Por Julia Monteiro Nalles

A primeira metade de 2020 foi não apenas conturbada, mas também bastante desesperadora para o mundo todo. De repente, os moradores de todos os continentes viram suas vidas tomarem rumos inesperados por conta de uma nova e desconhecida doença que rapidamente tomou conta do globo e fez com que números de mortos fossem anunciados em milhares pelos jornais diários.

No Brasil, foi no mês de março que tudo tomou forma. Pouco depois de um carnaval tão festivo e despreocupado como de costume, aulas passaram a ser à distância, estabelecimentos foram fechados e o regime home office virou uma realidade para muitos trabalhadores. A princípio, a doença aqui atingiu àqueles que voltavam de viagens internacionais, ou seja, as camadas mais ricas da população. Entretanto, não demorou para que os mais prejudicados passassem a ser os mais pobres, cujos empregos exigem atuação presencial, não podendo ser convertidos em emails e reuniões por vídeo.

Foram meses de constantes encaradas a telas que exibiam gráficos com números de casos e de mortes; meses em que não se ouvia falar em outra coisa que não fosse A Curva. Membros do governo expressando incessantemente a necessidade de achatar A Curva, outros diminuindo a situação e duvidando da Curva e – enquanto isso – o telespectador apenas observava horrorizado uma curva que estava sempre parecendo chegar no seu ápice, mas que nunca de fato parava de crescer.

Depois de aproximadamente um semestre de vislumbres diários de gráficos trágicos, finalmente pareceu que havia chegado o momento tão esperado: a queda da Curva. Depois de um momento de estagnação que renovou esperanças já perdidas, os números de novos casos e de mortes relacionadas à Covid 19 começaram a cair em cada vez mais estados brasileiros, inclusive São Paulo, o mais populoso. Isso levou a uma maior flexibilização das regras envolvendo estabelecimentos comerciais e, também, a um relaxamento por parte dos cidadãos, que viram na melhora da situação uma oportunidade de retomar comportamentos que, apesar de não classificados como “essenciais”, são extremamente importantes para a qualidade de vida de qualquer um, como visitar familiares e entes queridos.

Porém, logo se percebeu que o dito “relaxamento” nem sempre estava sendo posto em prática com moderação. Os noticiários talvez tenham diminuído seu tempo de análises de gráficos e entrevistas com especialistas em doenças virais, mas aumentaram cada vez mais as notícias de aglomerações de pessoas sem máscara ou distanciamento, fossem em bares como os do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, ou em praias do litoral paulista. 

Esse comportamento, é claro, gerou reflexos na nossa não tão querida Curva, que – na cidade de São Paulo, por exemplo – voltou a subir. Comparando a primeira quinzena de novembro com a primeira quinzena de outubro, estima-se um aumento de 29,5% de casos do novo coronavírus.

Esses casos, em grande parte, seguem um mesmo perfil: jovens de classe média. Sobre a camada social, ela pode ser notada pelo fato de que os primeiros a notificarem um aumento de casos foram os hospitais particulares. Enquanto os Hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein (particulares), nas primeiras semanas de novembro, já relatavam o aumento nas internações, o Hospital das Clínicas (público) ainda exibia uma tendência de queda.

Há ainda a questão etária. Como observado em uma matéria publicada pelo G1 no dia 12 de novembro, o perfil preponderante dos novos casos de Covid 19 é de jovens. O mesmo ocorre na Europa: o Ministério da Saúde espanhol demonstra uma queda constante na idade média das pessoas que testam positivo. Isso pode explicar parte do motivo pelo qual o número de mortes não está acompanhando o ritmo de crescimento das internações, além é claro do maior conhecimento da doença facilitar o tratamento da mesma.

Entretanto, não parece seguro dizer que os novos casos permanecerão dentro desse grupo menos vulnerável, afinal se aprendemos algo com A Curva é que estamos lidando com uma doença que se espalha com uma facilidade tremenda, em especial se o grupo portador não parece mais disposto a cooperar pela não transmissão.

Essa, aliás, parece ser a grande questão: o que exatamente esse grupo de pessoas pensa ao se colocar em uma posição de potencial transmissor? Será que, de alguma forma, falta informação para esses que – combinadas a boa escolaridade com a habilidade com os meios digitais – deveriam ser os mais bem informados? É evidente que não. Não falta informação, ela está sendo bem e intensamente divulgada desde março.

O que falta parece ser a tão mencionada e nem tão exercida empatia. Afinal, individualmente, os integrantes desse grupo tão privilegiado de fato não têm muito com o que se preocupar. Não obstante sua pouca idade os deixe distantes do grupo de risco e torne muito improvável a ocorrência de um final trágico, eles têm a sua disposição planos de saúde que podem garantir o seu atendimento em hospitais com os melhores recursos e uma dificílima ocorrência de ocupação total.

O que deveria impedir esses jovens de se declararem “cansados do isolamento” e voltarem a frequentar eventos de extremo risco de contágio é a situação não tão favorável daqueles para quem eles podem vir a transmitir a doença. Mais do que a ausência de preocupação com os que configuram “grupo de risco”, é visível também o fator elitista. Afinal, a empregada doméstica, o garçom do bar, o motorista de aplicativo, o entregador do delivery, o caixa de supermercado e tantos outros com quem a pessoa possa esbarrar por aí podem não ter a sorte de poderem ser atendidos com tanta pompa quanto o Hospital Albert Einstein pode oferecer. Além de que essas pessoas – que de fato muitas vezes precisam encarar situações de aglomeração todos os dias, como o transporte público – podem contagiar outros, o que poderia levar a um novo aumento considerável de número de internações também em hospitais públicos, que agora não estão mais sendo apoiados pelos hospitais de campanha, e que – desde o começo da pandemia – geram apreensão com a possibilidade de ocupação total ou quase total dos leitos.

A clara falta de preocupação por parte da juventude de elite é perfeitamente demonstrada pelo que ocorreu com a escola Graded, localizada no Morumbi, uma das escolas estrangeiras mais tradicionais do país. A escola chegou a voltar a funcionar presencialmente, mas teve que suspender novamente as aulas após alguns de seus alunos e funcionários terem sido diagnosticados com Covid 19. A carta enviada pela escola aos pais atribui tal acontecimento à ocorrência recente de festas com centenas de alunos de colégios de elite. Ao que consta, já aconteceram três festas no começo do mês e uma quarta, envolvendo também alunos de colégios como Bandeirantes e Dante, estava em vias de ser organizada.

A ida a eventos não apenas não “essenciais”, como também evidentemente arriscados demonstra uma total ausência de qualquer preocupação relacionada com as possíveis consequências que o contágio pode ter para as pessoas ao redor. Essa inabilidade dos grupos mais privilegiados da sociedade de olharem para além da própria bolha não apenas agrava o quadro do novo coronavírus, como também – por si só – representa uma doença antiga, perigosa e, ainda, sem cura.

Fontes

SP: Novos casos de covid sobem 29,5% na capital na comparação com outubro

Hospitais particulares de São Paulo têm aumento de internações por covid-19 e dão alerta para segunda onda

Médicos de 14 hospitais privados da cidade de São Paulo apontam crescimento no número de internações por Covid-19

Jovens são os mais infectados em segunda onda de Covid-19 na Europa

Escola americana em SP suspende aulas após casos de covid e atribui surto a festa de alunos

Publicado por Julia Monteiro Nalles


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