Por Julia Monteiro Nalles

Que precisamos urgentemente de mais representatividade, todos sabemos. Essa necessidade gritante tem se tornado tão evidente, que foi um dos principais motivos – para não dizer o principal – da recente mudança drástica sofrida pela principal premiação de obras audiovisuais.

Tal ausência de representatividade faz com que aqueles que se sentem desamparados façam algo extremamente compreensível: procurem forçar uma representatividade onde ela, infelizmente, não existe. Isso pode ser observado quando fãs de determinados filmes, séries, livros e obras de ficção no geral passam a assumir, por exemplo, que determinado personagem faz parte da comunidade LGBT, mesmo que isso nunca tenha sido de fato confirmado no universo fictício em questão. Tal comportamento pode ser considerado muito positivo, afinal assim as minorias conseguem, de alguma forma, se sentirem representadas, ao mesmo tempo que pressionam a indústria do entretenimento a criarem personagens mais diversos. Além disso, esse hábito não faz mal a ninguém, uma vez que as pessoas que têm sua sexualidade questionada são personagens fictícios, que não sofrerão as consequências disso. Entretanto, é necessário acender uma luz vermelha quando a busca por uma representatividade forçada alcança pessoas reais.

Apesar de haver uma tendência de mudança, ainda é evidente que as celebridades em alta, sejam elas atores, cantores, influenciadores digitais, etc. são – em sua esmagadora maioria – héteros e cisgênero. Isso, certamente, demonstra que a sociedade na qual vivemos é extremamente opressora e faz com que seja muito mais difícil para alguém que não se adeque neste padrão fazer sucesso na sua área, seja ela qual for. Esse fenômeno gera revolta e faz com que haja sempre uma comemoração quando um famoso se declara LGBT, afinal assim temos pelo menos um pouco mais de representatividade.

Porém, essa situação tem gerado outro comportamento: o de fãs que desejam tanto que seus ídolos representem uma minoria que passam a acreditar veementemente e a compartilhar que a celebridade em questão faz parte da comunidade LGBT+, sem que essa nem sequer tenha se pronunciado sobre o assunto, ou publicamente anunciado algo nesse sentido. Isso pode parecer bobo, afinal que mal há em um fã fantasiar sobre a vida privada do seu ídolo? Mal nenhum. Mas quando isso toma proporção que faz com que grande parte da base de fãs daquele famoso compartilhe desse mesmo pensamento, assumindo-o como verdade, não é difícil imaginar que isso cause algum estrago.

Primeiramente, a partir do momento no qual um grupo tão grande de pessoas assume que sabe mais sobre a vida de uma figura pública do que ela escolhe expor, não só isso, mas assume que sabe que o que essa figura pública expõe não é a verdade sobre como ela se sente ou com quem ela se relaciona, isso se torna um ciclo extremamente problemático. Afinal, mesmo que a celebridade em questão chegue a desmentir os boatos, ela será imediatamente desacreditada, tendo em vista que o público crê que algo faz com que seu ídolo sinta necessidade de esconder a verdade deles. Essa mentalidade vem, na realidade, de outro problema muito sério que é a crença de que temos conhecimento total sobre a vida de uma pessoa pública. É muito positivo que os jovens tenham inspirações e modelos a serem seguidos, mas se faz necessário que eles reconheçam que aquilo que é exposto para eles sobre uma figura pública não é nem metade de quem a pessoa de fato é, uma vez que ela precisa se preservar do desgaste de estar constantemente nos tabloides. Por isso, acreditar que fotos, vídeos de entrevistas e letras de música revelam uma verdade que as celebridades tentam esconder, seria ignorar que se eles, de fato, quisessem ocultar uma parte das suas vidas, não seríamos capazes de descobrir, uma vez que certamente existem diversos aspectos das vidas dos nossos ídolos que não são expostos e, desse modo, nem cogitamos sua existência.

Ademais, mesmo se considerarmos que essas teorias criadas pelos fãs estejam corretas, ainda assim teríamos diante de nós um comportamento muito problemático. A ideia de “tirar alguém do armário”, em inglês “outing”, consiste em expor alguém como membro da comunidade LGBT+ antes de essa pessoa se sentir pronta para se assumir. Não é difícil perceber que falta empatia nessa atitude. A sexualidade de cada um é algo extremamente íntimo e que, por isso, diz respeito somente à própria pessoa, mesmo que esta seja uma figura pública. Desse modo, cabe a pessoa escolher quando, e se, ela vai contar aos outros qual a sua orientação sexual. Desrespeitar isso é tirar dela esse direito. Mesmo que feito com as melhores intenções possíveis, isso não é dar voz a ela – muito pelo contrário – é tirar dela a voz para trazer isso ao público da forma, quando e, se ela quiser.

Contra isso, é usado o argumento de que – pela pessoa – tal revelação já teria sido feita, e só não foi por existir uma pressão externa para que isso não ocorra, seja do empresário, da gravadora, da família etc. Sobre isso, novamente, temos que ter a coerência em perceber que nós, como público, não temos conhecimento total da situação, sendo então bastante precipitado assumir algo assim. Mas, mesmo se isso for verdade, expor a pessoa não resolve esse problema. Pelo contrário, só faz com que ela tenha menos controle ainda da situação e que, mais uma vez, os rumos da sua vida sejam ditados por fatores externos, nesse caso, as teorias de fãs na internet.

Por fim, tudo se torna ainda mais problemático quando a teoria criada pelos fãs envolve um suposto relacionamento secreto. Melhor do que teorizar sobre isso, é observar um exemplo prático. Em uma entrevista recente, Lauren Jauregui, integrante do grupo musical Fifth Harmony, falou sobre como as teorias sobre um suposto relacionamento entre ela e sua ex-colega Camila Cabello contribuíram fortemente para o distanciamento entre as duas amigas. Ela conta sobre as proporções que esse boato tomou e como isso fez com que as duas se sentissem menos confortáveis uma com a outra. Ou seja, os fãs, ao assumirem que o relacionamento entre as duas era ainda mais forte do que o mostrado nos palcos, contribuíram para que esse relacionamento se enfraquecesse cada vez mais.

Assim, é uma prova muito maior de carinho e consideração aos nossos ídolos se tomarmos com verdade aquilo que eles mesmos dizem ser verdadeiro, sem assumir fatos sobre os quais não sabemos a veracidade e, mesmo se soubéssemos, não nos foi permitido teorizar sobre. Sim, isso pode ser extremamente difícil quando os tapetes vermelhos têm uma representatividade tão pequena e ansiamos por algo mais significativo, mas ninguém merece ter sua vida revirada e afetada por conta dessa ansiedade coletiva. Melhor deixar as fanfics para os personagens.

Fontes

Diversidade no Oscar: prêmio anuncia mudanças para categoria de Melhor Filme

Manual de Comunicação LGBT

Lauren Jauregui, do Fifth Harmony, relembra fanfic de namoro criada por fãs entre ela e Camila Cabello: “Desconfortável”


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