Hospedaria dos sonhos e a locomotiva

por Luana Monte Alves

“Bahia” fez as contas… caso a sorte lhe sorrisse, o trem chegaria às 23:30h, poderia então finalmente chegar em casa às 02:00h… dormir e pegar o trem novamente às 05:00h. “Casa”, pensou. Mais uma noite sem estrelas na estação que curiosamente se chama Luz. A beleza artificial da cidade não mais lhe fascinava, a exaustão mitigara  seus sonhos. São Paulo deixara de lhe arrancar suspiros… assim como a “coisa que anda por debaixo da terra”.  É fácil se acostumar com o tido como extraordinário depois de algum tempo.

“Bahia”, na verdade,  chama-se Claudio e nunca entendeu ao certo o porquê do apelido…  como também não teve tempo para refutar e muito menos explicar que seu lugar de origem fica no interior de Pernambuco, onde deixou a cachorra e os três irmãos, e que prometera voltar algum dia e, caso não voltasse,  mandaria pegar… os irmãos e a cachorra, a mãe não poderia vir, tem medo da Cidade Grande e de escada rolante. Inundado em seus pensamentos…  Olhou mais uma vez para o céu na esperança de encontrar ao menos uma estrela… nenhuma.

Agora outros dois indivíduos ocupavam a plataforma… Os olhos do “Bahia” fitaram, por alguns segundos desconcertantes, os olhos daqueles que seriam seus conterrâneos e que, assim como ele, fizeram cálculos de quantas horas poderiam dormir… o “Ceará” tinha fome, o “Paraíba” pensava na filha. Eis que chega a locomotiva e rompe com o silêncio entre os filhos da seca. É hora de entrar no vagão, tirar um cochilo e usufruir das poucas horas de sono que lhe restavam e sonhar… com uma vida enraizada na cidade grande…e com um sono de oito horas.  

Sem lua e sem expectativa de uma manhã ensolarada…é inverno. 

A Estação fica finalmente vazia…  preenchida segundos depois pelos fantasmas de vidas que em outro tempo ali habitaram. A narrativa do “Bahia” e de muitos imigrantes se dissolve na história de São Paulo. … em pensar que o início de tudo  deu-se pelo cultivo do café. 

Anunciada a Nova República, São Paulo é a nossa cidade do futuro atrasada, que cresce de maneira desengonçada e ambiciosa. As indústrias lutam por espaço entre o clássico europeu em que se espera… um dia ser superado, o centro muda, assim como seus habitantes. A cidade entra em ebulição, tendo o café como produto condutor desse processo… sendo responsável também pela introdução de ferrovias, é o espírito bandeirante a todo vapor. Os trilhos que movem o café, trazem os imigrantes que, em busca de estabilidade, chegam à terra conhecida como promissora…  a única certeza era o sonho que, em oposição às roupas, não cabia em uma única mala… Os anseios do estrangeiro são idênticos aos do nordestino. 

Legado de diversos fluxos migratórios que transitam entre o presente e o passado… o Café entrou no Brasil pelo Norte e fez de São Paulo um polo multicultural.  

O ponto em que quero chegar é que a “Paulistanidade” não se finda somente em sua composição europeia e branca… sendo vista geralmente como “progressista e desenvolvimentista” em detrimento da imagem do nordestino…, na qual a palavra “Bahia” é utilizada como sinônimo de “rústico, ignorante e sem educação” … o nordestino deixa sua marca e contribui incansavelmente para o sucesso da cidade. 

O que me lembra a obra da Tarsila – Operários… em que a artista imortaliza as feições dos trabalhadores de fábricas,  de todas as raças, representados um ao lado do outro, e que carregam (todos) o semblante de extrema exaustão e desesperança…

O alarme do “Bahia” toca… é hora de tomar uma xícara de café e pegar a locomotiva para mais um dia de trabalho. 

Publicado por Rocco Gasparini

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