Por Leonardo Mariz

Era uma quinta-feira, por volta das 22h quando meu pai, após chegar do trabalho, interrompeu a minha aula para me falar algo importante: “viu o que aconteceu, meu filho? Mataram mais um dos nosso, lá no Carrefour do Rio Grande do Sul.” Neste momento, o coração bateu firme, senti um arrepio, mas disse a ele que não poderia conversar, a aula estava no fim. Aguentei firme o desejo de pesquisar, me mantive focado e, assim que a aula terminou, fui atrás das informações.

João Alberto, Beto para os íntimos, homem negro de 40 anos, morador de uma comunidade de Porto Alegre que ganhava a vida através de bicos, fosse como pintor ou pedreiro, era muito querido por seus vizinhos. Beto, era um provável “seu João”, daqueles que todo mundo do bairro gosta. As crianças porque pedem para ele fazer o estirante da pipa; os adolescentes, pelos conselhos sobre como jogar futebol, dados pela voz da experiência; os jovens pelas risadas, derivadas das conversas e brincadeiras; e os adultos, por indicações de emprego ou uma ajuda aqui, outra acolá.

Porém, Beto morreu antes de se tornar o “seu João”, e por quê? Porque foi espancado por covardes! Tão covardes que não tiveram a capacidade de enfrentá-lo em uma luta um a um, o que já seria um absurdo, visto que Beto saiu de casa para comprar comida, e não para ter de enfrentar racistas raivosos. Beto não é o primeiro a morrer antes de se tornar Seu João; na verdade isso é comum no Brasil, visto que a cada 23 minutos morre um negro drama no país segundo o Mapa da Violência, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) .

Beto foi morto uma semana após o lançamento da música “Favela Vive 4” (ADL, Mc Cabelinho, Kmila CDD, Orochi, Cesar MC e Edi Rock), produzida para expor críticas sociais às diversas violências perpetradas cotidianamente e banalizadas pela sociedade, visto que não são capazes de causar comoção.

“Tu lembra do Favela 3? Confundiram Marcos Vinícius. Agora no Favela 4 foi Ágatha e João Pedro.”

Uma semana após essa denúncia, véspera do Dia da Consciência Negra, foi a vez de João Alberto, mais um negro drama morto em decorrência do racismo.

O Professor Silvio Almeida aponta que no Brasil existe o racismo estrutural porque a desigualdade racial parte da ordem social para influenciar pessoas e instituições, de modo que a reprodução de práticas racistas é tida como normal para a sociedade. Por isso, piadas, silenciamento, isolamento e a banalização de violências explícitas como o assassinato de Beto ou as mortes por COVID-19 não comovem; as pessoas simplesmente ignoram por se acostumarem ao racismo estrutural. Esse é o normal.

O Prof. Silvio aponta que, para acabar com o racismo, não basta deixar de praticar atos racistas; é necessário ser antirracista, ou seja, romper com o normal , se questionar acerca de quais pessoas compõem as posições de liderança, com quais pessoas você convive no Mackenzie, quantas professoras negras você teve, além de estudar o assunto a partir de autoras e autores negros, ensinar às pessoas à sua volta quais práticas racistas elas cometem cotidianamente e lembrar que 56,2% da população brasileira se autodeclara preta ou parda, ou seja, negra (IBGE, 2019), pois somente a partir de práticas antirracistas, outros como João Alberto poderão se tornar o “seu João” da quebrada. 

Foto:

Taba Benedicto / Estadão

Referências:

“Favela Vive 4”. Publicado no Youtube, em 12 de Novembro de 2020.

“Mapa da Violência”, por Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

“O que é racismo estrutural?”, por Silvio Almeida

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2019, por IBGE.

Saiba quem era João Alberto, espancado até morrer em loja do Carrefour. Publicado em Poder 360, por Vivia de Bicos de Pedreiro, em 20 de Novembro de 2020.


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