Por Jonathas Paulo Gomes da Silva

Em seu prefácio do livro “A Era Dos Extremos”, cujo espectro aborda os idos de 1914 a 1991, Eric Hobsbawm, ao relatar a dificuldade de examinar período histórico tão próximo, resume: “Para este autor, o dia 30 de janeiro de 1933 não é simplesmente a data, à parte isso arbitrária, em que Hitler se tomou chanceler da Alemanha, mas também uma tarde de inverno em Berlim, quando um jovem de quinze anos e sua irmã mais nova voltavam para casa, em Halensee, de suas escolas vizinhas em Wilmersdorf, e em algum ponto do trajeto viram a manchete. Ainda posso vê-la, como num sonho.” 

Ao ler e reler “A civilização Capitalista”, de Fábio Konder Comparato, é impossível não pensar o quanto as palavras do historiador britânico não soariam deslocadas dentro da obra: a civilização capitalista não é outra senão a em que está condensada a experiência humana como conhecemos – com o adendo importante de que não existem civilizações puramente capitalistas, que tal divisão não se encerra em dicotomias simples, como exemplifica o Brasil, cujo traslado de estruturas coloniais ainda faz transparecer em terras tupiniquins resquícios de um simulacro de feudalismo. No entanto, tais divisões de ordem prática pouco importam, dado que o livro discute não o capitalismo, que aporta no título como um adjetivo restritivo. A civilização, essa sim, é o verdadeiro objeto. Tem a ver, acima de tudo, com a imagem que vislumbramos ao olhar no espelho, indiferente ao quanto essa imagem carrega de realidade.

E a historicidade do pensamento capitalista, articulada por Comparato em consonância com a filosofia, sociologia e teologia demonstra que quase não há valor, ideia ou forma moral que o capitalismo não transformou – ou domesticou. O contraponto parece fazer parte do âmago desde suas bases: a negação da moral da filosofia grega antiga, por formas individualistas de pertencimento e absorção a social; a substituição da religião como forma absoluta, consubstanciada em uma ordem moral de virtude; seu modelo ético e de valorização do trabalho; tudo parece, em maior ou menor grau, encontrar contraponto com os modelos civilizatórios anteriores, sendo o capitalismo o vencedor em impor, ou pelo menos legitimar, a ordem moral e social compatível com seus anseios.

Portanto, quando lemos a obra de Hobsbawm sob as grossas lentes de quem conhece o  Século XX e suas contradições, tais blocos de polaridade parecem, superficialmente,  não mais que a conclusão lógica de presságio construído ao longo de quantidade significativa de tempo, por um roteirista oculto hábil em construir, mas não muito habilidoso em oferecer a surpresa o final. Durante esse período histórico da obra de Hobsbawm (o breve Século XX, de 1914 a 1991), todos parecem ter uma opinião sobre o capitalismo. “A Era dos Extremos” o tem como centralidade, mas sua compreensão recaiu no campo do dogma, em que poucos intelectuais se debruçaram com liberdade, sendo John Maynard Keynes um exemplo notório, mas ainda assim uma exceção.

Por isso Comparato foge ao adjetivo. Não significa que ele não faça juízos de valor sobre o que escreve – é um intelectual competente o suficiente para saber que a neutralidade é apenas uma ilusão fugaz. Os juízos de valor, impossíveis em um tema que se confunde em menor ou maior grau de submersão ou aceitação com a sociedade de que todos fazemos parte, apenas não tomam a centralidade da compreensão.  O que a dificulta, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são até mais simples de superar, pois não há verdade brocardo francês “tout comprendre c’est tout pardonner” (tudo compreender é tudo perdoar). Compreender Getúlio Vargas dentro da história Brasileira e enquadrá-lo no contexto de industrialização Nacional e garantia de direitos trabalhistas não é perdoar seu flerte com o nazifascismo.  

No entanto, se é possível compreender algo da civilização capitalista dentro do processo histórico que Fábio Konder Comparato constrói, é que ele prescinde das conspirações. Não por ser avesso a elas: os donos do poder da civilização capitalista apenas não necessitam se ocultar para estabelecer formas de controle. Elas são recônditas e, por isso, orgânicas ao imaginário social.

Parece ser a única ideia que, ao longo do texto, falha ao encontrar o caminho de um contraponto.

Publicado por Rafael Almeida


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