coletivo 4 am

Cortes na educação e na ciência, desmatamento, declarações esdrúxulas com argumentos arcaicos, confrontos diretos com os estudantes e perseguição a tudo aquilo que é público. Esses são apenas alguns dos eventos quase que diários de Weintraub, Bolsonaro e todo o corpo do governo.  A situação é tão desesperadora que, para muitos, a única explicação é que o país elegeu um grupo de loucos que não tem a mínima noção do que fazem ou que o atual presidente é muito burro.  De fato, se o objetivo é fazer do Brasil um país melhor, algo está errado. Porém, será mesmo burrice ou privação dos sentidos o problema?  Não há projeto? É um “desgoverno”? Podemos considerar que as intenções são boas e o problema está na sabedoria em executar?

Nossa primeira investigação pode partir do seguinte ponto: Há alguém que seria contemplado com o projeto atual?
Para responder esta questão precisamos reconhecer que os cortes na educação não são exclusividade da atual gestão. Obviamente, há um acirramento do processo, no entanto, nos governos petistas, apesar de um aumento considerável no investimento (cerca de 10%), frações de cortes ocorreram tanto no período de Lula quanto nos de Dilma e Temer [1]. Porém, longe de querermos favorecer uma falsa polarização ultra política (diferente de uma real polarização, pautada no antagonismo de classes que, sim, é importante), nosso objetivo aqui é colocar que talvez as ações de Bolsonaro não devam ser subestimadas como sem lógica ou irracionais e façam parte de um projeto antigo no país. Porém, novamente, de quem seria esse projeto?

Sabe-se que, seja um período à esquerda, seja à direita, não é exatamente quem governa que controla os caminhos do país, os grupos que regem  antes ou depois, são praticamente os mesmos:  A elite latifundiária, presa e sem projeto algum de emancipação nacional, mantém o país como um exportador de matéria prima para o primeiro mundo. Mesmo a Embrapa, historicamente produtora de conhecimento científico subordinado ao agronegócio, hoje perdeu grande relevância [2]. Tanto a entrada de investimentos estrangeiros no setor produtivo agrícola quanto a compra de material científico explicitado na PL dos agrotóxicos (PL 6299/2002), só nos reafirmam na posição de capitalismo-dependente na ordem mundial, sujeito a interesses imperialistas, deixando claro que a universidade pública, com pesquisa e extensão e ensino de qualidade não é demandada por esta parcela da elite brasileira, pelo contrário, quanto menos gasto público, mais investimentos, anistias e incentivos fiscais ao crescimento do agronegócio [3]. Outro setor importante na conjuntura nacional, o financeiro- especulativo que cresceu muito no país durante esse começo de século [4], vivendo da especulação no mercado financeiro, realizam grande parte das pressões para reformas liberais que supostamente atrairão investimentos imperialistas, como a da previdência, a trabalhista e a tributária. São, obviamente, aqueles que mais cobram o pagamento da tão falada “dívida externa” e a política de austeridade fiscal, que é expressa muito claramente na chamada “PEC da morte” (PEC 55 ou PEC 241),  atual EC 95, onde foram congelados  os recursos de saúde, educação e assistência social por 20 anos [5], não carece também de uma universidade pública que realize pesquisas. Até mesmo o setor industrial, que teve o lucro diminuído nos últimos anos, mostra a nossa faceta como capitalismo periférico, quando na FIESP vaiaram o projeto de nacionalismo industrial burguês de Ciro Gomes e aplaudiram Bolsonaro com seu projeto de entrega ao capital estrangeiro.

Dessa forma, podemos dizer que nem o projeto de educação presente na ditadura militar, com a criação de diversos campi para atender a demanda empresarial, sob um viés tecnicista, e totalmente desvinculada dos interesses da classe trabalhadora [6] encontra bases concretas no sistema para existir. Independe para quem lucra se mais de 90% das pesquisas são realizadas em Universidades Públicas, ainda que esta pesquisa atenda primordialmente interesses financeiros e, em pouquíssima medida os interesses dos trabalhadores. O projeto não é este. No projeto atual de subordinação ao imperialismo só cabe uma proposta de educação: Privada, mercantil e sucateada. Graças, entre outras coisas, às políticas de incentivo ao setor privado na educação, que colocou muitos de nós aqui, hoje, quase 78% das matrículas atuais são em universidades particulares. Se considerarmos apenas o Sudeste, o número sobe para 81%. Esse movimento, gerou a entrada no país dos oligopólios da educação, em que apenas 8 deles dominam cerca de 27% dos universitários, detendo, sozinhos, mais alunos do que todo o setor público, com apenas 25% das matrículas. A educação brasileira é atraente aos grupos de investimentos. Segundo dados da FGV, o montante de recursos públicos destinado a educação privada saltou 1456% entre 2010 e 2014, ou seja, recursos que deveriam ser direcionados para as universidades públicas, possibilitando uma educação soberana e voltada aos interesses das demandas internas, são transferidos para grupos de investimentos que tem como lógica e princípio o lucro. Visto que o Brasil é o único país que permite que a educação seja investida no mercado financeiro. Os efeitos da educação de mercado já ecoam e afetam nossos companheiros bolsistas e estudantes trabalhadores, que batalham para bancar sua mensalidade: demissão em massa de professores qualificados, redução de cargas horárias para atividades e disciplinas práticas nos cursos, implementação indiscriminada do Ead, que molda o conhecimento de forma reducionista e desarticula o debate, e presença quase que inexpressiva de pesquisa e extensão e, ao mesmo tempo, aumento exorbitante nos preços das matrículas.

Toda situação nos dá fortes evidências de que Bolsonaro e Weintraub não são, em nada, burros nem loucos, apenas seguem um projeto muito bem esclarecido, burguês e imperialista e que a educação, diferente da ideia de uma estrutura redentora, capaz de alterar os rumos da nação, está atrelada  e segue o projeto político que há muito tempo caminha em nosso país. Nós estudantes, pobres, bolsistas não podemos nos dar ao luxo de lutar apenas contra os personagens desse atual governo. Como sempre, nossa luta é muito maior. Somos sim contra Bolsonaro, porém somos também contra os latifúndios que nos mantém dependentes, contra os oligopólios da educação que nos oferecem e oferecerão uma educação cada vez mais sucateada sem nenhuma política de permanência estudantil, somos contra a subordinação aos interesses do mercado financeiro! Além de oposição dizemos que esse projeto e nenhum outro que esteve em vigor até hoje nos é suficiente. Nosso projeto é de uma Universidade que esteja em um projeto político realmente popular, voltada para os interesses e necessidades reais daquele que construiu tudo até hoje: O trabalhador!

Nossa força está em nossa organização, portanto, convidamos a todos os bolsistas a lutar no 4 da manhã, a se organizar coletivamente em busca de uma alternativa diferente! A luta é por políticas de permanência, por curso de inglês gratuito e de qualidade, mas é, principalmente, por uma alteração drástica das estruturas pela base, por um projeto verdadeiramente popular!

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