Um homem sem lar

Por Anne Weinberg

Porque o dia em que você estará presente somente na memória dos seus, em que as suas vontades inacabadas serão motivos de diligência para outros, em que a sua história será motivo de orgulho para muitos, há de chegar. Há de chegar, pois é de costume que chegue, confortando pensamentos tomados por vozes aflitas, agoniadas e angustiadas que lamentam a sua partida. 

Morador do prédio Carajá, terceiro andar, vizinho de Rafael.  Homem alto, magro, carregado por um olhar forte e traços que remetem a dona Cleusa, sua mãe, também é vó de Gabriel. Um menino que pula, canta, dança, e que é alegre em si só. Residente do apartamento 33, amante de literatura, encantado pela música e fascinado pela escrita. Morada da mais profunda solidão. Prazer, Alfredo.  

Costumo dizer que acontecem involuntariamente duas grandes mudanças na nossa vida. A primeira é a ida à escola. Quando somos pequenos somos obrigados a frequentá-la sem poder de escolha. Já a segunda é a troca de lar. Deixamos de viver em família para podermos construir a nossa. E isto é motivo de inquietude, pois o nosso lar diz muito sobre a nossa história. 

Corredores frios, paredes vazias sedentas de cor, sofás desocupados, cômodos tomados pelo silêncio. Bem-vindo a minha trajetória de vida. Não sei como, nem quando deixei que ela chegasse a esse ponto, mas sei que hoje tudo que eu faço é acompanhado por um sentimento intenso de angústia. Aqueles sorrisos que duram segundos no elevador entre um andar e outro são resultados de um esforço tremendo, assim como o simples ato de levantar-se da cama. 

Hoje me levantei preenchido por um vazio e, desnorteado, resolvi fazer uma pausa, respirar fundo. Mas diferentemente de nós o tempo não para. O Deus ininterrupto, que é muitas vezes motivo de temor, leva consigo as nossas certezas, fomentando as nossas incertezas que, de alguma forma, nos libertam de nós mesmos. 

Andar de um lado para o outro não bastava mais. Correr, chorar e gritar não surtia mais efeito algum. Pela primeira vez eu, acompanhado da mais profunda solidão, proporciono uma grande mudança na minha vida. Eu que não amo nem sou amado, que não crio raízes nem as desfaço, hoje crio asas.

Publicado por Anne Weinberg

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