O que temos a ganhar com os jogos eletrônicos?

Por Claudio Ottani

Há um tempo, eu me perguntei “porque eu gasto o meu tempo jogando?”. Quando criança, pensava que jogava para me divertir, e só mais tarde percebi que os jogos competitivos possuem um forte efeito sobre a autoestima do indivíduo.

Quando você vence, se sente bem. Há um mecanismo natural inerente ao ser humano que fará com que ele se sinta bem por ter superado um desafio. Quando você perde, por outro lado, sente-se mal porque você falhou miseravelmente consigo mesmo e com o seu time, dependendo do jogo.

Gradualmente, percebi que os jogos eletrônicos eram mais profundos que uma mera “brincadeira”. Os jogos são um negócio lucrativo, produtos culturais, instrumentos utilizados para construir relações sociais, passar mensagens e expressar personalidades.

Todo jogo é uma simulação que desenvolve alguma habilidade: inteligência emocional, pragmatismo, paciência, comunicação, planejamento, persistência… Para obter a vitória, o jogador se adapta ao jogo e desenvolve qualidades que não tinha antes. Essas qualidades serão usadas em situações que o jogador enfrentará em sua vida.

Quando me perguntei “porque eu gasto o meu tempo jogando?”, me equivoquei. Seria mais adequado dizer que “invisto meu tempo jogando”, pois o que tive de retorno dos anos que joguei foram vantagens inestimáveis.

Frequentemente não atribuímos aos jogos o valor que merecem, como se fossem meramente uma forma de lazer, quando na verdade podem ser produtos culturais de grande significado. As experiências que tive e as amizades que construí nos jogos e em suas comunidades fazem com que eu me sinta um indivíduo afortunado.

Desejo que os jogos possam proporcionar a outros indivíduos os mesmos benefícios que tive após terminá-los. Com essa intenção faço recomendações de dois dos melhores jogos que já joguei:

Minha primeira recomendação é Sid Meier’s Civilization V (que pode ser adquirido em: https://store.steampowered.com/app/8930/Sid_Meiers_Civilization_V/), um dos melhores jogos de estratégia baseado em turnos de todos os tempos.

Você controla uma civilização desde a antiguidade até a era espacial. Seu objetivo é triunfar sobre outras civilizações por meio da guerra, diplomacia, tecnologia e cultura.

É um jogo acessível, fácil de aprender e compatível com todos os públicos, famigerado pela frase “só mais um turno”, pois mesmo após horas de jogatina todo mundo sempre acaba querendo jogar mais um pouco deste clássico.

Lembro-me até hoje de uma partida em que o Império Romano estava conquistando o mundo por volta de 1930 e, inesperadamente, Mahatma Gandhi desenvolveu ogivas nucleares e derrotou o Império, triunfando com a civilização indiana.

Minha segunda recomendação é Disco Elysium – The Final Cut (que pode ser adquirido em: https://store.steampowered.com/app/632470/Disco_Elysium__The_Final_Cut/), um jogo rico em narrativa que explora a cidade fictícia de Revachol e os personagens envolvidos na trama de um protagonista literalmente esquizofrênico.

Você acorda extremamente bêbado em Whirling-in-Rags, uma cafeteria do pequeno distrito de Martinaise. Seu nome é Harrier Du Bois, Tequila Sunset ou Dick Mullen? Você bebeu tanto na noite anterior que não consegue se recordar de quem você é ou de onde mora. Sua primeira missão é descobrir quem é você e o que está fazendo ali.

Como se não fosse suficiente, nosso protagonista consegue ouvir e conversar com vozes que representam traços de sua personalidade. Essas vozes refletem pensamentos profundos. Em um momento de pessimismo do protagonista, a voz que representa a volição diz: “Este é um lugar para estar. Isso é tudo que você tem, mas ainda é alguma coisa. Ruas e luzes de sódio. O céu, o mundo. Você ainda está vivo.”

Ao decorrer do jogo, você não apenas descobrirá seu passado como também tomará decisões importantes que formarão uma nova personalidade para o protagonista. Essas decisões serão influenciadas pelos elementos políticos, econômicos e culturais de Revachol, uma cidade cheia de problemas sociais que um dia já foi a capital do mundo.

Limito-me a essas duas recomendações pensando em jogos que não exigem um bom computador e que são facilmente “gostáveis”. Ademais, a qualidade de seu conteúdo comprova a tese deste texto, demonstrando como nós subestimamos os jogos eletrônicos.

Para concluir, espero que este texto tenha animado o leitor a investir um pouco de seu tempo para desbravar o universo dos jogos eletrônicos. Trabalhemos para que a sociedade enxergue os jogos como um produto cultural tão importante quanto um livro ou um filme.

Publicado por Claudio Ottani


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