Por Leonardo Cipriano

Basta o esforço para chegar aonde quer? Será que quem não alcançou o que tanto desejou, de fato, não se esforçou o suficiente? Existe quem acredite neste tipo de ideia fundada numa gama diversa de privilégios. Acontece, porém, que as pessoas partem de pontos diferentes e, invariavelmente, algumas precisarão de muito mais força e garra para alcançar quem inicia mais à frente da linha de partida.

A ideia da meritocracia aparece para nós numa era pós-queda da Aristocracia, época em que se preservavam privilégios de nascença, desde que na própria família, como um ideário burguês. Vem, então, com a sedutora fábula de que, a partir daquele momento, sua posição na sociedade decorreria de seu esforço, talento e inteligência.

Tal ideário se apresentou de forma sistemática pela primeira vez como o cerne do livro The rise of meritocracy, de 1958 do autor Michael Young. Catalogado, inclusive, como uma sátira política, o livro é uma distopia, apesar da interpretação ter enveredado para outro lado. Assim, com esse “erro” de interpretação, a palavra foi adentrada ao vocabulário americano como uma ideia notável.

Um vídeo muito veiculado no Youtube exemplifica, de forma didática, o quão falacioso é tal ideário. Nele, o treinador explica aos alunos que farão uma corrida, cujo prêmio será uma nota de cem dólares. Antes de iniciar, pede para que dê dois passos o aluno que responder “sim” às suas perguntas. Ele questiona aspectos escolares, familiares, estruturais de família e de acesso. Ao final, pede àqueles mais à frente — por sinal, homens brancos — que olhem para trás e vejam que, ainda na linha de início, estão alguns de seus colegas — em sua maioria negros. Afinal, quem será que conseguirá alcançar a nota?

Problema latente normalizado por tal cultura é a estimulação da ideia de que algumas pessoas merecem mais que outras. Naturaliza-se, então, as desigualdades, as violências e as discriminações, pois, afinal, quem se esforçou muito, ao final do dia fará seu descanso treinando equitação na hípica, não é mesmo?

A ideia da meritocracia é extremamente perigosa, ainda mais em tempos políticos como o nosso. Apesar de sedutora, tal ideia carrega em si sementes podres. Precisamos desmontar essa ideia falaciosa, dado que não é possível que durante toda a história exclusivamente a população branca, masculina, heterossexual e de classe alta tenha sido a única esforçada.

Nesta toada, o estudo The Opportunity Atlas: Mapping the Childhood Roots of Social Mobility, publicado em 2020, apresenta que somando o CEP ao grau de escolaridade e riqueza dos pais — cruzando também diversos outros dados —, chega-se à previsão de qual será o rendimento do indivíduo norte-americano. Por sua vez, o estudo Economic Mobility in the United States, de 2015, expõe a diferença salarial entre crianças — então adultos — que cresceram em determinadas classes sociais, expondo que a diferença entre classes mais ricas em detrimento das mais pobres é superior a 200%.

Portanto, analisados e somados os dados, temos um estudo que afirma que a renda e escolaridade de seus pais determina o quanto você vai ganhar, ao passo que o outro afirma que dependendo de onde você nasceu é possível prever como será sua vida e expectativa. Logo, em contraposição a este ideário, é fato: não depende somente do esforço do indivíduo para alterar sua conformação social.

É necessário desmistificar e cristalizar a inexistência da meritocracia pura e simples. Tal ideia não passa de uma operação discursiva e de uma bravata ideológica com a intenção de justificar o funcionamento e as injustiças de uma sociedade absurda.



Referências

Corrida por $100 feita de privilégio e desigualdade. Disponível no Youtube

Economic Mobility in the United States. Publicado no The Pew Charitable Trusts em Julho/2015.

The Opportunity Atlas: Mapping the Childhood Roots of Social Mobility. Publicado no National Bureau of Economic Research, em Fevereiro/2020.

“The Rise of Meritocracy”, Michael Young, 1958.

Imagem:
Duke

Publicado por Leonardo Cipriano


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