De R$ 0,50 em 2002 a R$ 7,00 em 2026, o pacotinho de figurinhas subiu mais de 1.300% em pouco mais de duas décadas — e a conta para completar o álbum pode ultrapassar R$ 7 mil
Era uma tradição simples. Um envelope rasgado no caminho de volta da escola, cinco figurinhas escorregando para a mão, a esperança de sair dali com Ronaldo Fenômeno ou Ronaldinho Gaúcho. Em 2002, o pacotinho custava R$ 0,50. Hoje, em 2026, o mesmo ritual custa R$ 7,00 e o álbum completo pode valer mais do que um mês de salário mínimo. O que era um passatempo de criança tornou-se, nas últimas décadas, um exemplo didático de como a inflação corrói devagar, e às vezes nem tão devagar, os pequenos prazeres do cotidiano.
A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá, é descrita pela própria FIFA como a edição mais cara da história. O álbum da Panini chegou às bancas com 980 figurinhas, o maior volume já registrado e preços escalonados: a versão simples sai por R$ 24,90; a capa dura chega a R$ 79,90; e o box com 40 pacotes está sendo vendido por R$ 359,90. O pacotinho unitário, com sete cromos, custa R$ 7,00. Nas edições anteriores, cada envelope trazia cinco figurinhas. Desta vez, a Panini aumentou a quantidade por pacote, mas também aumentou proporcionalmente o preço e o número total de cromos cresceu tanto que o esforço para completar o álbum ficou ainda maior. Completar a coleção pode custar entre R$ 1.000 e R$ 7.000, dependendo da sorte com repetidas e da habilidade nas trocas. Uma geração inteira que cresceu gastando alguns reais por semana para montar seu álbum hoje se depara com um produto que consome orçamento de eletrodoméstico.
Para entender o tamanho do salto, basta percorrer a linha do tempo. Em 2002, no ano do pentacampeonato, o pacote de cinco figurinhas custava R$ 0,50. Corrigido pela inflação até hoje, esse valor equivaleria a aproximadamente R$ 1,74 o que significa que o preço real atual, de R$ 7,00 por pacote com sete cromos, supera em muito a variação inflacionária do período. Em 2006, na Copa da Alemanha, o pacote subiu para R$ 0,60. Na África do Sul, em 2010, passou a R$ 0,75. No Brasil, em 2014, chegou a R$ 1,00. Em 2018, na Rússia, dobrou para R$ 2,00. Em 2022, no Catar, voltou a dobrar: R$ 4,00 por cinco figurinhas. E em 2026, o novo patamar é de R$ 7,00 por sete cromos, uma alta de 75% sobre o ciclo anterior, descontado o aumento no número de figurinhas por envelope. Em números absolutos, o pacotinho custa 14 vezes mais em 2026 do que em 2002. A inflação oficial acumulada no mesmo período, medida pelo IPCA, foi de pouco mais de 200%. Ou seja, o preço do pacotinho cresceu cerca de seis vezes mais rápido do que a inflação geral do país. Mesmo considerando que os pacotes passaram de cinco para sete figurinhas entre 2022 e 2026, o preço por cromo individual saiu de R$ 0,10 em 2002, para R$ 1,00 em 2026. Dez vezes mais. Nenhum índice de custo de vida do Brasil se aproxima desse número.
A Panini justifica os aumentos com uma série de fatores: a ampliação do número de seleções participantes — nesta edição são 48 times, ante 32 nas edições anteriores — encareceu a produção pela necessidade de mais figurinhas; os custos de impressão e distribuição em escala global subiram; e a negociação com a FIFA, dona dos direitos, é renovada a cada edição com valores crescentes. Do ponto de vista comercial, a lógica também é clara: enquanto o consumidor continuar comprando, o preço continuará subindo.
Se o preço do álbum em 2026 já é motivo de reclamação, a qualidade da edição também trouxe surpresas desagradáveis. A Panini foi obrigada a anunciar um “pacote de atualização” para as figurinhas da seleção brasileira após errar na previsão dos convocados por Carlo Ancelotti. Éder Militão, Rodrygo, Estêvão, o goleiro Bento e o atacante João Pedro estão estampados no álbum, mas não estarão no Mundial. É o álbum com o maior número de erros de convocação desde 1986, quando cinco jogadores também ficaram de fora da lista final. O consumidor, portanto, pagou mais, recebeu um produto com informações imprecisas, e ainda precisará aguardar uma atualização que a empresa não detalhou com clareza sobre como funcionará. A situação é representativa de uma relação que se tornou desequilibrada. A Panini detém o monopólio dos álbuns oficiais da Copa do Mundo graças ao contrato exclusivo com a FIFA, contrato que, aliás, chegou a ser encerrado pela entidade em determinado momento antes de ser renovado, gerando especulação sobre o futuro da parceria. Sem concorrência real no segmento dos álbuns oficiais, não há pressão de mercado para conter os preços. O produto se vende pela força da nostalgia, pela cultura do colecionismo e pela febre do Mundial, independentemente do valor cobrado.
A pergunta incômoda que os dados permitem fazer é: até onde vai esse aumento? Aplicando a taxa média de crescimento do preço do pacotinho entre as últimas edições da Copa, que, descontadas as variações de número de figurinhas por envelope, corresponde a algo entre 60% e 80% de aumento real a cada quatro anos, chega-se a projeções que oscilam entre desconfortáveis e absurdas. Se o preço continuar crescendo no mesmo ritmo observado entre 2002 e 2026, aproximadamente 14% ao ano em termos nominais, um envelope de figurinhas da Copa de 2030 poderá custar entre R$ 12,00 e R$ 15,00. Para a Copa de 2034, entre R$ 20,00 e R$ 27,00. E para a Copa do Mundo de 2050, que será a décima edição a partir de 2026 — provavelmente já com 64 seleções participantes, se a tendência de expansão da FIFA continuar —, o pacotinho poderá custar entre R$ 70,00 e R$ 120,00 por envelope. O álbum básico, que hoje sai por R$ 24,90, estará na faixa de R$ 200,00 a R$ 350,00. Completar a coleção, considerando repetidas e cromos especiais, poderá custar entre R$ 50.000 e R$ 150.000, dependendo do número total de figurinhas e dos mecanismos de raridade adotados pela editora. Esses números, projetados linearmente, soam como ficção científica. Mas não diferem, em proporção, do que alguém em 2002 teria achado impossível se soubesse que o pacotinho de R$ 0,50 custaria R$ 7,00 vinte e quatro anos depois. A lógica do colecionismo premium, aliada ao monopólio da FIFA e à ausência de regulação sobre os preços do produto, aponta para uma trajetória em que o álbum da Copa deixe de ser um item popular para se tornar definitivamente um artigo de luxo acessível apenas a uma parcela da população.
Há algo de paradoxal na trajetória do álbum de figurinhas da Copa. O produto nasceu como um artefato popular, democrático na sua essência: criado em 1970 pela Panini, era acessível a crianças de diferentes classes sociais, um objeto de troca, de socialização, de pátio de escola. Décadas depois, o mesmo produto se transforma gradualmente em um item caro o suficiente para excluir justamente o público que lhe deu origem. Em 2026, a pesquisa de publicações mais vendidas no Brasil mostra o álbum da Copa como o item mais comercializado do mês de maio. O mercado ainda existe, e existe com força. Mas o perfil do comprador muda. Completar o álbum em 2026 sem recorrer a trocas ou ao mercado informal exige um investimento que poucos conseguem fazer. A cultura do envelope rasgado no caminho da escola sobrevive, mas com novos custos e novos excluídos. A Panini e a FIFA lucram com a nostalgia. O consumidor paga por ela. E enquanto a Copa do Mundo continua sendo o maior espetáculo esportivo do planeta, essa equação tende a se aprofundar a cada quatro anos, com mais figurinhas, mais versões premium, mais erros nos convocados e, invariavelmente, mais caro.
Fontes:
Pacote de figurinhas da Copa do Mundo foi de R$ 0,50 a R$ 4 em 20 anos; relembre. CNN Brasil, São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/outros-esportes/pacote-de-figurinhas-da-copa-do-mundo-foi-de-r-050-a-r-4-em-20-anos-relembre/. Acesso em: 21 mai. 2026.
Álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026: veja preços, onde comprar e lista de jogadores do Brasil. ISTOÉ Dinheiro. Disponível em: https://istoedinheiro.com.br/album-de-figurinhas-copa-do-mundo-2026. Acesso em: 21 mai. 2026.
Panini anuncia que vai atualizar álbum da Copa após “erros”. CNN Brasil / Itatiaia, 19 mai. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/panini-anuncia-que-vai-atualizar-album-da-copa-apos-erros/. Acesso em: 21 mai. 2026.
Quanto vale uma figurinha rara do álbum da Copa do Mundo 2026. NSC Total. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/quanto-vale-uma-figurinha-rara-do-album-da-copa-do-mundo-2026. Acesso em: 21 mai. 2026.
Seu álbum da Copa pode valer uma fortuna; veja quanto edições antigas estão rendendo. Times Brasil / CNBC. Disponível em: https://timesbrasil.com.br/entretenimento/esportes/veja-os-valores-de-albuns-de-figurinhas-d-edicoes-passadas/. Acesso em: 21 mai. 2026.
Álbum da Copa do Mundo 2022: quanto custa, quando lança e outras informações. Goal Brasil. Disponível em: https://www.goal.com/br/noticias/album-de-figurinhas-da-copa-do-mundo-2022-quanto-vai-custar-quando-lanca-e-outras-informacoes/. Acesso em: 21 mai. 2026.
Panini FIFA World Cup 2026™ — Página oficial. Disponível em: https://panini.com.br/colecionaveis/fifa-world-cup-2026. Acesso em: 21 mai. 2026.
Publicado por Victor Marques Delecrodi
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