Com mais de 56 mil atingidos e 6 mortes, Alagoas entra na lista dos Estados atingidos pelas fortes chuvas em 2022

Por Isabella Dariano Mardegan Moschim

O drama enfrentado pelo local une-se ao de Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia, vítimas desse desastre natural.
Os estados do Nordeste estão sendo particularmente atingidos pelas fortes chuvas neste ano. Cerca de 56 municípios alagoanos estão em estado de calamidade. Em Natal choveu em 4 dias, o esperado para o mês todo. Recife, ainda em passos lentos, busca recuperar-se da catástrofe que matou mais de 120 habitantes lidando mais uma vez com o desalojamento de uma grande parte de sua população. Ademais, o risco de maiores temporais ainda não foi descartado pelos meteorologistas.

Ao todo, mais de 59 mil pessoas foram desabrigadas e 7 milhões foram atingidas. Até maio deste ano, o número de mortos devido à chuva foi de 457, superando toda a soma de 2021 segundo dados da Confederação Nacional de Municípios. Dados alarmantes quando se analisa o crescimento trágico dessa estatística a partir de 2019. O aumento das chuvas torrenciais, combinado com a falta de políticas públicas de moradia e mudanças climáticas podem ser algumas das explicações dadas ao problema. 

Aumento das chuvas em volumetria explicado do ponto de vista meteorológico

Uma das explicações para o volume das precipitações no país é o fenômeno La Ninã, que se tornou conhecido pela sociedade comum em meados de 2015, sendo um dos fatores responsáveis pela estiagem naquele ano.

O Somar Meteorologia e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê que o La Ninã terá uma das suas maiores atuações, impactando diretamente na incidência de chuvas fora de época no Nordeste. Isso aconteceu, pois o fenômeno está ocorrendo duas vezes em um período mínimo  de tempo – entre setembro de 2020 e maio de 2021 – e, logo em seguida, em outubro de 2021.

Desse modo, as condições meteorológicas são as menos favoráveis possíveis. Ao lado de outros fatores como as queimadas na Amazônia, os custos dessa tragédia aumentam.

A intensidade desses desastres naturais explicada do ponto de vista ecológico

No dia 5 de julho (terça-feira), o World Weather Attribution, Instituto de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas, com a colaboração de pesquisadores do Brasil, Holanda, França, Estados Unidos e Reino Unido, divulgou um estudo sobre o quão significativo é o impacto do aquecimento global na tragédia que ocorre no Nordeste brasileiro. A descoberta assusta: a chance de algo como o que vemos ocorrer é classificada como rara, mas foi intensificada em 20% devido às mudanças climáticas. 

Tal dado foi comprovado no mesmo ano que dados assombrosos sobre a flora brasileira são divulgados. A Amazônia possui a maior área sob alerta de desmatamento em sete anos, sendo 3.750 km², de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O desmatamento e as queimadas são comprovadamente os nossos principais emissores de gases poluentes e os números só crescem: 23% de crescimento quanto aos focos de incêndio e mais de 13.000 km² de floresta desmatada entre agosto de 2020 e julho de 2021. 

Além dos efeitos mais conhecidos, como o aumento da temperatura do planeta, Carlos Nobre, climatologista referência no estudo amazônico, explicou ao UOL que essa degradação da floresta diminui a formação dos chamados rios voadores, fenômeno que possibilita que a chuva chegue ao Sul do país. Então, além de chuvas torrenciais no Nordeste, o Sul e Sudeste sofrem com a estiagem. No final, a sociedade é desamparada por todos os lados. 

A crise humanitária vivida explicada do ponto de vista sociopolítico

O relatório da World Weather Attributio pontuou, ainda, o quanto a vulnerabilidade social elevou os números da tragédia. Alexander Koberle, pesquisador do Grantham Institute, afirmou à Revista Galileu, que, em Recife, a urbanização em áreas de risco foi um dos fatores que ocasionaram deslizamentos de terras e enchentes. 

A falta de políticas públicas voltadas a moradia e urbanização fica evidente ao entendermos que os mais atingidos pelas chuvas são aqueles que moram em encostas e zonas instáveis. O direito à moradia é um direito fundamental, explícito na Constituição Federal e cabe à União, aos estados e aos municípios promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico.

O número de atingidos esse ano deve-se, em parte, à displicência estatal, que permitiu que aquela população permanecesse em uma zona de risco, com construções inseguras e com falta de drenagem de água. Como explicitado acima, as chuvas em 2022 não são inexplicáveis e o fator humano está presente nesse desastre. 

As chuvas continuam a cair e as previsões não são animadoras: possivelmente a precipitação dará trégua em Alagoas apenas na primeira quinzena de agosto. O número de desaparecidos ainda é grande e, mais uma vez esse ano, o Nordeste luta para se reerguer. 

Referências:

“Chuvas no Nordeste causam mortes e deixam mais de 70 mil desalojados”. Publicado no Correio Braziliense, em 05 de julho de 2022. https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/07/5020268-chuvas-no-nordeste-causam-mortes-e-deixam-mais-de-70-mil-desalojados.html

“Amazônia tem 1º semestre de 2022 com maior área sob alerta de desmate em 7 anos”. Publicado no G1, em 01 de julho de 2022. https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2022/07/01/amazonia-tem-1o-semestre-de-2021-com-maior-area-sob-alerta-de-desmate-em-7-anos.ghtml

“Mudança climática aumentou intensidade de chuvas no Nordeste, dizem cientistas”. Publicado na Folha de São Paulo, em 05 de julho de 2022.  https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/07/mudanca-climatica-aumentou-intensidade-de-chuvas-no-nordeste-dizem-cientistas.shtml

“Chuvas que causaram mortes no Nordeste foram 20% mais fortes por causa do aquecimento global, aponta estudo”. Publicado em Jornal do Comércio, em 05 de julho de 2022. https://jc.ne10.uol.com.br/pernambuco/2022/07/15037745-chuvas-que-causaram-mortes-no-nordeste-foram-20-mais-fortes-por-causa-do-aquecimento-global-mostra-estudo.html

“Mudanças climáticas intensificaram temporais em 20% no Nordeste, diz estudo”. Publicado em Revista Galileu, em 05 de julho de 2022. https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2022/07/mudancas-climaticas-intensificam-temporais-em-20-no-nordeste-diz-estudo.html

“Com a vulnerabilidade instalada, a gente vai ter desastres e perdas cada vez maiores, diz especialista sobre relação de chuvas e pobreza”. Publicado em G1, em 01 e junho de 2022. https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2022/06/01/com-a-vulnerabilidade-instalada-a-gente-vai-ter-desastres-e-perdas-cada-vez-maiores-diz-especialista-sobre-relacao-de-chuvas-com-pobreza.ghtml

“Pesquisador alerta para falta de políticas públicas de prevenção a desastres”. Publicado no Portal EBC, em 31 de maio de 2022 https://radios.ebc.com.br/sintonia-nacional/2022/05/pesquisador-alerta-para-falta-de-politicas-publicas-de-prevencao-a-desastres

“Chances de chuva o ano inteiro? Atuação da La Niña no CE poderá ser a mais longa dos últimos 10 anos”. Publicado em Diário do Nordeste, em 01 de julho de 2022. https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/chances-de-chuva-o-ano-inteiro-atuacao-do-la-nina-no-ce-podera-ser-a-maior-dos-ultimos-10-anos-1.3250254

Imagem:

Ascom Murici

Publicado por Isabella Dariano Mardegan Moschim

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