Por Carlos Roberto Parra

“A pornografia é mais do que imagens em celuloide ou filme. É mais do que uma indústria cuja principal motivação é um esforço oportunista de tirar proveito dos impulsos mais baixos do homem”

– Mark Rousas Rushdoony

Quando eu estava no terceiro ano do Ensino Médio, fomos à um parque aquático para comemorar a formatura. O sol brilhava tão forte quanto nos esquentava no momento em que chegamos. Coloquei meus óculos escuros e fui para a piscina. Após um bom tempo conversando com um amigo, percebi que o dia já não estava tão claro quanto antes e, ao olhar para cima, percebi que, na verdade, o céu estava um tanto escuro. Liguei os pontos e a conclusão era apenas uma: vai chover! Foi exatamente o que eu disse para o meu amigo que, como se me chamasse de mané, me avisou que, na verdade, eu estava de óculos escuros e o céu estava perfeitamente claro. 

Se você for um bom mackenzista que prestou atenção nas aulas de Introdução à Cosmovisão, vai perceber que esse é um ótimo exemplo para definir o conceito: a cosmovisão (ou visão de mundo) é a lente através da qual nós enxergamos e interpretamos a realidade ao nosso redor. Óculos escuros vão sempre esconder o brilho do céu. Mas o que isso tem a ver com pornografia, afinal? Eu poderia responder com um sonoro “tudo!”, mas isso poderia não ser satisfatório. Como podemos ler de Mark R. Rushdoony, a pornografia é mais do que uma indústria de exploração ou ferramenta de prazer sexual, mas é a consequência necessária de uma cosmovisão fundamentada em compromissos ainda mais profundos. Quando olhamos para ela como um fenômeno independente, observamos apenas o céu escuro, esquecendo que a razão de ser são as lentes, ironicamente iluministas, que obscurecem a visão.

Portanto, meu objetivo neste texto não é tratar dos efeitos da pornografia em quem consome, em quem produz, em quem é explorado e até mesmo em quem não tem nada a ver com isso. Muito material sobre isso já foi produzido e está disponível aos montes na internet (e eu recomendo fortemente que você vá atrás), mas, apenas para despertar a sua curiosidade, algumas das consequências do consumo de pornografia são disfunção erétil, voyeurismo, problemas de memória, depressão e fobia social, segundo Aender Borba em palestra. Mais do que isso, a pornografia é uma doença da alma. Como dito nessa mesma palestra: a luxúria invade a mente através dos olhos e toma o ser humano por completo, fazendo-o desejar o sexo incontrolavelmente. Minha finalidade aqui é contribuir com meus dois centavos para a consideração de um aspecto bem mais profundo da situação, das próprias raízes da pornografia.

Sadismo. Você com certeza conhece essa palavra, mas pode ser que não conheça sus origem. Marquês de Sade foi o sujeito “homenageado” com tal termo por ocasião de seus escritos considerados, por alguns, polêmicos, por outros, revolucionários e, por mim, abomináveis. Quatro nobres e quatro prostitutas vão à floresta praticar promiscuidades. O que já seria, por si, um sacrilégio, se torna ainda pior ao se saber que tais atos promíscuos não seriam praticados entre si, mas com 36 jovens que eram torturados diariamente até o ponto de serem sacrificados. Essa é a obra “Os 120 Dias de Sodoma”, do referido autor. Sádico, não?

Pornógrafo por excelência, Sade levava suas crenças às últimas consequências, ainda que estas fossem o encarceramento. Preso na bastilha por duas vezes – inclusive na ocasião de sua queda – Sade se insurgia contra tudo aquilo ligado ao cristianismo e a Deus. Para ele, tudo o que havia era a Natureza (com letra maiúscula, como escreviam os iluministas). Mesmo os crimes, para Sade, não deveriam ser considerados como tais, como expõe John Rousas Rushdoony em seu livro “A Política da Pornografia”. Sua grande negação era a existência da queda, do pecado, da quebra da lei divina. Por essa razão, o mito do bom selvagem lhe era tão caro, bem como aos revolucionários, como é possível inferir da obra “Capitalismo e Progresso” de Bob Goudzwaard. Aquilo que a doutrina cristã, que guiara o crescimento da civilização europeia, considerava como efeito do pecado na natureza humana, Sade chamava de nosso estado natural e, portanto, normativo. Promiscuidade, roubo, agressão, assassinato, tudo isso não passa da Natureza humana, tudo é parte de quem o homem pode e deve ser.

Por mais absurda que possa parecer, tal ideia é fruto da coerência do pensamento de Sade. Sim, da coerência. O que Marquês de Sade fez foi levar o humanismo à suas últimas consequências. Ao se rebelar contra a soberania de Deus, revertendo seu controle e invertendo seus afetos para si mesmo, o humanista coloca o próprio homem, isto é, a si mesmo, como referência da existência. Sem um referencial transcendente, o homem se encontra entregue à sua própria natureza, tendo a si mesmo como medida e, em última instância, não se diferencia do Marquês. Mas, cá entre nós, a gente sabe que isso não é novidade, né? O primeiro casal cedeu à serpente no afã de “serem como Deus” e seu filho mais velho seguiu pelo mesmo caminho. Lameque, descendente de Caim, bradava orgulhosamente seus feitos iníquos. O que falar de Ninrode, o grande conquistador cujo título significa “nos rebelaremos”? Cam riu-se de seu pai bêbado e nu e sua descendência seguiu sua iniquidade. E os babelitas, desejosos de fazerem seus nomes famosos e alcançarem os céus, como deuses? Todos tomados por um mesmo movimento de rebelião, inversão e reversão, todos tentando fazer de si mesmos o referencial da existência.

O iluminismo, que dita, ainda, o espírito de nossa época, não passa de mais uma das infindáveis e inalcançáveis tentativas do ser humano de se tomar o lugar de Deus, como exposto por Alan Storkey em “A Christian Social Perspective”. O ideal humanista grita por liberdade sexual sem saber que, dessa maneira, se torna escravo de seus próprios desejos. A busca de uma liberdade sem propósito, ou com um pretenso propósito autocentrado, se assemelha a um homem que dá um salto mortal, enfia o próprio pé na boca e desaparece. A pornografia é filha desse pensamento. A pornografia não é a causa última de nossos males, mas uma de suas consequências. A pornografia é mais do que imagens e atos sexuais, a pornografia é fruto do desejo humano por domínio. Domínio que pode apenas se dar mediante à degradação do próximo, a sua despersonificação, mediante à desconsideração da Imagem de Deus à qual ele foi criado.

A tensão iluminista da fé no progresso aliada a um primitivismo humanista resulta em uma sociedade autocentrada, em um solipsismo prático que, ao contrário de suas premissas, vê o outro apenas como um meio. Autoconhecimento, autoimagem, autoestima, amor próprio, vivemos em um mundo onde tudo gira em torno de cada um com seu próprio umbigo e a pornografia é mais uma consequência dessa reversão. O outro perde seu rosto, seu nome, sua identidade, e se torna mais um pedaço de carne, mais um número, mais um clique. A Imagem de Deus à qual todo ser humano foi criado é desconsiderada e o próximo deixa de ser visto como uma pessoa. Como Paulo escreveu aos Romanos: “porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.”

Em suma, a pornografia, para além de todos os seus efeitos negativos, é uma consequência dos movimentos de reversão, inversão e rebelião do ser humano que, buscando tornar-se a si mesmo o referencial de todas as coisas, despersonifica o seu próximo, transformando-o em instrumento para si, como aborda Wadislau Martins Gomes em “Todo Mundo Pensa, Você Também”. A pornografia é um instrumento de domínio que funciona a partir da degradação da imagem alheia a fim de exaltar aquele que a utiliza. A pornografia é uma desconsideração da Imagem de Deus à qual todo ser humano foi criado e uma afronta direta às Suas leis. Ser um pornógrafo é vestir os óculos escuros do iluminismo que, no fim das contas, são apenas o novo modelo da grife do inferno.

Referências Bibliográficas

[1] BORBA, Aender. Conferência Fiel Jovens: Os efeitos da pornografia na alma e na mente.

[2] RUSHDOONY, John Rousas. A política da pornografia.

[3] GOUDZWAARD, Bob. Capitalismo e progresso.

[4] STORKEY, Alan. A Christian Social Perspective.

[5] GOMES, Wadislau Martins. Todo Mundo Pensa, Você Também.

Publicado Por Carlos Roberto Parra


Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3


Mais notícias e informações:  


Jornal Prédio 3 – JP3 é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe, observe e absorva!