Por Larissa Sousa

Uma semana antes do início das aulas no curso de Direito do Mackenzie, eu quebrei o pé. “Três semanas com o pé imobilizado”, disse o médico. Supersticiosa que sou, pensei que aquilo fosse um sinal de má sorte, indicando que talvez eu não devesse cursar Direito. Do jeito que meu pé estava, tinha certeza de que eu não conseguiria participar do tão sonhado trote, aquele que as propagandas dos cursos preparatórios para vestibular mostram pessoas felizes e realizadas. Um dia antes desse evento, decidi que iria de qualquer jeito, pé quebrado ou não.  Cheguei em frente à entrada da rua Itambé, enquanto meu pé dolorido me fazia questionar se aquela teria sido a melhor decisão. Depois, passei pelo auditório Rui Barbosa e me dei conta de que, pela primeira vez, eu estava entrando no campus como estudante de Direito. A sensação de triunfo, naturalmente trazida por esse título, fez com que ele ecoasse em minha mente: “Estudante de Direito”.

Naquele momento, só consegui pensar na minha avó. Explico o porquê. Minha avó materna veio de origens muito humildes e de uma família na qual as mulheres não tinham acesso à educação por conta do velho jargão patriarcal de que “lugar de mulher é em casa”. Então, quando eu entrei no campus do Mackenzie, pela primeira vez como estudante de Direito, comecei a refletir sobre como a oportunidade que eu estava aproveitando era de uma realidade tão diferente da que a minha avó e tantas outras mulheres viveram. Então, não seria nenhum pé quebrado que me faria questionar a escolha de cursar Direito, tampouco questionar a oportunidade pela qual eu e minha família lutamos tanto para me proporcionar.

Passei pelo trote, o qual vivenciei com os devidos “procedimentos” – tinta na cara, farinha e óleo no cabelo, pedir dinheiro no farol. Dias depois, tive o meu primeiro dia de aula. Nele, fiz algumas amizades que, quando as conheci, não imaginava que seriam os grandes suportes para sobreviver à rotina de aulas, estágio e problemas da vida pessoal que surgiriam não só nos próximos 5 anos, mas em muitos outros também. 

Os dois primeiros semestres passaram em um piscar de olhos. Assisti às aulas memoráveis do Guaracy, vi ele cair da cadeira ao se empolgar contando algum de seus casos; tive aula de Economia com o fofíssimo Bado; sofri com as provas da Márcia Correia e descobri que ela é uma mulher incrível; fiquei maravilhada com o conhecimento e a humildade do Orlando, ao ter aulas de Antropologia e Filosofia do Direito; dei bom dia para o Miro todas as vezes em que subi as escadas do prédio 24; comprei brigadeiro do “Tio da Maria Antônia” e pão de queijo do Borges. 

Ao final do primeiro ano de faculdade, tinha certeza de que o que eu queria para a minha carreira era ser advogada em um grande escritório de São Paulo. Com isso em mente, ingressei nos dois próximos semestres do curso. Tive aula com a Torezan e aprendi não só sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas também sobre cultura e pesquisa; tive aula com o Caldeira e percebi que o processo civil é um mundo à parte, muito complexo e bastante interessante; tive aula com o Ramunno e o confundi com um aluno na primeira aula que tive com ele, e depois descobri que ele tem um conhecimento de alguém com 3 vezes a idade dele; tive aula com a Cardia e com o “Uni”, o seu mascote de pelúcia que ela levava em todas as aulas, junto com sua paixão por ensinar. 

Comecei o quinto semestre, e junto com ele, surgiu a pandemia. “Teremos aula de forma remota”, dizia o comunicado do Mackenzie, depois de semanas sem definição sobre o rumo que seria tomado durante a quarentena. Nessa modalidade, tive aulas com a Messa, com o Boiani, com o Zanella, com a Scalquette, com a Camila Padin e tantos outros nomes que fazem parte da história dos mackenzistas. A quarentena me mostrou que eu havia, sim, me tornado mackenzista, porque eu sentia e ainda sinto falta de estar no campus, de ver os famosos tijolinhos vermelhos, de ter aulas presenciais, de vivenciar muitos outros momentos que se tornaram boas memórias. 

Durante a pandemia, também comecei a estagiar em um escritório de grande porte, e não demorou um ano para eu me dar conta de que aquilo não era bem o que eu queria. Não tenho dúvida de que escolhi o curso certo, mas todas as “certezas” que eu tinha no começo do curso quanto à carreira foram por água abaixo. “Quebrei a cara”, pensei comigo. Decidi sair do estágio e, no momento, estou à procura de outra oportunidade, mesmo sem saber exatamente o que eu quero. Olhando pelo lado bom, a famosa “crise dos vinte e poucos anos” reviveu um antigo sonho meu: ser professora. Apesar dos pesares, de uma coisa eu tenho certeza: sou mackenzista. E não tem pé quebrado ou “cara quebrada” que tire esse sentimento de pertencimento de mim.  

Postado por Larissa Sousa


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