Por Leonardo Mariz

O dia 13 de novembro de 2020 ficou marcado como a data de lançamento da música “Ilusão – Cracolândia”, composta pelo Dj Alok, Dj W, Mc Hariel, Mc Davi, Mc Ryan SP e Salvador da Rima. O título do funk remete à zona central da cidade de São Paulo, onde é comum o uso de crack por uma multidão, por isso o termo: crack (droga), acrescido de lândia (terra), o que resulta em terra do crack ou cracolândia.

Os artistas trouxeram uma letra crítica em um clipe muito rico, mas direcionado à juventude periférica, tanto é que o hit “explodiu” nas periferias e atingiu 24 milhões de acessos no Youtube em uma semana. Deste modo, como o JP3 tem como público-alvo alunos da Faculdade de Direito, este texto visa propor reflexões a partir daquelas trazidas pelos funkeiros, mas direcionadas às políticas públicas implementadas.

Há muito tempo vige no Brasil a política de guerra às drogas (VALOIS, 2016, p. 526), de maneira que o Estado direciona o seu aparato repressivo às populações em situação de vulnerabilidade – principalmente jovens, pobres e pretos (CAMPOS, 2015) – com o intuito de acabar com o comércio irregular de entorpecentes. Será, porém, que essa política resolveu o problema da população?

O clipe dos funkeiros faz algumas críticas à sociedade em que vivemos, inclusive a esse tipo de tratamento direcionado às pessoas que se encontram nessa situação, pois, ao mesmo tempo em que usuários de determinados tipos de drogas ficam a cargo dos braços armados do Estado, nas redes de televisão aberta há a promoção do consumo de bebidas alcóolicas – espécie de droga legalizada –, fator que contribui para a normalização da existência de várias famílias, periféricas ou não, com pais alcoólatras, o que, no clipe, foi posto como elemento que colaborou para o jovem estar na hora errada, com a “banca” errada, e acabar usando aquilo que, segundo os artistas “te faz voar, mas depois tira o seu céu”.

Outro ponto presente nesta arte é o protagonismo do jovem negro viciado em crack ao longo do clipe enquanto pessoa com sentimentos. Os artistas não abordam a Cracolândia de forma generalizada, como um território formado por determinado número de pessoas, mas individualiza um sujeito que, em decorrência de coincidências negativas que surgiram nas situações derivadas da ausência de atuação estatal para concretizar direitos sociais (ausência de lazer, educação, assistência etc.), passa a compor a “terra do crack”.

Por isso, trata-se de música extremamente importante para desconstruir argumentos que confirmam a necessidade de violência policial para acabar com a Cracolândia, visto que a terra do crack não é um lugar, mas um espaço assim definido por conta das pessoas que o ocupam. Não existe Cracolândia sem usuários de crack, de modo que não há como acabar com o cenário, sem tratar do vício dessas pessoas.

No plano de fundo do clipe, atrás dos Mcs, há uma narrativa sendo contada, sempre alternando entre o passado, com a imagem de uma criança brincando e depois com o adolescente junto a uma “banca”, e o presente, realidade em que o jovem negro é apresentado enquanto um viciado em drogas. Dessa forma, a obra é capaz de sensibilizar aquele que a analisa, de forma a tornar o nosso olhar mais humano sobre o objeto observado, a Cracolândia, território criado por pessoas com história, família e um problema que pode ser resolvido, não pela força, mas por meios humanizadores.

Portanto, desejo que a pipa – objeto representativo dos sonhos – permaneça no céu, e não caia ao chão, mas para isso, é necessário menos “programa redenção” e mais “programa braços abertos” – similar ao abraço da mãe em seu filho, como aquele ao final do clipe.

Referências:

Ilusão – Cracolândia. Publicado no Youtube, em 13 de Novembro de 2020.

“O Direito Penal da Guerra às Drogas”, por Luís Carlos Valois.

“Pela metade: as principais implicações da nova lei de drogas no sistema de justiça criminal em São Paulo”, por Marcelo da Silveira Campos.


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