Por Ana Clara P.S.M.O.

Branco Sai, Preto Fica é um filme de 2014 com a direção e roteiro de Adirley Queirós. Baseado em um acontecimento real do ano de 1986, o longa tem como tema principal a descarada violência policial movida pelo racismo. A história  gira em torno da história de 2 homens negros, representados por Marquim da Tropa e Shockito, que faziam parte de um grupo de dança na juventude e costumavam frequentar um baile de black music em Brasília. A frase “sem provas não há passado”, fala de uma das personagens, resume bem o tom e tema da obra, nada mais, nada menos do que uma grande, clara e muito bem construída crítica social.

O diferencial do filme está também em seu formato, uma mistura inovadora de ficção científica e documentário. A originalidade da obra foi reconhecida ao ser indicada ao Grande Prêmio Brasileiro na categoria de Melhor Roteiro Original, além de ter ganhado a Mostra Competitiva da 47ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em diversas categorias e o Prêmio Saruê do Correio Braziliense.

Acompanhamos o dia a dia dos personagens enquanto relembram a noite em que policiais invadiram o baile e os feriram gravemente aos tiros, deixando um com uma perna amputada e outro paralisado da cintura para baixo. O próprio título do longa metragem é uma referência à ordem dada pelos policiais no momento da invasão, literalmente dividindo a população que estava no local a partir do preconceito. Em meio às lembranças e ao cotidiano lidando com as consequências físicas da brutalidade sofrida, há ainda o plot do personagem vivido por Dilmar Durães, um viajante vindo do futuro cuja missão é investigar o crime ocorrido naquela noite e provar a culpa do Estado Brasileiro. 

Conforme dito anteriormente, o filme em si é uma grande crítica social, mas algumas questões merecem destaque. Para além do racismo estrutural e atrocidades cometidas pela polícia contra a população negra, é interessante observar também a existência da figura do viajante no tempo, ou seja, alguém de fora do contexto social do Brasil que realiza uma investigação que deveria ter sido feita pelo próprio governo. 

Em um país que não reconhece a própria história e os próprios defeitos, o Estado brasileiro realmente tende a não se responsabilizar, colecionando um histórico de dependência de entidades e recomendações internacionais para efetivamente agir. Como  exemplos, temos o caso da própria Maria da Penha, bem como as recomendações da Corte Interamericana de Direitos Humanos a respeito do presídio de Bangu e do Complexo Prisional do Curado em Recife.

Os traços de ficção científica são sutis e estão presentes em alguns elementos narrativos, como a construção de uma bomba cultural para destruir a capital e o passaporte para entrar em Brasília. Este último chama atenção, uma vez que o filme se passa em Ceilândia, uma cidade-satélite do Distrito Federal, cidade natal do próprio diretor. Cumpre mencionar aqui que cidades-satélites são na verdade o nome antigo do que hoje são conhecidas como regiões administrativas localizadas ao redor de Brasília, sendo que essa alteração de nomenclatura em si foi considerada por muitos moradores como uma forma de apagamento da história e das origens dessas cidades. 

A cidade já foi ambientação produções de Adirley Queirós, como Rap, o canto da Ceilândia e A cidade é uma só?, e é sempre utilizada como forma de denúncia sobre a precariedade dessas regiões, que são negligenciadas pelo poder público e carecem de investimento em setores básicos.  

Com isso em mente, é possível interpretar o passaporte para Brasília presente no filme como outra crítica social, no sentido de que apenas determinadas pessoas previamente selecionadas têm acesso à capital e toda sua qualidade de vida e tecnologia. Apesar do tom de ficção científica da narrativa, essa situação não deixa de ser uma metáfora para a situação real do Brasil em termos da gritante diferença entre classes sociais. Ceilândia, inclusive, foi fundada em 1971 com o objetivo de erradicar as favelas existentes na área urbana da capital.

Em suma, Branco Sai, Preto Fica é uma história sobre a realidade social de Brasília, mas que pode ser facilmente traduzida para o país todo, como as consequências da violência policial contra a população negra e a responsabilidade do Estado Brasileiro perante as atrocidades cometidas diariamente até hoje, reflexo do racismo estrutural dessa instituição e da naturalização dessa violência. Seis anos após seu lançamento, o filme é mais atual do que nunca, especialmente considerando os recentes acontecimentos nos Estados Unidos e Brasil em 2020.

Para além da ficção, o filme conecta o espectador com a realidade violenta e injusta do país, pautada no preconceito de toda uma entidade que atua na contramão de seu próprio dever, qual seja o de promover a proteção e segurança de todos os cidadãos.

Promovendo uma reflexão crítica do presente através de uma obra futurística sobre um acontecimento passado, Queirós convida o espectador a conhecer a fundo esse lado ignorado do próprio país, com o claro objetivo de incomodar ao cutucar muitas feridas.

A ficção científica brasileira está disponível na Netflix.

Publicado por Ana Clara P.S.M.O.


Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio

Facebook: fb.com/jornalpredio3


Mais notícias e informações:


Jornal Prédio 3 – JP3 é o periódico on-line dos alunos e antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito do Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe!