por Redação

Na última quarta-feira (15), um aluno de uma das turmas do 10º semestre da Faculdade de Direito do Mackenzie acessou a sala de aula virtual utilizando um símbolo nazista como foto de perfil. A imagem era uma suástica formada por seringas.

A situação foi apontada por outros estudantes, que chegaram a levantar a hipótese de que se tratava de um invasor; após a verificação de que de fato o homem era aluno da disciplina, o professor solicitou a remoção da imagem, explicando a ofensa por trás do uso daquele símbolo. 

Gabriela Romeu, discente que participava da aula, relata que “o aluno alegou que a imagem da suástica era apenas exercício da sua liberdade de protesto por ter sido obrigado a se vacinar e que estava sendo vítima de perseguição e vigilância pelo resto da turma”. Outro estudante ouvido pelo JP3, que não quis se identificar, afirma que o homem disse ser funcionário público. O jornal não conseguiu verificar a informação pois não teve acesso ao nome completo, conforme explica Gabriela: “recebemos prontamente orientações do coordenador do curso para não divulgar o nome desta pessoa para outras turmas ou pessoas de fora da Faculdade.”

Após o pedido do professor, o aluno trocou a imagem de perfil e a aula foi encerrada pouco tempo depois. A situação gerou revolta entre os estudantes da turma: “eu acho inaceitável um cara no 10º semestre de Direito ter essa falta de empatia e de bom senso”, afirma uma aluna que prefere permanecer anônima. 

Vídeos e prints do ocorrido foram espalhados por grupos de WhatsApp entre os demais alunos da faculdade, que reagiram com espanto e repúdio. O Coletivo Feminista Leolinda Daltro, em comentário ao JP3, afirma: “em meio a uma pandemia, em que diversas pessoas perderam entes queridos, é inadmissível presenciar algo assim no ambiente acadêmico. Saber que existem pessoas que corroboram tal tipo de ideal torna a universidade um local de desconforto e insegurança aos grupos minoritários que a frequenta, e isso é tudo que não podemos transformar a universidade: um local de intolerância, ignorância plena e que contenha focos do nazifascismo”.

O Coletivo Afromack também falou ao jornal: “desde a eleição que elegeu Jair Bolsonaro presidente em 2018, tais discursos criaram mais força em conjunto com práticas racistas no Brasil. A propagação desse discurso pode se refletir em violência específica contra grupos minoritários e a promoção da violência contra negros faz parte do discurso central desse grupo. Grupos extremistas de direita tem como foco diversas minorias como mulheres, judeus, negros e LGBT.  Esses grupos, espalhados ao redor de toda a internet e agora em todo o país, utilizam simbologias diversas para celebrar o nazismo e propagam suas ideias violentas de maneira anônima ou online.”

O Centro Acadêmico João Mendes Júnior, em comentário ao JP3, afirmou: “O Centro Acadêmico tomou conhecimento dos fatos na noite de ontem (15) e já iniciou as tratativas com a faculdade ainda antes de postar a nota. A coordenação se demonstrou bem aberta a levar o caso para frente e a fazer todo o possível, e nós vamos acompanhar de perto para garantir que isso não seja deixado de lado”. A nota do CA pode ser lida na íntegra aqui.

Sergio Augusto de Souza, Mestre em Direito Internacional Público e Direitos Humanos pela USP, opina que a atitude do homem “revela um preconceito latente, pois menospreza o sofrimento de todo um povo apenas para provocar e chamar a atenção para sua situação de indignação pessoal, além de tudo, equivocada”. Procurador da Fazenda Nacional, o Dr. Sérgio explica que o uso da suástica nazista implica em corroborar e banalizar as atrocidades cometidas sob este símbolo no passado. 

O ato está previsto no art. 20, §1º da Lei nº 7.716/89, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor, e pode ter implicações legais: “nesses casos, cabe a notificação à PF, que deve instaurar o inquérito para posterior oferecimento de denúncia ao Judiciário pelo Ministério Público”, aponta Dr. Sérgio. O procurador ressalta que não necessariamente haveria um processo, uma vez que o Judiciário ou o próprio MP poderiam reconhecer arrependimento eficaz devido à alteração da imagem utilizada.

Gabriela ressalta que a situação é delicada, pois além do evidente crime de apologia ao nazismo, os prints divulgados continham nomes de outros alunos da turma. “Por isso precisamos que a Faculdade se posicione e investigue o caso de forma adequada. Não queremos espetacularização nem exposição de ninguém, nós queremos posicionamento das nossas instituições.”

Em nota à imprensa, a coordenação da Universidade afirma:

A Universidade Presbiteriana Mackenzie repudia fortemente toda atitude de discriminação, bem como não tolera protestos que ofendam pessoas ou grupos sociais, sob quaisquer circunstâncias.

Informamos que foi aberto um processo disciplinar de apuração do caso de maneira completa e exemplar, garantindo também o amplo direito de defesa. A partir dos resultados da averiguação, decidiremos as atitudes cabíveis, de acordo com o Código de Ética e regulamentos da UPM.

Há 150 anos, o Mackenzie tem se identificado diante da população brasileira como instituição confessional cristã reformada, que defende o respeito entre todos os cidadãos, sem qualquer distinção, lutando pela convivência harmoniosa na sociedade, baseada na verdade, na justiça e no amor ao próximo.

O JP3 não conseguiu contato com o aluno, mas coloca-se à disposição caso o mesmo queira prestar esclarecimentos.

Publicado por Redação


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