Por Matheus Sellito

A quietude do oceano só era interrompida pelo barulho surdo das ondas ao dar de encontro com as embarcações, ao longo de quilômetros de espuma, sal e lágrimas de baleia. No meio do manto cerúleo que encobria a Terra, conservando o seu pudor do olhar do Astro-Rei, uma nau gigantesca estava ancorada. Sobre ela, brindava copos de champanhe um casal bem vestido, com roupas de linho e chapéus de oficialato. A música que começou a sair do quartinho da popa era ensurdecedora, uma bossa nova all’ascensore que punha os dois tipos a dançar sem derrubar nem sequer uma gota do espumante.

Ao sopé da nau, mal se via a superfície de uma jangada de tão cheia que estava de figuras mirradas, meio vestidas por trapos velhos e compartilhando, em latas, o pouco de água destilada que tinham. A jangada balançava junto o ritmo despreocupado da bossa lá́ de cima, que derramava as sobras da doce melodia nas orelhas secas dos náufragos.

Curiosamente, a cena se via a cada espaço daquela imensidão. Mudavam-se as embarcações, trocavam-se os discos, mas permanecia intocada a desproporção entre navios colossais e os minúsculos botes improvisados.

O homem bem arrojado se debruçou sobre o parapeito de metal, chamou a mulher com um aceno leve de cabeça e voltou a fitar o velho que o encarava lá́ de baixo. Torceu o nariz, tomou outro gole do champanhe e gritou:

– Ô meu caríssimo, chegou a ouvir que a próxima onda está vindo? Dizem que será tão ruim quanto a primeira, mas, pra dizer a verdade, duvido muito. Não vejo a hora disso tudo passar…, – e sorriu amarelo o capitão – acho que não piso em terra-firme há cinco meses!

Lá embaixo, nada disse o velho, que agora segurava uma menininha igualmente maltrapilha em seus braços.

Depois de arrastar o seu vestido longo até a borda da nau, a mulher se compadeceu com o seu parceiro e o tentou ajudar:

– E quem é esse anjinho que o senhor tem nos braços, hein? Olha só, que coisa maravilhosa! – dizia, enquanto os cabelos louros jorravam abaixo, em madeixas, como se fossem alcançar a própria jangada – um doce para o outro!

E jogou um saquinho de caramelos, porém, errando feio o alvo por alguns metros. A menina nem se mexeu para tentar agarrar a guloseima.

O casal se entreolhou enfastiado, e sussurrou:

– Que pessoalzinho mal-humorado esse aí, não é, querida?

– Viu a cara da pirralha? Lá se foi um saco de vienenses por nada…

Então, o homem voltou a se debruçar em direção ao barquinho, onde agora o velho preparava uma vareta longa, trespassada por um fio transparente em cuja ponta pendia um espeto de latão. Uma vara de pescar. O velho balançou a geringonça e sacou a linha, fazendo a isca chapinhar na água.

– Ô meu camarada, outra manhã de pescaria? Você é incansável! Veja só, querida, isso sim é um verdadeiro homem de família – arregalava os olhos, simulando uma admiração sincera – mas, venha cá, sabe que precisa descansar um pouco, de vez em quando, não sabe? Tire umas horas, abra um bom brandy e fume um cigarro, meu velho, senão você não aguenta!

O único movimento do velho, contudo, foi para puxar a linha tesa, arrancando do mar um peixe gordo que caiu direto no meio da jangada, bem na frente de uma mulher esquálida que jazia preparada, empunhando um cutelo em uma das mãos. O peixe desceu e a lâmina também, decepando-o. A pele queimada pelo Sol se misturava com as escamas, tecendo uma cena canibalesca da mulher-peixe a descamar o animal.

Lá em cima, a dama estava esbaforida. Aquilo era inacreditável, cruel até, pensava, enquanto abria a bolsa de colo que sempre carregava consigo. Tirou de lá uma sombrinha e gritou:

– Querida, não fique assim debaixo desse Sol, não, está louca?! Isso definitivamente não favorece a sua pele – estalou a língua – sorte a sua que tenho uma reserva!

Pegou a coisinha amarela e, desta vez, acertou em cheio a jangada. A mulher com os restos de peixe em seus braços e colo se assustou com a coisa que subitamente bateu em sua coxa. Pegou- a, examinou a sombrinha e agradeceu à sua benfeitora com um sorriso rápido.

A satisfação da mulher de vestido era enorme. Afinal, não há coisa alguma melhor do que ajudar ao próximo e…,

A sombrinha foi reduzida a pedaços. A estrutura de metal, despida do tecido amarelo, servia como uma espécie de cabide, no qual a mulher-peixe dispôs os filés do pescado para secarem. A benfazeja marola da filantropia se amainou, e as lágrimas se acumularam nos olhos da mulher, rolando pelas maçãs altas de seu rosto e mergulhando no oceano, prontas para se misturarem com as suas irmãs-cetáceas.

– Ô seu ingrato! – explodiu o homem, que mantinha em seus braços a mulher em frangalhos – não há por que agir assim! Tudo o que ela quis fazer foi os ajudar um pouco! Não pense que essa situação só é ruim para você, ah não! Estamos todos no mesmo oceano, esqueceu-se disso?!

O homem cuspiu abaixo, virou-se e desapareceu parapeito adentro. Pela última vez naquele dia, a bossa nova aumentou de volume e os passos rápidos de dança substituíram em poucos segundos os soluços da mulher.

Na linha que divisava o céu e a Terra, contudo, um paredão azul-escuro crescia lentamente, fazendo o mesmo barulho devastador que Júpiter ouvira quando o tempo mastigou a sua família.

De fato, a segunda onda veio.

Na manhã seguinte, os corpos azulados se acumulavam em volta da nau, ainda ancorada. No parapeito, meia dúzia de velas estava acesa para louvar aos mortos e uma famosa missa fúnebre tocava da popa. Os passos de dança acompanhavam lentamente o barulho surdo das ondas, que levavam os corpos de encontro com a embarcação.

O azul tomava o horizonte de todos; de alguns, ainda tomava um pouco mais.


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Publicado por Rafael Almeida


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