A célebre frase do historiador uruguaio Gerardo Gaetano resume perfeitamente a complexa dinâmica entre o esporte mais popular do planeta e as estruturas de poder, ao afirmar que aqueles que dizem que política e futebol não se misturam, ou sabem muito, ou não sabem nada. Longe de ser apenas um jogo de noventa minutos, o futebol e, de forma máxima, a Copa do Mundo, funcionam como um espelho da sociedade e uma das ferramentas geopolíticas mais potentes da história moderna. O torneio não é apenas um megaevento esportivo, mas uma arena diplomática onde se disputam prestígio, legitimidade e a própria identidade de blocos econômicos e nações.
Desde a sua gênese, a Copa do Mundo foi percebida por líderes políticos como um instrumento cirúrgico de propaganda nacionalista. O primeiro grande exemplo ocorreu na Copa de 1934, quando o ditador Benito Mussolini utilizou o torneio sediado na Itália para projetar a força e a eficiência do regime fascista para o mundo, fazendo com que o bicampeonato da Azzurra em 1934 e 1938 fosse amplamente instrumentalizado pela máquina estatal italiana. Na América Latina, duas edições ficaram marcadas pelo uso do futebol como cortina de fumaça para a violência de Estado. No Brasil de 1970, no auge dos chamados “Anos de Chumbo” do regime militar, o governo do general Emílio Garrastazu Médici apropriou-se da mística do esquadrão tricampeão no México, fundindo jargões nacionalistas criados pelo governo à euforia da vitória na mente da população, usando o orgulho esportivo para anestesiar as tensões políticas internas. Da mesma forma, na Argentina de 1978, a junta militar liderada por Jorge Rafael Videla organizou a Copa sob forte vigilância e denúncias internacionais de violações aos direitos humanos, utilizando a conquista do título para simular uma atmosfera de paz social e apoio popular ao redor do país, enquanto opositores eram perseguidos a poucos quilômetros dos estádios.
Além do controle interno, a Copa do Mundo também serve como um termômetro das tensões internacionais. Se na Guerra Fria os Jogos Olímpicos foram o palco principal dos boicotes, a Copa do Mundo operou sob uma lógica semelhante de xadrez diplomático. Em 1938, Uruguai e Argentina boicotaram a Copa na França em protesto contra a quebra da alternância de sedes entre a Europa e a América do Sul, mas foi em 1986 que os gramados viraram palco de enfrentamento direto, quando a partida entre Argentina e Inglaterra, pelas quartas de final, foi carregada de um simbolismo militar quase palpável. Apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, o conflito armado pelo controle das ilhas no Atlântico Sul, a genial atuação de Diego Maradona e seu icônico gol da “Mão de Deus” foram recebidos pelos argentinos como uma espécie de revanche poética e soberana diante dos ingleses.
No século XXI, a relação entre futebol e política se sofisticou por meio do conceito de Soft Power, que é a capacidade de um país influenciar os outros por meio da atração cultural e de valores, em vez da força militar, passando a ditar a escolha das sedes da FIFA. Surgiu então o fenômeno contemporâneo do Sportswashing, estratégia em que Estados utilizam megaeventos esportivos para limpar ou reformular suas reputações internacionais desgastadas, distraindo a opinião pública de problemas como a falta de liberdades civis. As edições recentes ilustram essa transição perfeitamente, como a Rússia em 2018, usada para a afirmação de Vladimir Putin como líder global e demonstração de força de infraestrutura poucos anos após a anexação da Crimeia, e o Catar em 2022, que buscou a inserção do país no mapa do turismo e da diplomacia global para obter blindagem geopolítica no Oriente Médio, apesar das intensas críticas trabalhistas e humanitárias que recebeu.
Por outro lado, se o poder central tenta usar o futebol de cima para baixo, os jogadores e as torcidas muitas vezes subvertem essa lógica de baixo para cima, provando que o gramado também é espaço de protesto. Historicamente, movimentos como a Democracia Corinthiana nos anos 1980, liderada por Sócrates e Casagrande, usaram o futebol para pedir o fim da ditadura militar e a volta das eleições diretas no Brasil. Mais recentemente, na Copa do Catar, seleções europeias protestaram contra as leis do país sede utilizando braçadeiras de capitão ou cobrindo a boca na foto oficial da partida, demonstrando que os atletas têm plena consciência de seu papel como agentes políticos globais. Toda essa trajetória prova que a Copa do Mundo nunca foi apenas um jogo, mas sim uma representação em miniatura dos conflitos, alianças e ambições humanas, onde o esporte e a política tornam-se indissociáveis assim que as seleções entram em campo vestindo as cores de suas bandeiras.
Escrito por Isabella Nezzi
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Uma leitura obrigatória para quem quer entender o mundo além das quatro linhas. O futebol nunca foi, e nunca será, apenas um jogo. Parabéns pelo texto!