A corrupção brasileira na visão de Hamlet

Por Sarah Furquim

Segundo um levantamento do fórum Americas Society, o Brasil caiu quatro posições no Índice de Capacidade de Combate à Corrupção (CCC). Em 2021 o país era o 6º colocado, agora passou para o 10º lugar em um ranking de 15 países da América Latina. Diante desse fato, me lembro da peça “Hamlet”, escrita por Shakespeare, a qual tem muito a ensinar ao Brasil.

A peça engloba o acontecimento do rei da Dinamarca morto envenenado por seu próprio irmão que toma para si o trono e a esposa do falecido. Dessa forma, Hamlet, filho do rei assassinado e sobrinho do rei assassino, descobre a traição de seu tio e se encarrega da vingança que encerra a tragédia: a rainha, o atual rei e Hamlet acabam mortos. Nesse contexto, a realidade do Brasil se assemelha à peça, uma vez que os interesses privados se sobrepõem aos interesses públicos para a população.

Em vista que a pesquisa a respeito do combate a corrupção nos países da América Latina leva em conta a quantidade de recursos disponíveis para combater crimes de colarinho branco, esta mencionou que os órgãos de combate a corrupção como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Carf) “sofreram cortes orçamentários, limitando sua capacidade de investigação e supervisão”. Sendo assim, remeto a famosa frase expressada por Hamlet, em que ele afirma que “há algo de podre no reino da Dinamarca”.

Podemos afirmar que há algo de podre no Brasil, uma vez que a corrupção é um tema recorrente para os brasileiros, sempre havendo notícias de novos escândalos, principalmente relacionados ao governo. Em um dos mais recentes, mais conhecido como “escândalo do MEC”, seguem investigações a respeito da existência de um “gabinete paralelo” dentro do Ministério da Educação, com um grupo composto por pastores que controlavam a agenda do Ministério e até a destinação dos recursos públicos da pasta, em reuniões fechadas. Para mim, o que deixou o caso ainda mais chocante foi a divulgação de um áudio que revela que o então atual ministro da educação, Milton Ribeiro, diz atender a um pedido de Jair Bolsonaro, presidente da República, para repassar verbas do ministério a municípios indicados por pastores. Além disso, houve também a divulgação de outra ligação em que o presidente diz temer ser atingido pela investigação da Polícia Federal contra Ribeiro.

Nesse contexto, passo a relembrar os últimos governos do Brasil, que foram marcados por casos de corrupção, e que a esperança dos brasileiros em 2018 foi a eleição de um presidente que prometia fortalecer a luta contra esta. Assim, remeto a afirmação do historiador Leandro Karnal, que alega que as pessoas felizes no Brasil são aquelas que acreditam que a corrupção está a cargo de um partido. No entanto, na própria peça de Hamlet, ele percebe que a corrupção começa no leito de sua mãe na Dinamarca, nos fazendo perceber que pequenas atitudes, seja como falsificar um atestado ou apresentar uma falsa carteirinha de estudante são corriqueiras no Brasil, estando presentes não apenas nas notícias, mas no nosso cotidiano.

Dessa forma, para nós cidadãos, a ponta do iceberg é a corrupção adentrar a um cargo ou a um partido político. Além de tudo, o mais entristecedor é perceber que a mudança de um governo não é a mudança de uma estrutura para o Brasil. Diferentemente da Dinamarca de Hamlet, esperamos que o Brasil não tenha um final tão trágico.

Fontes:

“Brasil cai para 10ª posição em ranking de combate à corrupção na América Latina”. Publicado no Jornal da Globo, em 23 de junho de 2022.

“Escândalo do MEC: veja a cronologia do caso que levou à prisão de Milton Ribeiro e ao pedido de investigação contra Bolsonaro”. Publicado no G1, em 25 de junho de 2022.

“Há algo de podre no Brasil”. Publicado no Canal Ciências Criminais, em 30 de julho de 2019.

Publicado por Sarah Furquim


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