Em diferentes momentos da vida, surge a sensação de não pertencer, de não ser plenamente compreendido ou até de se tornar invisível diante dos outros. Em meio rotina e constantes cobranças, muitas vezes as pessoas passam a apenas pelo que fazem, e não por quem são. Embora pareça uma experiência individual, esse sentimento revela aspectos importantes sobre a forma como as relações humanas se estruturam e sobre os critérios pelos quais se atribui valor às pessoas. É justamente esse incômodo que algumas obras conseguem captar e expressar de maneira marcante.
Indicar a leitura de “A Metamorfose”, de Franz Kafka, publicada originalmente em 1915, é relevante por contribuir para o desenvolvimento de um olhar mais crítico e humanizado sobre a forma como o indivíduo é tratado dentro da sociedade. Embora seja uma obra literária, seu conteúdo dialoga diretamente com temas recorrentes na formação jurídica, como a dignidade da pessoa humana e as relações sociais.
A narrativa é simples, mas conduz a uma reflexão profunda: Gregor Samsa, um trabalhador comum, acorda certo dia um inseto. omo descreve Franz Kafka, “ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. A partir desse acontecimento acompanhamos não apenas sua dificuldade física, mas principalmente a mudança por sua própria família. Dessa forma, o que torna a obra relevante não é a metamorfose em si, mas a deterioração das relações humanas quando o indivíduo deixa de ser considerado “útil”.
Esse processo se evidencia ao longo da narrativa quando Gregor, antes responsável pelo sustento da casa, passa a ser visto como um peso. Em determinado momento, sua própria família demonstra rejeição explícita, tratando-o como um incômodo que deve ser afastado. A perda de sua função econômica faz com que sua condição humana seja ignorada, reforçando a ideia de que seu valor estava condicionado à sua utilidade.
Sob o ponto de vista filosófico, é possível compreender algumas ideias centrais presentes na obra. está a noção de dignidade, frequentemente associada ao pensamento de Immanuel Kant, segundo o qual o ser humano deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo, e nunca apenas como um meio. Em contradição o livro, onde ocorre o oposto: Gregor só é valorizado enquanto sustenta a família.
Além disso, a obra dialoga com a ideia de alienação, ou seja, a perda de conexão do indivíduo consigo mesmo, quanto aos outros. Antes mesmo de sua transformação em inseto, Gregor já vivia submetido ao trabalho, além da utilização de sua vida em função das necessidades econômicas familiares, como evidencia ao afirmar que “se não fosse pelos meus pais, já teria pedido demissão há muito tempo”. A metamorfose apenas explicita essa condição, revelando a perda de humanidade em um sistema que reduz o indivíduo a um meio. Nesse contexto, ele deixa de ser reconhecido como sujeito de direitos, quando não atende mais às expectativas utilitárias, sendo progressivamente isolado, negligenciado e, por fim, descartado.
Em síntese, A Metamorfose permanece atual ao demonstrar que a desumanização não ocorre apenas em grandes estruturas, mas também nas relações cotidianas. A obra de Kafka, nesse sentido, constitui leitura essencial para a formação crítica ao estimular uma compreensão mais sensível acerca das relações humanas e suas formas de exclusão.
Escrito por Giullia Savazo
REFERÊNCIAS
KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
OESTE GERAL. Immanuel Kant, filósofo: “Trate sempre os outros como um fim em si mesmos e nunca meramente como um meio”. Revista Oeste, 12 abr. 2026. Disponível em: (revistaoeste.com/oestegeral/2026/04/12/immanuel-kant-filosofo-trate-sempre-os-outros-co mo-um-fim-em-si-mesmos-e-nunca-meramente-como-um-meio/). Acesso em: 6 maio 2026.
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