O CASO DO BANHEIRO VERMELHO

Por Redação

Na primeira sexta-feira de agosto, o Instituto Presbiteriano Mackenzie acionou a polícia após encontrarem o desenho de uma suástica na porta de um dos banheiros da unidade colegial de Tamboré, em Barueri. O símbolo associado ao nazismo veio acompanhado da mensagem escrita em vermelho e em letras garrafais: “NA PRÓXIMA SEMANA O MASSACRE ACONTECERÁ, ESTEJAM AVISADOS”.

Esse não é o primeiro incidente do tipo a acontecer dentro dos muros do Mackenzie. Em 2021, um estudante do 10º semestre do curso de Direito acessou a aula virtual utilizando uma suástica de seringas como foto de perfil. O aluno alegou que a imagem seria uma forma de protestar contra a vacinação obrigatória. Apesar de não se configurar como um caso de nazismo, atitudes como essa não contribuem com a discussão e banalizam o símbolo que remete a uma das maiores atrocidades que ocorreram na história humana.

Em setembro de 2018, ocorreu um episódio ainda mais grave quando, durante as eleições, um estudante gravou um vídeo dizendo que “a negraiada vai morrer”. Após uma longa onda de indignação que contou até com protestos no campus Higienópolis, o aluno foi expulso em janeiro de 2019 e, em fevereiro do mesmo ano, tornou-se réu nos conformes da Lei nº 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

Uma das várias consequências desses acontecimentos é a redução da credibilidade do Mackenzie. A instituição passa a ser enxergada como um ambiente em que eventos como esses são comuns, sofrendo desvalorização no mercado. Os principais afetados são os estudantes, profissionais e pais que integram a comunidade mackenzista. Daí vem a necessidade de exigir reações radicais da direção.

No caso do banheiro vermelho, o Mackenzie se manifestou em nota oficial alegando estar “tomando todas as providências necessárias para investigar os autores e tratar o caso com a seriedade que ele exige (…)”. O Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré possui uma história de mais de 40 anos em nossa região, história pautada por valores e princípios que estão na contramão desse tipo de violência”. Na mesma nota, os pais foram informados que as aulas seriam mantidas durante a semana com segurança interna reforçada.

A repercussão do ocorrido foi tão grande que alcançou grandes veículos midiáticos, como a Veja, a Folha e o Metrópoles. Até mesmo figuras políticas como Álvaro Dias, senador pelo Podemos, e Mariana Conti, vereadora de Campinas pelo PSOL, manifestaram-se nas redes sociais. A UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) descreveu o incidente como absurdo e publicou no Facebook: “Nazismo não é brincadeira, que o colégio apure os fatos e os responsáveis sejam penalizados”.

Pelos comentários em redes sociais e depoimentos feitos ao JP3, ficou clara a preocupação geral em relação à insuficiência das providências adotadas pelo Colégio, mas vale ressaltar que o caso exige atenção conjunta da comunidade mackenzista e da instituição. Embora muitos pais, alunos e professores tenham se manifestado com preocupação e em repúdio ao ocorrido, houveram aqueles que demonstraram uma certa indiferença, crentes pelos mais diversos motivos de que a ameaça não era real.

Por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais, boatos acerca do caso se espalharam muito rápido, o que aumentou consideravelmente a disseminação de fake news. Antes mesmo de um pronunciamento oficial da escola, muitos pais e responsáveis pelos alunos escolheram interromper o horário de aula e buscar os filhos por temerem a veracidade das palavras na porta do banheiro. Nos dias seguintes, a frequência de discentes em sala de aula foi menor — reflexo claro do medo entre as famílias.

Em depoimento para o JP3, uma mãe, que preferiu não se identificar, contou que seu filho teve “medo de morrer” e continuou dizendo: “tinham crianças chorando e passando mal”. A mãe nos informou que, no dia, não recebeu nenhuma ligação da escola, tomando ciência da situação pelas imagens que vazaram no grupo de mães. Em outros grupos, mensagens sobre um “atentado terrorista no Mackenzie” ou uma “suposta brincadeira criminosa” deixaram adultos, adolescentes e crianças em estado de desespero. Também houveram aqueles que publicaram fotos na internet por acreditarem que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto.

Após um longo processo investigativo, o JP3 confirmou por um dos depoimentos que a mensagem deixada na porta do banheiro se tratava de uma artimanha utilizada por um aluno do colégio para adiar o período das avaliações. Mesmo assim, deve-se observar que, entre os anos de 2019 e 2021, o número de movimentos neonazistas cresceu em 270% no Brasil. Segundo uma matéria publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, mais de 500 grupos ligados à vertente neonazista estão em atividade no país. Apesar de não haver ligação confirmada entre o autor desse caso e os núcleos, trata-se de uma ação inaceitável que serve de porta de entrada para falas e ações ainda mais preocupantes.

Episódios como esse nos remetem aos Estados Unidos, que já foi alvo de 322 casos de massacres por tiroteio somente nos primeiros meses do ano. A razão para esse grande número de casos não é atribuída somente à facilidade na obtenção de armas de fogo, mas também ao estado lamentável da saúde mental da sociedade norte-americana.

Em 2021, 37% dos estudantes do ensino médio nos EUA apresentaram transtornos de saúde mental. Infelizmente não temos acesso a esse dado no Brasil, mas uma pesquisa recente constatou que estudantes de escolas públicas das periferias dos municípios de São Paulo e Guarulhos apresentaram triagem positiva em 10,5% para sintomas depressivos graves e 47,5% para sintomas ansiosos graves. Se a saúde mental dos estudantes não for tópico de discussão e preocupação na sociedade brasileira, notícias de casos semelhantes aos que acontecem nos Estados Unidos não demorarão a estampar as manchetes dos jornais.

Fontes:

“Estudante de direito que gravou vídeo racista durante eleições é expulso novamente do Mackenzie”. Publicado no G1, em 25 de maio de 2019.

“Aluno do Mackenzie usa suástica como protesto anti-vacina e causa indignação”. Publicado no JP3, em 16 de setembro de 2021.

“322 massacres por tiroteio já ocorreram nos EUA no primeiro semestre do ano”. Publicado na Hora do Povo, em 7 de julho de 2022.

“In CDC survey, 37% of U.S. high school students report regular mental health struggles during COVID-19”. Publicado no Pew Research Center, em 25 de abril de 2022.

“Vida sem escola e saúde mental dos estudantes de escolas públicas na pandemia de Covid-19”. Publicado no SciELO, em 17 de junho de 2022.
“Programa Conexões aborda crescimento do movimento neonazista no Brasil”. Publicado na UFMG, em 2 de fevereiro de 2022.

Publicado por Vitória Cruz


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