Por Larissa de Matos Vinhado

  1. O primeiro debate das eleições 2020 dos EUA:

Terça-feira (29) houve o primeiro debate das eleições 2020: Donald Trump x Joe Biden e, provavelmente, o último, tendo em vista que, Trump anunciou na sexta-feira (02) que testou positivo para o coronavírus. 

A menos de três meses do pleito, Joe Biden desponta como favorito. O impacto de uma eventual mudança de poder no país afetaria o Brasil, atualmente, muito próximo de Donald Trump.

Sem dúvidas, esse debate foi uma das maiores oportunidades de Trump se alavancar nas eleições, a julgar pelo fato de que não estava bem colocado nas pesquisas. Embora tenha repercutido mal em diversos lugares e, tenha sido de certa forma uma oportunidade perdida por seus temperamentos explosivos, Trump continua tendo ao seu lado uma das coisas mais importantes segundo seus eleitores: uma boa economia em seu governo. 

Na minha concepção, ambos candidatos reagiram mal, de um lado Biden com um péssimo desempenho, dizendo muitas coisas que, definitivamente, não eram verdadeiras, repetidas vezes. Do outro lado, Trump estava tão ocupado interrompendo Biden que foi incapaz de ter vencido o debate com êxito. Resumindo, ninguém conseguia falar nada. Ninguém sabia o que estava acontecendo, nem o próprio mediador do debate. Confesso que ao assistir o debate não conseguia entender o que ocorria, foi como assistir à uma luta de boxe, em que os golpes são tão rápidos que, tornam-se, praticamente, impossíveis de serem acompanhados, só era visível inúmeros atropelamentos de palavras e frases sem coerência, nenhum pensamento era concluído de fato, nada havia fundamento ou aprofundamento, apenas insultos.

2. Análise do debate presidencial dos EUA:

Reitero o fato que mais prejudicou Trump no debate: as interrupções constantes ao seu adversário e ao moderador Chris Wallace, da Fox News, raramente, permitindo que eles pronunciassem frases sem gritar, reclamando e importunando tanto Biden quanto Wallace.

Uma análise realizada pela Fox News descobriu que Trump interrompeu Biden 71 vezes e Wallace 74 vezes, em um total de 145 vezes. Enquanto, Biden interrompeu Trump 49 vezes e Wallace 18 vezes em um total de 67 vezes, de acordo com a pesquisa.

O que eu percebo é que o confronto que durou 94 minutos foi inútil, pois apresentou ataques de ambos os candidatos em termos, totalmente, pessoais. Apenas descobrimos fatos que já sabíamos:  Trump, como sempre, não seguindo as regras que, aparentemente, se aplicam a todos menos a ele, transformando, dessa forma, o debate em uma competição de quem pode gritar mais alto e ser o mais insultuoso e grosseiro. Enquanto, Biden, afundava-se, cada vez mais, em contradições. 

Entretanto, não consigo me desvencilhar da ideia de que Biden é um impostor. Já é um fato que ele diz ser alguém que, definitivamente, não é, um exemplo nítido disso ocorreu no próprio debate ao entregar uma performance sem fundamento repleta de declarações falsas e imorais. No entanto, esses pontos acabam sendo deixados de lado pela população por conta do temperamento agressivo de Trump que conseguiu direcionar toda a atenção a ele, mais uma vez.

Contudo, acredito que Trump conseguiria vencer as eleições só de deixar Biden se enrolar com suas mentiras se não fosse por suas explosões. Penso que para vencer, ele precisaria sair do foco das manchetes e, permitir que Joe Biden diga coisas sem fundamento e se perca sozinho. 

Tenho minhas especulações quanto às estratégias do Trump, penso que talvez a tentativa de agir como valentão e levantar a voz, exaustivamente, seja uma maneira de intimidar Biden e deixá-lo em silêncio. Entretanto, nos primeiros 15 minutos, Trump conseguiu encaixotar bem seu adversário em relação às políticas públicas de saúde estabelecidas no governo do Obama, ou seja, talvez a estratégia de Trump fosse desestabilizar Biden diante de suas falsas proposições apoiadas ironicamente por ele, já que o candidato está inserido no partido social-democrata, o que de fato seria uma boa jogada, não fosse pelas atitudes extravagantes de Trump que o abalam gravemente quando algo não sai como planejado e, acaba por fazê-lo “perder a linha” e ser o arrogante que todos conhecem.

Dado o quão polarizados os EUA estão agora, é duvidoso que muitos eleitores mudassem de ideia sobre quem apoiar, não só pelo fracasso do debate, bem como por já terem suas convicções formadas perante cada candidato.

Por essas razões, possivelmente, haverá mudanças no formato do debate, por exemplo, dar ao moderador do debate a capacidade de desligar os microfones dos candidatos que falam fora de hora. Tendo em vista que, suas constantes interrupções impossibilitaram os candidatos de discutirem qualquer assunto em profundidade, o que significa que o povo americano não aprendeu nada de valor com o encontro, apenas ganharam mais evidências de fatos que já estavam preestabelecidos.

3. Quem venceu o debate?

É importante ressaltar que, desempenhos em debates, muitas vezes, não se traduzem em vitória ou derrota no dia da votação. Por exemplo: Barack Obama teve um desempenho péssimo no primeiro debate de 2008 contra John McCain, enquanto Hillary Clinton foi considerada a vencedora do primeiro debate contra Trump em 2016.

Por mais difícil que seja abalar Trump, Biden o deixou fora de linha inúmeras vezes, isso é nítido só pela fala exaltada do atual presidente dos EUA, o fato do Trump saber que está para trás nas pesquisas o desestabiliza bastante. 

Entretanto, Biden falhou em jogar dois pontos altos no debate que acabaria com Trump:

  1. Desperdiçou a oportunidade de revelar que Trump pagou apenas US $ 750 em impostos de renda federais em 2016 e 2017;
  2. Esqueceu de evidenciar o tratamento irrelevante de Trump com o meio ambiente.

Caso Biden tivesse levantado essas evidências, provavelmente, teria um índice ainda maior nas pesquisas e faria com que Trump perdesse um número relevante de eleitores. 

Todavia, o principal ponto que me leva a acreditar que fez Trump ganhar o debate foi o fato de ter conseguido agradar seus eleitores do início ao fim, para o presidente, o objetivo era proteger sua base e disparar seus apoiadores. Ele foi potente nas questões que seus apoiadores radicais consideram fundamentais, como as nomeações para a Suprema Corte e reforçando as opiniões dos conservadores de que as tropas federais são necessárias para reprimir os protestos, como no momento em que ele revidou a fala de Biden sobre repreender os policiais diante da extrema violência, relembrando o nome de Breonna Taylor. Naquela hora, Biden, com certeza, ganhou o apoio de inúmeros apoiadores do movimento BLM (Black Lives Matters), entretanto Trump não saiu por baixo ao afirmar com convicção os absurdos da depredação proferidas pelos apoiadores do movimento nos períodos da morte de George Floyd e Breonna Taylor, ganhando, dessa forma, um apoio ainda maior de seus eleitores conservadores. Ele também retratou Biden como um prisioneiro da esquerda e, tentou com isso, acabar com a imagem do candidato social democrata. Trump mostra que sua estratégia deu certo quando ele fala, em outras palavras, “pronto, você acabou de perder a esquerda”, pois Biden evidencia inúmeras vezes que não concorda com várias políticas públicas que tanto se esconde por trás do partido social-democrata, como expandir o programa Obamacare. 

Além disso, Trump foi o melhor na economia, ele continuou insistindo que era um melhor administrador da economia do que Biden, criticando o que chamou de uma recuperação fraca durante a presidência de Obama-Biden e alegando que Biden quer fechar a economia novamente. 

Nesse ponto, encontra-se uma incoerência muito grande, Biden critica Trump por ter fechado a economia no início da quarentena, incessantemente, por destruir inúmeros empregos, entretanto Biden afirma que quando eleito fechará a economia se preciso for. Mostrando, mais uma vez, que Biden atira para onde é necessário e, não para onde se encontram suas verdadeiras convicções.

Biden era muito controlado, programado e às vezes disciplinado, mas sempre muito ansioso para seguir suas notas programadas, enquanto Trump se enfurecia do outro lado do confronto. De fato, Biden teve alguns bons momentos, mas não acredito que tenham sido o suficiente para vencer.

Trump e Biden se enfrentariam novamente em 15 de outubro, com um debate final em 22 de outubro. Entretanto, não é possível saber se isso ocorrerá devido ao fato do vírus ter atingido Trump. Biden ainda está liderando as pesquisas, mas ele claramente tem muito trabalho a fazer antes de declarar vitória nos debates que virão.

4. Como a eleição dos EUA afetará o Brasil?

Um dos fatores que mais pode pesar para o Brasil, segundo a CNN, caso Biden saia vitorioso, é a questão ambiental. A imagem do país no exterior ainda está muito abalada por fatores como queimadas da Amazônia e, agora recentemente com as queimadas no Pantanal. Não é por acaso que investidores cobram uma resposta quanto à questão ambiental, pois interfere diretamente no âmbito dos negócios. Questão essa muito negligenciada pelos atuais líderes dos EUA e do Brasil, sendo necessário, dessa forma, mudanças por parte do governo.

Até mesmo com uma vitória de Trump, ambos países precisarão redirecionar a questão internamente dentro dos governos. Diversas lideranças do mundo inteiro estão insistindo na sustentabilidade.  E, tanto Bolsonaro, como Trump, são candidatos que, certamente, não têm essa preocupação como pauta principal.

Outro ponto que poderá ser afetado, é para os que têm têm dinheiro na bolsa de valores, esses deveriam ter a atenção redobrada quanto à eleição nos EUA, que acaba por interferir direta e indiretamente no Brasil. O que preocupa a maioria dos investidores é que a reeleição de Trump está mais arriscada que nunca e, depois do debate, não teve grandes mudanças quanto a à opinião pública. Tendo em vista que, os EUA se encontram bastantes polarizados.

Por Biden ser mais realista e não curvar para o lado populista como age Trump, a guerra comercial com a China pode ser enfraquecida, explica a CNN. Apesar de muitas nações pedirem por essa redução de tensão, o fim dessa nova “guerra fria” seria negativo para um dos setores mais importantes para o Brasil: o agronegócio.

“As empresas exportadoras em geral poderiam sofrer fortes mudanças. Afinal, uma reaproximação entre EUA e China pode fazer com que os chineses passem, novamente, a comprar commodities como soja e carne dos americanos e que, todo comércio atual, seja alterado.”

Enfim, inúmeros motivos evidenciam a importância do conhecimento da população brasileira sobre as eleições dos EUA. Fato é que as eleições dos EUA influenciam direta e indiretamente o mundo inteiro. Sinceramente, até mais do que eleições nacionais. Os EUA, definitivamente, têm o potencial de transformar o mundo de diversas maneiras.

REFERÊNCIAS:
[1] LOPES, Rodrigo. Como as eleições nos EUA podem impactar o Brasil sob Bolsonaro, 14 de agosto de 2020 às 14:02. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2020/08/como-as-eleicoes-nos-eua-podem-impactar-o-brasil-sob-bolsonaro-ckduaqufg002s013gredwfuiy.html 

[2] JANKAVSKI, André. Como a eleição americana pode afetar os investidores brasileiros?, 03 de agosto de 2020 às 00:06. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/08/03/como-a-eleicao-americana-pode-afetar-os-investidores-brasileiros

Publicado por Larissa de Matos Vinhado


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