As cinco linguagens do amor de Gary Chapman aplicadas no âmbito corporativo

Por Jade Gomes de Souza

Psicólogos concluíram que sentir-se amado é a principal necessidade do ser humano. Por amor, subimos montanhas, atravessamos mares, cruzamos desertos e enfrentamos todo tipo de adversidade.

Gary Chapman – As cinco linguagens do amor

Ter a foto colada na parede por ser o funcionário do mês pode ser uma honra para uns, todavia, um desconforto para outros, visto que nem todos possuem a mesma linguagem do amor.

“No âmago da nossa existência há o íntimo desejo de sermos amados”, afirma Chapman em sua magnífica obra sobre as cinco linguagens do amor. Isso se dá, pois, a necessidade emocional básica do ser humano, como foi abordado pelo autor, não é apaixonar-se, mas ser genuinamente amado pelo outro. Vale ressaltar que ser amado está ligado ao conceito de pertencimento. Com isso, ao ser amado, o indivíduo se sente parte de um local seguro em que é compreendido e aceito pelo seu semelhante, consequentemente, a troca passa a ser recíproca e cada integrante tentará proporcionar o seu melhor ao outro.

Além disso, de acordo com o fundador e presidente do Instituto Brasileiro de Coaching – IBC, José Roberto Marques, quando a necessidade de amor e pertencimento não estão sendo atendidas, por mais que se tente esconder esta realidade, o indivíduo começa a se sentir isolado, sozinho, depressivo e tende a ficar mais introvertido, o que resultará, por exemplo, em seu baixo rendimento profissional. Daí a relevância da temática, pois com seu “tanque de amor cheio”, mais produtivo e envolvido estará com seu trabalho e afazeres.

A princípio, Chapman alega que as pessoas falam diferentes linguagens do amor. Todos possuem sua língua nativa, que é a maneira pela qual se sentem apreciado, mas para que a comunicação seja efetiva é necessário aprender, não apenas sobre temperamentos, como, inclusive, a se comunicar na linguagem emocional do seu semelhante (o que o autor denomina de “segundo idioma”). Sobre isso, ele reforça que, apesar de ser mais confortável se comunicar com a primeira, “quanto mais utilizarmos uma língua secundária, mais à vontade nos sentiremos para expressá-la.

Um fator relevante é que a sua linguagem emocional e a de seu cônjuge, amigo de trabalho ou familiar podem ser tão diferentes quanto é o idioma chinês do português. Então, não adiantaria, mesmo com muito esforço, manifestar seu amor, orgulho ou admiração em português se o seu receptor só entende chinês. Daí a necessidade de usarem o mesmo idioma emocional. Porém, isso requer a empatia que nos leva a enxergar o mundo segundo a perspectiva do outro, aprendendo o que é importante para ele.

Outro fator é que no mundo corporativo, aqueles que ocupam posições de liderança precisam aprender a reconhecer as diversas linguagens do amor presente em sua equipe, a fim de manter em alta o sentimento de pertencimento em seus subordinados. Alicerçado nisso, um bom líder deve saber como falar e o tom a ser usado em cada momento. Como afirmou Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra do Reino Unido, “um líder é alguém que sabe o que quer alcançar e consegue comunicá-lo”. 

Isto posto, há cinco linguagens do amor: palavras de afirmação, qualidade do tempo, receber presentes, formas de servir e toque físico. Essas linguagens não estão de forma restrita apenas no âmbito conjugal, podendo ser exportadas, ainda, para o âmbito corporativo. Para maior entendimento, urge explicá-las a seguir.

Se desejamos desenvolver um relacionamento precisamos saber quais são os desejos da pessoa amada. Se queremos amar um ao outro, precisamos saber como fazê-lo.

Gary Chapman – As cinco linguagens do amor

No que versa as palavras de afirmação, Chapman faz uma subdivisão desse tópico, originando palavras encorajadoras, bondosas, humildes e dialetos variados.

Encorajar significa “inspirar coragem”, já as palavras bondosas estão ligadas ao tom que, de acordo com o autor, “se usa na comunicação, porque a mensagem é interpretada com base na tonalidade da voz e não apenas nas palavras utilizadas”. A palavra humilde se refere aos pedidos (e não imposições) que é direcionado ao outro, pois, ao pedir e não impor, as habilidades do outro poderão ser afirmadas diante da autonomia que lhe é conferida para fazer ou não o que lhe fora pedido. Por fim, há outras formas de expressar as palavras de afirmação, que o autor denomina “dialetos variados”, tendo em comum, dentro desse dialeto, o fato do outro ser apreciado pelas palavras.

Essa linguagem, no âmbito corporativo, poderia ser exemplificada da seguinte forma: dizer algo positivo sobre seu colega, na presença ou ausência dele e, quando for o alvo dos elogios, certificar-se de repartir o crédito com quem te auxiliou. Esse é o tipo de funcionário que adoraria ser elogiado diante dos demais colegas e ter, logo em seguida, a sua foto de funcionário do mês fixada na parede, pois seu tanque de amor é cheio quando ele é apreciado. Isso faz com que ele se sinta parte de um lugar seguro.

Já na qualidade de tempo, segunda linguagem, deve-se dedicar a alguém sua inteira atenção sem ao menos dividi-la, ou seja, olhando um para o outro e conversando num processo de dedicação mútua, “uma vez que o aspecto central da qualidade de tempo é estar próximo”, como ressalta Chapman. Nessa linguagem, há a subdivisão: estar juntos e conversa de qualidade.

Enquanto o estar junto tem ligação com o focalizar a atenção e gastar tempo em atividades significativas, concedendo ao outro minutos de sua existência, conversas  de qualidade são os meios que serão empregados para se estar junto, logo, envolvem o compartilhamento de experiências, pensamentos, emoções e desejos de forma amigável e em um contexto sem interrupções. Assim, a atividade executada é secundária, sendo apenas um veículo que proporciona o sentimento da interação, visto que a importância é emocional e se refere à atenção total que concedemos e recebemos.

É de suma importância ressaltar que a conversa de qualidade é bem diferente da primeira linguagem do amor. para Chapman, “palavras de afirmação focalizam o que afirmamos, ao passo que conversa de qualidade focaliza o que ouvimos”. Com isso, farei perguntas, não por obrigação, mas com o anseio genuíno de entender os pensamentos, sentimentos e desejos do emissor, dado que ele deseja solidariedade e compreensão, e não apenas encorajamento e elogios.

Nessa linguagem, o receptor espera não estar simplesmente próximo, mas sim junto. “Duas pessoas sentadas em uma mesma sala estão próximas, mas não necessariamente juntas”, como ressalta o autor. Sendo assim, não se deve ouvir o outro enquanto se lê jornal ou mexe no celular, mas sim olhá-lo nos olhos e dedicar-lhe toda a atenção (o que chamamos de escuta ativa). A maioria não sabe ouvir, pois são mais eficientes em pensar e falar. Para Chapman, “aprender a ouvir pode ser tão difícil quanto estudar uma língua estrangeira, pois pesquisas recentes indicam que, em média, as pessoas ouvem apenas 17 segundos antes de interromperem para inserir na conversa as próprias ideias”.

Esse funcionário espera ser ouvido, e não apreciado com as palavras, recompensá-lo colocando sua foto na parede não irá fazê-lo se sentir apreciado, mas escutar seu sentimento irá. É sentar-se com ele e dedicar minutos de sua existência conversando, por exemplo, sobre seu rendimento profissional. A escuta ativa é sempre importante, mas para uns ela é mais do que essencial.

 Os benefícios que a escuta ativa oferece são variados. Em primeiro lugar, quando sentimos que nos ouvem e nos compreendem estamos facilitando a livre expressão de nossos sentimentos. Em segundo lugar, é um modo de transmitir ao interlocutor que demonstramos interesse por ele. Além disso, quando uma pessoa se sente compreendida ocorrem alterações benéficas no estado emocional, com repercussões sobre o cérebro e a saúde mental.

Neuropsicólogo José Antonio Portellano Pérez, professor titular da Faculdade de Psicologia da Universidade Complutense de Madri, em entrevista ao jornal EL PAÍS

Receber presentes, terceira linguagem elencada pelo autor, é a mais fácil das comunicações. “Presentes são símbolos visuais do amor e admiração, sejam eles comprados ou feitos por você”. O autor afirma que o “ato de presentear é uma expressão fundamental de amor que transcende barreiras culturais”, haja vista que, em cada cultura, o ato de dar presentes é constante, porque a atitude de amor é sempre acompanhada pelo ato de dar

Um ponto importante é que embora os símbolos visuais de amor sejam mais importantes para uns, para outros não há tanta relevância. Outro ponto é que para aquela pessoa cuja primeira linguagem do amor é receber presentes, o preço pouco contará, a menos que haja uma enorme discrepância entre o que se deu e o que se poderia oferecer.

Desse modo, presentear funcionários que possuem um ótimo desempenho e se sentem queridos quando recebem premiações irá contribuir com o senso de pertencimento e manterá seu “tanque de amor cheio”, assim como o seu rendimento.

Já as formas de servir, quarta linguagem, refere-se àquilo que você sabe que o outro gostaria que você fizesse ou o auxiliasse. Chapman afirma que nas formas de serviço, para que sejam realizadas, é necessário pensar, planejar e executar. Assim, não é qualquer atividade que será desempenhada a fim de mostrar apreço pelo outro, mas àquela que significativamente fará diferença em seu cotidiano. Apoiando-se nisso, auxiliar voluntariamente na entrega ou na resolução de um relatório ou de um importante processo em que haja considerável dispêndio de força e energia é uma das significativas formas de externar sua admiração através de uma ação.

Uma observação substancial feita por Chapman é a de que, em um relacionamento conjugal, há coisas pelas “quais se espera que se façam quando uma pessoa gosta de outra”, como auxiliar nas tarefas de casa, colocando, por exemplo, o lixo para fora. De maneira análoga, quando se ingressa no campo profissional, há coisas que se espera que se façam quando se gosta do trabalho, como cumprir metas, entregando ou auxiliando colegas no que lhes fora solicitado pelo superior. Assim como quem está em um relacionamento conjugal espera receber auxílio de seu cônjuge, aquele que é detentor dessa “linguagem de amor” espera receber, no decorrer de sua estadia profissional, suporte como forma de apreço.

Vale enfatizar que essa linguagem se difere da segunda, a qualidade de tempo. Nas formas de servir, a atividade não é um veículo para se passar tempos juntos — visto que a atividade pode ser realizada por você, a fim de dar suporte ao outro, sem que ele esteja junto. Com isso, quando auxiliá-lo, não é crucial, por exemplo, exercer com veemência a escuta ativa, pois esta é vital para os que se enquadram na segunda linguagem. Nas formas de servir, espera-se receber apreciação através de suporte e auxílio nas atividades, ao invés de ter focalizado o que se comunica.

O toque físico é a última linguagem elencada por Chapman. O toque segue a mesma linha de raciocínio em relação a escuta ativa: é importante, mas para alguns é mais do que crucial. O autor faz uma observação interessante, expondo que “inúmeras pesquisas na área do desenvolvimento infantil chegaram às seguintes conclusões: Os bebês que são tomados nos braços, beijados e abraçados desenvolvem uma vida emocional mais saudável do que os que são deixados durante um longo período sem contato físico”.

De acordo com Martin Grunwald, professor de Psicologia e chefe do Laboratório de Háptica da Universidade de Leipzig, uma explicação plausível seria o fato de que “Nossa espécie, Homo sapiens, pertence à classe dos mamíferos que precisam de ninhos” e, por isso, a necessidade de bastante estímulo corporal, principalmente nos “primeiros estágios da vida de nossa espécie”, visto que “os estímulos de toque levam ao crescimento neural e físico”. Além disso, consoante à revista Veja, “contato físico, entre casais, amigos ou familiares, pode aliviar estresse, melhorar a saúde cardíaca e impulsionar o sistema imunológico”, mas é mister sublinhar que “nem todos os indivíduos se sentem confortáveis diante de um gesto mais íntimo”.

Assim sendo, uma forma de comunicar seu apreço a quem possui essa linguagem como nativa seria abraçá-la, por exemplo, se caso ela venha a chorar ou demonstrar insegurança. A revista ainda afirma que:

O toque também influencia na tomada de decisões. Exames cerebrais mostraram que o contato afetivo ativa o córtex órbito frontal, região do cérebro associada ao aprendizado e à tomada de decisões, além de integrar a formação de comportamentos emocionais e sociais. […] Além disso, uma série de estudos realizados por pesquisadores holandeses mostrou que abraçar pode aliviar os sentimentos de medo existencial e remover a insegurança pessoais. 

VEJA

Conforme fora observado por Chapman, a maioria dos problemas “no casamento tem pouco a ver com técnicas físicas, mas tudo a ver com o suprimento das necessidades emocionais”. Isso não é diferente no âmbito profissional, em que o colaborador, por não se sentir parte de um local seguro devido à ausência de compreensão e aceitação pelo seu semelhante, tende a ter queda em seu rendimento e insatisfação em seu trabalho. Por isso, o autor afirmou que “o amor não é a nossa única necessidade emocional. Psicólogos têm observado que entre nossas carências básicas encontram-se a segurança, a autovalorização e o significado. O amor, no entanto, relaciona-se com todas elas”.

“Suprir a necessidade de amor de sua equipe é uma escolha que tem que ser feita a cada dia”.

Gary Chapman – As cinco linguagens do amor

Isso é afirmado por Chapman, pois a depender da linguagem de seu receptor, adequar-se a ela poderá ser a princípio difícil. Um caso que ilustraria isso, é o fato de que pessoas que não possuem o toque físico como a língua nativa, teriam mais dificuldades em usar esse canal de comunicação. Vale frisar que ao suprir as necessidades emocionais dos seus liderados, eles se sentiram seguros e confiantes. Diante disso, Chapman afirma que quando o “nosso ‘tanque’ está cheio; podemos conquistar o mundo”.

Um meio para descobrir a sua linguagem emocional, que fora sugerida pelo autor, é fazer uma autorreflexão através de perguntas básicas como: O que você mais aprecia? O que faz com que você se sinta mais amado? O que mais profundamente o mágoa? O que deseja acima de tudo? Essas respostas oferecem dicas muito importantes.

Outro meio proposto, refere-se a observar as críticas do seu cônjuge, amigo íntimo ou familiar acerca do seu comportamento. Segundo Chapman, “as pessoas tendem a criticar mais seus cônjuges na área em que eles mesmos têm suas mais profundas necessidades emocionais”. Ou seja, quem costumeiramente reclama que o outro não passa tempo com ela tem forte indício de ter como linguagem emocional básica o tempo de qualidade. Já quem se queixa de nunca ter o auxílio nas tarefas rotineiras se enquadraria nas formas de servir. Por fim, quem reclama de nunca ganhar nada, nem sequer uma lembrancinha, tem forte tendência a ser do grupo daqueles que se sentem amados ao serem presenteados.

Portanto, a necessidade de significado é a força emocional por trás da maior parte de nossos atos. Queremos que nossas vidas valham a pena e ser amado por nosso semelhante aumenta nosso senso de significado. Quando isso ocorre, concluímos que se alguém nos ama, então devemos significar algo para essa pessoa. O autor é categórico em reforçar que apesar do amor não oferecer resposta para tudo, mas ele “cria um clima de segurança no qual podemos buscar soluções para as questões que nos aborrecem”.

Bibliografia

CHAPMAN, Gary. As cinco linguagens do amor. Editora Mundo Cristão – 1997 Tradução: Iara Vasconcelos

Como mudar o hábito de falar mais do que escutar. EL PAÍS, 2021. Disponivel em: https://brasil.elpais.com/estilo/2021-05-20/escuta-ativa-ensina-que-ouvir-pode-ser-melhor-do-que-falar.html acessado em 20 de novembro de 2021

Saiba por que o abraço faz bem à saúde física e mental. Veja, 2018. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/saiba-por-que-o-abraco-faz-bem-a-saude-fisica-e-mental/ acessado em 20 de novembro de 2021

Temperamentos. JP3, 2021. Disponível em: https://jornalpredio3.wordpress.com/2021/10/17/15286/ acessador em 20 de novembro de 2021

Touch May Alleviate Existential Fears for People With Low Self-Esteem. APS, 2013. Disponivel em: https://www.psychologicalscience.org/news/releases/touch-may-alleviate-existential-fears-for-people-with-low-self-esteem.html acessado em 20 de novembro de 2021

Publicado por Jade Gomes de Souza


Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3


Mais notícias e mais informações:


Jornal Prédio 3 – JP3 é o periódico online dos alunos e dos antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe e fique em casa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s