A obra e o legado de Roberto Bolaño

Por Guilherme Calazans

Do deserto de Sonora às inomináveis vielas parisienses em que se encontram os imigrantes, Roberto Bolaño concebeu reflexões sobre os mais diversos aspectos da humanidade como poucos escritores conseguiram, talvez por isso seja reconhecido como um dos autores mais brilhantes de sua geração, além de ter dado a luz a pelo menos dois dos romances latino-americanos mais relevantes da segunda metade do século passado.

Bolaño nasceu em Santiago, no Chile, em 1953, tendo se mudado, porém, para o México com sua família ainda na juventude. Isso pelo menos até seus vinte anos de idade, quando decidiu voltar ao país andino a fim de “ajudar na construção da revolução” sob o governo de Allende, o que se tornaria um dos episódios mais marcantes de sua breve biografia: ao voltar ao Chile, tem sua expectativa quebrada, como tantos outros jovens da militância e da vanguarda, pelo golpe pinochetista, é preso durante oito dias e conta com a amizade de seus carcereiros (com quem havia estudado) para fugir. Seu personagem alter ego, Arturo Belano, terá a mesma trajetória marcada em algumas de suas produções. E mais precisamente em Estrela Distante, retrata o momento de perseguição aos políticos e artistas após a instalação da ditadura (isso enquanto acompanhamos o mistério de um poeta e piloto militar).

Semelhante também poderia ter sido o destino de Neruda – e isso é unicamente um exercício histórico especulativo – se mais novo, tendo em vista que o poeta do mar também retornou a sua terra natal anos antes por motivos semelhantes, de forma que abriu mão de sua candidatura à presidência pelo partido comunista para apoiar Allende, e mais do que isso, se a jovem poesia chilena foi presa em porões e quartéis após o golpe, Neruda veio a falecer cerca de duas semanas depois, criando de certa forma, um paralelo entre as gerações artísticas do país.

Em 1998, publica Detetives Selvagens, romance já classificado como “uma carta de despedida à sua geração” (essa geração que, no Chile, foi aprisionada e torturada), que lhe rendeu o prêmio Rómulo Gallegos e no qual acompanhamos com mais detalhes a vida não só de Belano, mas de certa forma, de toda jovem poesia mexicana, para falar em termos constantes em sua obra. Na narrativa, temos detalhes da juventude dos real-visceralistas, um grupo de poetas (formado na maior parte por mexicanos) em polvorosa, com pretensões de revolucionar a poesia – como talvez deva ser qualquer grupo vanguardista – e que chegou até mesmo a planejar o sequestro do poeta Octavio Paz. E a grande provocação do livro é a incerteza exatamente sobre a genialidade ou não do grupo: nenhum obteve sucesso (mais precisamente: Pele divina morreu. Pancho Rodríguez morreu. Emma Méndez se suicidou. Moctezuma Rodríguez anda metido em política. Maria Font não publica. Ulisses Lima continua morando no DF. De Belano não tiveram mais notícias. De García Madero também. Etc.), eram medíocres ou foram frustrados pelo destino? O movimento acaba fracassado, malvisto pela comunidade literária e seus membros dificilmente conseguem espaços e publicações nos principais meios da poesia. Essa é a reflexão a que o livro nos leva depois de 20 anos de relatos mais ou menos confiáveis de conhecidos, familiares e membros do real-visceralismo. Assim também somos instigados sobre Cesárea Tinajero, a poeta quase lendária que o grupo busca e a qual seu nome homenageia. 

Em seu outro grande romance, 2666, publicado postumamente e incompleto, sintetiza seu espírito ao compor, com todos os elementos mais marcantes de sua produção, uma única obra, em cada uma das partes do livro, exercitando sua escrita e abordando temas comuns de seus livros (por exemplo, a busca por um escritor misterioso).

Em Noturno do Chile, com as reflexões terminais do padre Sebastián, Bolaño volta a tratar da literatura chilena e da ditadura, e novamente por uma perspectiva inusitada: o padre e crítico literário que deu aulas sobre marxismo a Pinochet. Também o faz em Amuleto, onde temos mais detalhes do refúgio de Auxilio Lacouture, a mãe dos poetas e da poesia mexicana, no banheiro feminino da Faculdade de Filosofia e Letras durante a invasão da UNAM pelo exército. 

Dessa forma, Bolaño ao longo de toda sua obra, abordou a política e a arte latina num grande movimento metalinguístico que retratou sua própria realidade e de sua geração – tendo ele mesmo feito parte de um grupo como o real-visceralismo – o destino, a frustração, as contradições do mundo em que viveu, tornando o universo de seus escritos um excelente produto literário disso, além de colocar os leitores em contato com a história da América latina: com suas universidades, seus saraus, com as cidades e festas, com seus desertos, com a violência e a tortura.

Publicado por Guilherme Calazans

Referências

Noturno do Chile, Roberto Bolaño, 2004, Companhia das Letras

Os Detetives Selvagens, Roberto Bolaño, 2006, Companhia das Letras

Amuleto, Roberto Bolaño, 2008, Companhia das Letras

2666, Roberto Bolaño, 2010, Companhia das Letras

Estrela Distante, Roberto Bolaño, 2009, Companhia das Letras

Xerxenesky, Antônio, O romance monstruoso: 2666 de Roberto Bolaño

Imagem: Reprodução, Revista a palavra solta

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