Por Nicole Vilas Boas

Tempos de pandemia. A orientação é clara: fique em casa. Escolas e creches fechadas, crianças, pais e avós em casa. As coisas continuam iguais para os trabalhadores autônomos, pois, o Governo disponibilizara para eles a quantia de R$600,00 que lhe será debitada durante quatro meses. Somente duas pessoas por casa podem receber tal auxílio, mas não há problemas, pois nos mercados os valores dos produtos caem, logo, com até R$1.200,00 é mais do que possível comprar alimento suficiente para o mês. O auxílio cai rápido na conta, não há complicações, portanto, as contas são pagas em dia. Os encargos e tributos embutidos nas contas de água e luz diminuem. A vida segue normalmente. Agora, tranquilas em casa, saindo apenas para fazer o essencial, cabe às famílias brasileiras apenas torcerem para que esse vírus vá embora.

2/06/2020. As creches estão fechadas, as crianças ficam com os avós – quando ainda os possuem – os quais, pertencentes ao grupo de risco, têm contato com os filhos quando chegam do trabalho. Miguel, de 9 anos, vai para o trabalho com a mãe, Mirtes, pois a avó precisara sair. Mirtes é trabalhadora doméstica. Os serviços essenciais já haviam sido definidos, mas para Sarí, patroa, o essencial era relativo. Enquanto fazia suas unhas, falou para Mirtes ir passear com seu cachorro. Miguel, sem sua mãe, quis procura-la e Sarí, por sua vez, o deixou entrar sozinho no elevador do prédio. A tragédia ocorrera.

Duas histórias completamente diferentes. Uma fictícia e outra real: já se sabe qual é qual. Em entrevista ao programa “Fantástico”, Sarí relata: “Vivo no psiquiatra, preciso de remédio para dormir. As pessoas me julgaram antes mesmo de a Justiça me julgar, não tive nem tempo de me defender. Hoje eu não posso sair na rua, tenho medo de ser linchada. Não posso correr, não posso fazer nada. Eu, hoje, estou numa prisão dentro da minha casa (…) Tenho meus filhos, que dependem muito de mim. Sei que tenho que estar firme, sei que tenho que estar aqui. Tenho que criar meus filhos, meus filhos têm que ter a mãe…”

De um lado, portanto, o que resta é uma mãe sem seu filho, seu emprego e enfrentando o luto em sua comunidade, sem nenhuma garantia quanto ao amanhã. Do outro lado, tem-se alguém triste pois seu ato de irresponsabilidade a trancara em seu apartamento de luxo e a impedira de fazer suas corridas. Mas ela necessita ser forte, pois seus filhos, vivos e com saúde, necessitam dela.

“Uma epidemia diz mais sobre nós mesmos do que sobre a própria doença”, diz a pesquisadora Denise Pimenta, doutora em Antropologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Seja pelo aspecto econômico ou da saúde, os trabalhadores informais, representantes de quase metade da força produtiva do país, são os que mais sofrem. Para alguns, quarentena. Para outros, exposição. Enquanto se é pregado a importância de ficar em casa e manter uma boa higiene, moradores do Complexo do Alemão, por exemplo, estão sem abastecimento de água. Não conseguem ao menos lavar as mãos. Essa é a realidade.

E assim segue o cenário social da pandemia.

Postado por Rafael Almeida


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