Por Leonardo B. Cipriano

Fundado em Abril de 1955, o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito do Mackenzie, João Mendes Júnior (CAJMJr), teve, até o ano de 2020, 66 presidentes. Dentre eles, somente sete mulheres foram alçadas a tal posição. Ainda, dentre essas  sete, somente uma negra, no ano de 2014.

A partir do século XXI, com 45 anos de existência, o CAJMJr passou a intensificar a diversidade em sua diretoria executiva, sobretudo na presidência. Até o mandato de 1999, somente duas mulheres haviam alcançado a posição, ao passo em que 43 homens assumiram a cadeira no mesmo período. Em números percentuais, menos de 5% dos mandatos haviam sido, então, encabeçados por mulheres.

Virado o século, a partir do mandato do ano 2000 até os dias atuais, tivemos 22 presidentes, dos quais 15 foram homens e 7 mulheres, representando cerca de 68% e 31%, respectivamente. Logo, é notável a ampliação da participação feminina no cargo de Presidente da Associação, dado que houve um aumento de cerca de 26 pontos percentuais. No entanto, mesmo dentro da pauta feminina há diversidade, seja de raça ou classe. Portanto, a pergunta passa a ser ‘de quais mulheres estamos falando?’

Apesar de a primeira presidente mulher ter sido alçada à tal posição em 1992, somente no mandato de 2014/2015 tivemos a primeira mulher negra ocupando prestigiosamente tal cargo. Um lapso de 22 anos representa a entrada de uma representatividade da outra, fato que deve – ou deveria – saltar aos olhos do corpo discente que elege o colegiado da direção executiva que comandará o mandato do ano.

Foi então no mandato de 2014/2015, em seu último ano de faculdade, que Tamires Gomes Sampaio, fruto de programas sociais, tais quais o Programa Universidade para Todos (PROUNI), foi eleita a primeira presidente negra do CAJMJr. Isso significa pesar que, da fundação, houve um lapso de 59 anos para que tal evento pudesse se tornar palpável. Invariavelmente, sua presença em tal posição ocasionaria mudanças na direção executiva da associação e, em maior proporção, apresentaria um grande feito a todas as mulheres negras ao verem que galgar tal posição é, de fato, possível.

Hoje, Tamires é Advogada, Diretora do Instituto Lula e Mestre em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, casa onde se formou. Recentemente, lançou o livro Código Oculto: política criminal, processo de racialização e obstáculos à cidadania da população negra do Brasil, o qual foi derivado de sua dissertação de mestrado que contou com a ilustre orientação do Prof. Dr. Silvio Almeida.

Entretanto, apesar de terem vindo outras mulheres depois de Tamires, as quais representaram 60% do total – maioria entre 2015-2020 -, é questionável que ela tenha sido, até o momento, a única mulher negra em tal posição. Em que se pese convergir com o pensamento da professora e mestre em filosofia Djamila Ribeiro, a qual afirma no prefácio da edição brasileira de “Mulheres, Raça e Classe” que precisamos pensar o quanto o racismo impede a mobilidade social da população negra. Afirma a filósofa e pensadora que “Temos um problema de classe. E o racismo também cria hierarquia de gênero, deixando a mulher negra em uma situação muito maior de vulnerabilidade social”.

Assim, apesar de ser um fato dado que o racismo é estruturante em nossa sociedade, o qual estrutura inclusive as relações, é necessário o questionamento crítico: será que precisamos perpetuar tal estrutura também dentro do ambiente acadêmico? Analogamente, podemos ponderar e, de fato agir, acerca do que se pode fazer para que tal estrutura não se solidifique por mais 59 anos debaixo dos nossos olhos e com nossa anuência.

Portanto, é de se pensar em quantas outras Tamires ainda teremos o prazer de ver ocupar a cadeira de Presidente de um órgão de extrema importância para toda a Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, escola a qual é notadamente branca e elitista. Que possamos garantir espaços iguais a pessoas diferentes e exercitar a criticidade dos dados que nos são expostos e do dia a dia ao qual somos inseridos. Devemos acreditar e exercer nosso papel para que haja igualdade não somente no campus, mas também em locais de prestígio da estrutura acadêmica.



Fonte

“Presidentes”. Publicado no portal do CENTRO ACADÊMICO JOÃO MENDES JÚNIOR, acesso em 30 de Março de 2021.


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Davide Bonazzi

Publicado por Leonardo B. Cipriano


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