Movimento Red Pill: quando a metáfora do despertar vira discurso de dominação

Já assistiu um dos clássicos do cinema chamado Matrix? Acho difícil que você ao menos nunca tenha ouvido falar dele. O filme foi dirigido por duas mulheres: as irmãs Wachowski, mesmo sendo de 1999, é super atual e trouxe ao mundo uma das metáforas mais marcantes da cultura contemporânea: a pílula vermelha – sendo o termo em inglês Red Pill. No filme, tomar a red pill significa abandonar a ilusão confortável para começar a enxergar a realidade como ela é, independentemente de qualquer coisa. Originalmente, essa metáfora não tratava, obviamente, da superioridade masculina, tampouco de dominação masculina afetiva em face da mulher, mas sim de despertar as pessoas para estruturas invisíveis de controle e opressão do establishment.

O denominado pensamento red pill apropriou-se do termo da metáfora criada pelo filme para denominar a disseminação nas redes sociais de uma suposta “verdade” sobre as relações entre homens e mulheres, baseando-se na ideia de que os homens estariam sendo enganados pelo feminismo e pela igualdade de gênero. Sendo a pílula vermelha, que antes era símbolo de lucidez, a ser usada como justificativa para atos e comentários misóginos e hostis contra mulheres, corroborando  comportamentos abusivos contra mulheres.

Ora, se em Matrix a pílula vermelha servia para revelar uma estrutura que aprisionava corpos e consciências, por que hoje ela tem sido usada para aprisionar meninos em uma visão tão empobrecida de masculinidade? Por que uma metáfora de libertação se converteu em linguagem de controle machista?

O novo curso sobre Pensamento Redpill dado pela renomada professora Djamila Ribeiro, recoloca essa metáfora em seu devido lugar, nos fazendo lembrar e refletir que antes de escolher a pílula vermelha, Neo escuta Trinity no filme, sendo esta uma personagem que conduz o protagonista à dúvida e às reflexões das estruturas invisíveis de controle. Dessa forma, uma leitura masculinista do filme apaga esse papel da personagem feminina, considerando que o filme mostra totalmente o contrário do que propõe o grupo misógino red pill: não há o despertar sem reconhecer mulheres como sujeito de conhecimento e resistência.

Talvez a verdadeira “primeira pílula vermelha” de Neo tenha sido ouvir Trinity, algo que o pensamento redpill contemporâneo parece recusar ao transformar mulheres em inimigas e confundir coragem intelectual com medo da igualdade.

A questão se agrava quando o discurso red pill sai do campo do cyberespaço e invade o cotidiano, quando vemos o aumento de feminicídio no país e violência doméstica. É lamentável que uma metáfora como a de Matrix tenha sido capturada e tenha tido o seu sentido alterado por discursos masculinos de ressentimento e extremismo pela internet, quando a verdadeira pílula vermelha é justamente reconhecer o patriarcado como uma estrutura histórica que pode ser transformada.

Quem sabe, algum dia, o despertar deixe de ser uma fantasia individual de superioridade e passe a ser, de fato, um projeto coletivo de liberdade.

Imagem: Senado Federal, 2026.

Escrito por Vinicius Oliveira de Almeida

REFERÊNCIAS

FERRARI, Leon. Red Pill: o que ‘coaches’ de masculinidade, como ‘Calvo do Campari’, têm a ver com machismo? Estadão, 12 mar. 2023. Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/red-pill-o-que-coaches-de-masculinidade-como-calvo-do-campari-tem-a-ver-com-machismo/. Acesso em: 23 maio 2026.

MATRIX. Direção: Lana Wachowski e Lilly Wachowski. Produção: Joel Silver. Estados Unidos; Austrália: Warner Bros., 1999. 1 filme (136 min), son., color.

RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

SENADO FEDERAL. Feminicídios crescem 4,7% em 2025; pequenas cidades têm maiores taxas. Brasília, DF: Senado Federal, 5 mar. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/noticias/feminicidios-crescem-4-7-em-2025-pequenas-cidades-tem-maiores-taxas.


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