forte” que chega a ser um escárnio.

O ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tem o mérito de ser uma voz estabilizadora ao meio do fervor institucionalizado. Tendo isso dito, o que cometeu foi um erro histórico. E é bem provável que, quando o país tiver a oportunidade de estudar o governo Bolsonaro com o devido distanciamento analítico, tanto Rodrigo Maia quanto Arthur Lira sejam considerados cúmplices.

Não pensem, no entanto, que o impeachment de Bolsonaro será uma panaceia. Existem males no cenário brasileiro que vão muito além do bolsonarismo. Uma das evidências dessa trágica condição foram os atos de violência que ocorreram na própria manifestação.

Apoiar a livre e espontânea expressão popular não quer dizer apoiar a violência. O que se testemunhou na Rua da Consolação é uma barbaridade sob qualquer ponto de vista. Quando vi que atacaram nossa casa de ensino, depredando a entrada da nossa querida Universidade Presbiteriana Mackenzie de maneira tão covarde, senti uma amargura desoladora. Se os vândalos forem manifestantes, deveriam pensar nas consequências antes de cometer um ato tão reacionário, impróprio para a construção de um diálogo democrático. Além disso, os ataques acabam configurando uma desvantagem estratégica, pois os bolsonaristas que deveríamos estar combatendo podem usar esse ato de violência como justificativa para minimizar os movimentos.

Tão absurdos quanto esses atos de vandalismo, foram os ataques de militantes do PCO contra os manifestantes do PSDB e do PDT. Se o ato é a favor da democracia, não existe qualquer razão para incluir um partido que é declaradamente contra a democracia. Esses militantes se perderam em algum canto obscuro do século passado e têm a soberba de se acharem donos da verdade e da resistência popular. Hoje, representam o bolsonarismo de sinal invertido.

A minha avaliação é que o povo brasileiro está fadado a resolver duas questões. A primeira, já discutida, é colocar um fim neste projeto de governo anti-povo, inimigo do desenvolvimento e articulador do genocídio. A segunda, mais complexa, é promover uma conversa franca sobre os rumos sociais e econômicos do país.

Tão importante quanto tirar Bolsonaro, é pensar o que a gente vai colocar no lugar. Será possível que a gente vai se render ao populismo barato, ao “deixa que eu chuto”? Qual é o projeto de Paulo Guedes e qual é a alternativa? Qual é o Brasil que temos e qual é o Brasil que queremos? Essas são as perguntas que devem pautar 2022. Mais do que nunca, é preciso sonhar com o pé no chão.

E, se for o caso trágico de que este projeto de ditador ainda seja o Presidente da República em 2022, espero que as discussões não sejam caracterizadas pelas abstrações ideológicas, que ultimamente tomou conta no debate vazio e improdutivo do “comunismo contra o fascismo”. Essa falta de diálogo apenas protege Bolsonaro, porque ele não tem que responder pelos atos derradeiros que causaram o fracasso de seu governo. É verdade ou não é verdade que estamos na nossa pior crise econômica? É verdade ou não é verdade que temos 14 milhões de desempregados? É verdade ou não é verdade que o neoliberalismo elitista do Paulo Guedes contribuiu para a tremenda desindustrialização deste país?

É crucial, pelo bem do Brasil e do povo brasileiro, tirar Bolsonaro de vez da disputa eleitoral. Expulsá-lo do Palácio do Planalto, casa que já foi frequentada por estadistas tão honrados e lhe trancar a porta para nunca mais voltar. Se não por um desejo genuíno de ordem e prosperidade, que seja em homenagem ao meio milhão de famílias que perderam um pai, uma avó, um irmão ou um amigo querido.

Imagem: Ricardo Stuckert

Bibliografia

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Folha de São Paulo. “’Prevaricação se aplica a servidor público, não a mim’” diz Bolsonaro sobre caso da Covaxin” Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/07/prevaricacao-se-aplica-a-servidor-publico-nao-a-mim-diz-bolsonaro-sobre-caso-covaxin.shtml&gt;

Correio Braziliense. “PF vai apurar suspeita de prevaricação de Bolsonaro no caso Covaxin”. Disponível em: < https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4937006-pf-vai-apurar-suspeita-de-prevaricacao-de-bolsonaro-no-caso-covaxin.html&gt;

O Povo. “Enquanto deputado, Bolsonaro superfaturou pedidos de reembolso da verba de combustível, segundo revela reportagem”. Disponível em: < https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2020/04/07/enquanto-deputado–bolsonaro-superfaturou-pedidos-de-reembolso-da-verba-de-combustivel–revela-reportagem.html&gt;

O Globo. “Funcionários fantasmas dos Bolsonaros receberam R$ 29,5 milhões em salários” Disponível em: < https://oglobo.globo.com/epoca/funcionarios-fantasmas-dos-bolsonaros-receberam-295-milhoes-em-salarios-24634183&gt;

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FGV IBRE. “Taxa de investimentos no Brasil: Menor nível dos últimos 50 anos”. Disponível em: < https://blogdoibre.fgv.br/posts/taxa-de-investimentos-no-brasil-menor-nivel-dos-ultimos-50-anos&gt;

CNN Brasil. “Investimento em infraestrutura está no menor nível desde 1947 – e deve cair ainda mais”. Disponível em: < https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/01/28/investimento-em-infraestrutura-esta-no-menor-nivel-desde-1947-e-deve-cair-mais&gt;

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