Vivemos em uma época em que parecemos caminhar olhando fixamente pelo retrovisor. Se você olhar para as principais produções de Hollywood, para os sucessos atuais, ou até mesmo para as tendências de moda, perceberá um padrão claro: o presente está obcecado pelo passado. É nesse cenário de ressaca cultural que a expectativa em torno do filme Michael (2026) ganha contornos que vão muito além de uma simples homenagem ao Rei do Pop. O longa-metragem não é só um evento cinematográfico, é o sintoma definitivo de uma sociedade que transformou a nostalgia em seu principal refúgio, operando o que o teórico Simon Reynolds chama de “Retromania”, ou seja, a tendência da cultura pop de se voltar obsessivamente para o próprio passado.
É fácil entender o apelo comercial de uma cinebiografia como essa. Michael Jackson moldou a cultura global, quebrou barreiras e entregou uma discografia que ainda dita o ritmo dos dias de hoje. Levar sua genialidade e as complexidades de sua vida para as telas é garantia de salas cheias. Entretanto, o fenômeno que cerca o filme revela algo mais profundo sobre o público atual: uma fome insaciável pelo que já nos é familiar. Em um mundo hiperconectado, volátil e exaustivo, o sociólogo Zygmunt Bauman aponta que a sociedade, com medo do futuro, busca uma “Retrotopia”, elegendo o passado como um território seguro onde já conhecemos as regras, a evolução e, principalmente, o final da história.
Essa busca por conforto não é exclusividade dos fãs de música. O cinema contemporâneo descobriu que a nostalgia é a mercadoria mais valiosa do mercado. Diante da incerteza do novo, o público prefere o conhecido, logo, assistir à trajetória de Michael nas telas funciona como uma máquina do tempo coletiva, um passaporte para uma era em que a música parecia ter mais peso, os ídolos eram intocáveis e o mundo parecia, de certa forma, mais simples, mesmo que essa simplicidade seja apenas uma ilusão romântica da nossa memória.
O grande paradoxo desse cenário é que, ao buscarmos refúgio na nostalgia, corremos o risco de estagnar o presente. Quando a indústria cultural foca tanta energia em reviver o século passado, sobra menos espaço para que novos artistas construam seus próprios legados. Dessa forma, fica claro que estamos tão presos ao moonwalk de ontem que esquecemos de caminhar em direção ao amanhã.
O filme sobre Michael Jackson certamente é um espetáculo visual e musical, capaz de emocionar gerações que viveram o auge do artista e jovens que o descobriram posteriormente. Mas, ao sairmos do cinema com os refrões clássicos ecoando na mente, a verdadeira provocação que fica não está na tela, mas em nós mesmos. Até quando usamos o passado como escudo para não enfrentar as complexidades do presente? A nostalgia é um bom lugar para visitar, mas um território perigoso para se habitar, já que, embora ofereça conforto e familiaridade com o passado, pode facilmente dificultar o deslocamento dos indivíduos em direção ao presente e ao futuro.
Escrito por Melissa Paiva
Referências:
ADOROCINEMA. Críticas de filmes. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-279306/criticas-adorocinema/. Acesso em: 18 maio 2026.
BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Cambridge: Polity Press, 2017.
GKPB. Ascensão da nostalgia: por que estamos viciados no passado? Disponível em: https://gkpb.com.br/186877/ascensao-da-nostalgia/. Acesso em: 18 maio 2026.
REYNOLDS, Simon. Retromania: pop culture’s addiction to its own past. London: Faber & Faber, 2011.
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