O que está acontecendo na Ucrânia?

Por Redação.

Ainda no final do último ano, a tensão entre a Rússia e a Ucrânia voltou a ganhar visibilidade midiática após um alerta emitido pelos Estados Unidos, que notificou a movimentação incomum de tropas russas na região fronteiriça da Crimeia e advertiu a possibilidade de uma invasão. Apesar do posicionamento militar e do pronunciamento ocidental, no entanto, o atual Chefe de Estado da Rússia, Vladimir Putin, afirmou em fevereiro deste ano que o alerta de invasão pelo governo estadunidense seria uma “especulação provocativa”. Percebe-se, nesse aspecto, que mesmo décadas após a dissolução da União Soviética, os pontos estratégicos entre as antigas potências da Guerra Fria ainda são vítimas dos conflitos geopolíticos oriundos daquele período. 

De início, é necessário ressaltar que os conflitos entre Rússia e Ucrânia detém uma longa e vasta história, tendo em vista que ambos dividem o mesmo mito fundador, conhecido por Rus de Kiev. Apesar de culturalmente semelhantes, os dois países criaram autonomia própria e contaram com o surgimento de formas de organização e línguas diferentes, tendo também uma grande distinção em seus respectivos processos de desenvolvimento político e econômico. Enquanto a Rússia se fortaleceu politicamente e expandiu suas influências comerciais, a população Ucraniana vivenciou uma série de dominações por diversos impérios, resultando em danos em sua formação territorial e uma perigosa instabilidade política.  

Diante disso, o expansionismo imperial russo centralizou interesses  em conquistar a Crimeia — península localizada ao sul da Ucrânia e ao sudoeste da Rússia — visto que o território concede acesso ao Mar Negro, o que potencializaria a dominação local. Nesse sentido, infere-se que a Ucrânia está localizada em região estratégica para o fomento da influência econômica e, por conta disso, tornou-se alvo de inúmeras disputas políticas ao longo da história. 

As relações entre o Império Russo e a Ucrânia se estreitaram progressivamente e, pouco tempo após ao conflito Polaco-Soviético, a União Soviética obteve sucesso ao anexar o território Ucraniano como república autônoma socialista, ainda em 1922. Acerca de tal período, cabe salientar a situação de instabilidade socioeconômica que perdurou na Ucrânia Soviética no início da década de 30, durante a prática da coletivização da agricultura. A desorganizada e acelerada tentativa de desapropriação de terras, conjuntamente à resistência dos agricultores e os difíceis períodos de colheita, originaram no fenômeno conhecido como “Holodomor”, ou “A Grande Fome”, que deixou cerca de 3 milhões de mortos no país. Ainda assim, tem-se que o rápido processo de industrialização entre os anos 4o e 50 fez da Ucrânia um dos maiores pilares entre as Repúblicas Socialistas. 

À vista disso, motivado por inúmeros interesses desenvolvimentistas  e políticos, o secretário-geral soviético Nikita Khrushchev transferiu em 1954 o território da Criméia — região na qual abrange população majoritariamente de etnia russa — para o controle de Kiev. Mesmo após o processo de independência em 1991, a Ucrânia manteve posse do território, enquanto a Rússia ficou com o controle da mais importante base naval da região, sede da Frota do Mar Negro. Na óptica russa, o controle da frota fomenta o contínuo da influência sobre a Europa Oriental, tal como proporciona o contato com a direção sul, ou seja, com o Mediterrâneo, competindo, portanto, com a interferência ocidental e, sobretudo, estadunidense na região.

Pouco tempo após a independência ucraniana, o Tratado de Budapeste determinou a entrega das armas nucleares da Ucrânia em troca de sua integridade nacional. Porém, a reinserção da Crimeia em 2014 logo desestabilizou as bases do tratado, o que motivou uma política de reaproximação do Ocidente com países do leste europeu e fomentou a possibilidade da entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Como esperado, o embate entre os Estados Unidos e Rússia pela influência socioeconômica na Ucrânia resultou em mais um episódio de desrespeito ao tratado de Budapeste. No final do último mês, o governo russo iniciou ataques aéreos ao país vizinho, incluindo na cidade de Kiev, além de investir na entrada de forças terrestres ao norte, leste e sul da Ucrânia. 

Para entender a situação com a complexidade que ela demanda e fugindo dos maniqueísmos, também é importante frisar a seguinte questão: mais uma vez, os Estados Unidos, se alçando a uma posição de autoridade suprema que não lhe é devida, procura defender seus interesses sob o véu de uma suposta defesa do fim do extremismo político.

O fato do governo russo subsistir do autoritarismo não deve nos distrair da constatação de que estamos em frente a mais uma manifestação do imperialismo americano. O propagandismo estadunidense, desta vez representado na figura de Joe Biden, procura esconder o jogo de poder e influência promovido pela política externa americana.

Embora o conflito entre Rússia e Ucrânia venha se arrastando há décadas, conforme exposto anteriormente, o conflito atual teve um estopim bem claro: a tentativa da Ucrânia de entrar na Otan no final de 2021. Esse fato acendeu um alerta vermelho para a Rússia, já que a Ucrânia é um território estratégico do ponto de vista militar. Desde as invasões napoleônicas há registros do uso das terras ucranianas como ponte para atingir o território russo em uma guerra. Dessa forma, quem quer que tenha controle sobre a nação ucraniana, incluindo a Otan, teria acesso privilegiado à Rússia em um contexto militar. Além disso, a Ucrânia é um dos principais fornecedores de energia nuclear, contendo a maior usina da Europa: Zaporizhzhia, em Enerhodar.

Foi então que as tratativas diplomáticas começaram. Durante praticamente quatro meses, líderes de países europeus integrantes da Otan como Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos, bem como parceiros econômicos desses países, fizeram uma série de encontros entre si para tentar tecer acordos, desescalar a tensão e evitar a eclosão de um conflito armado. Entretanto, vários indícios apontam que o governo russo nunca esteve realmente interessado na via diplomática. Primeiramente, as forças armadas russas já estavam mobilizando tropas na fronteira com a Ucrânia desde meados de novembro de 2021. Em segundo lugar, os EUA vinham avisando há mais de um mês que a Rússia tinha planos bélicos concretos ainda para este inverno.

Muitas são as justificativas utilizadas pelo governo russo para a invasão. Um dos motivos é uma suposta “desnazificação” da Ucrânia, uma vez que sistemas de inteligência russos teriam detectado uma enorme influência nazista no país, alegação essa que não tem nenhuma comprovação factual nem é corroborada por nenhum outro país. Alguns intelectuais russos e até mesmo ucranianos defendem, com base nas raízes étnico-culturais em comum entre ambas nações (vide a  menção anterior sobre o Rus de Kiev), que os países devem ser reunificados, o que é verdadeiro apenas para a metade leste da Ucrânia, pois a metade oeste está muito mais ligada ao Ocidente. Há também uma tentativa de legitimação da invasão com o argumento de que a soberania nacional russa estaria em sério perigo com a Ucrânia sob o controle da Otan.

Um capítulo à parte — o qual não temos espaço para desenvolver com maior profundidade, mas está diretamente ligado ao conflito — são os movimentos separatistas na Ucrânia. Desde 2014, com a conquista da Crimeia, o presidente russo Vladimir Putin vem incitando os movimentos separatistas da região do leste ucraniano chamada Donbass visando enfraquecer as fronteiras entre os dois países, conquistar aliados dentro da própria Ucrânia e facilitar a invasão ao país. Em 21 de fevereiro deste ano, o plano de Putin finalmente se concretizou: separatistas autodeclararam na região as repúblicas de Donetsk e Luhansk e o governo russo reconheceu-as como países independentes.

O auxílio à Ucrânia vem em diversas frentes e de diversos agentes, ainda que sejam insuficientes para evitar violações extremamente graves de direitos humanos. Da parte das potências europeias, cifras altíssimas foram investidas para reforçar o armamento ucraniano, embora nenhum desses países tenha levado suas próprias tropas para defender o território ucraniano, mesmo cientes da enorme desigualdade bélica entre a Rússia e a Ucrânia. Os EUA, por exemplo, apenas posicionaram seus soldados na fronteira de países pertencentes à Otan e enviaram o equivalente a US$350 milhões em armas, mísseis antitanque, sistemas antiaéreos e coletes à prova de balas. Por sua vez, a Alemanha forneceu mil lançadores de granadas antitanque e 500 mísseis Stinger. A União Europeia, assim como os Estados Unidos, vêm investindo em pesadas sanções econômicas tanto ao Estado russo quanto a grandes fortunas de empresários. Já a Organização das Nações Unidas, por meio da Acnur, está focada em atender o mais de um milhão de refugiados residentes na Ucrânia e em investigar os crimes cometidos pela Rússia. Ademais, inúmeras ONGs e entidades governamentais estão fazendo doações de insumos alimentícios, financeiros e sanitários para aqueles que permanecem em território ucraniano.

Outra consequência do conflito foi o crescimento do sentimento anti Rússia pelo mundo, gerando a perseguição de tudo aquilo que é russo, mesmo que não tenha qualquer tipo de ligação ao conflito. Como exemplos disso temos a perseguição a Dostoiévski, um filósofo e escritor, que virou um alvo dois séculos depois de sua morte, através do cancelamento de cursos que estudam sua obra em diversas universidades ao longo do globo. Além disso, festivais de cinema como o Festival de Glasgow, o Festival de Cannes e o Festival de Estocolmo boicotaram qualquer filme de origem russa ou com financiamento estatal russo. Essa perseguição não traz nenhum tipo de benefício à Ucrânia ou prejuízo ao governo de Putin, e apenas propicia ataques e diversos malefícios ao povo russo, que simplesmente não tem influência sobre as ações do governo. 

Até o momento da publicação desta reportagem, a guerra já ceifou mais de 350 vidas de civis, além de ferir pelo menos 2 mil pessoas. Há uma grande discrepância entre o número de soldados russos mortos no conflito divulgados pela Ucrânia e pela Rússia, visto que o primeiro alega que houveram 9 mil mortes e o segundo diz que o número foi de apenas 498. Além disso, mais de 1,3 milhão de refugiados deixaram a Ucrânia para salvar suas vidas. 

Fontes:

“Putin chama de ‘especulação provocativa’ alerta dos EUA sobre invasão da Ucrânia”. Publicado na Folha de São Paulo , em 12 de fevereiro de 2022.

“EUA falam em risco iminente de invasão da Ucrânia pela Rússia”. Publicado na Folha de São Paulo, em 22 de novembro de 2021.

“Rússia diz que Finlândia e Suécia enfrentarão ‘consequências militares e políticas prejudiciais’ se tentarem entrar na Otan”. Publicado no G1, em 25 de fevereiro de 2022. 

“Sebastopol, na Crimeia, é o posto avançado da Rússia no Mar Negro”. Publicado no Uol, em 4 de março de 2022.

“Otan, Ucrânia e Rússia: entenda o que motivou o conflito no leste europeu”. Publicado no Correio Braziliense, em 27 de fevereiro de 2022.  

“Invasão da Ucrânia: o que Putin quer com a ofensiva russa?”. Publicado na BBC News, em 24 de fevereiro de 2022 e atualizado em 25 de fevereiro de 2022. 

“Por que a invasão da Crimeia em 2014 é relevante agora”. Publicado na BBC News, em 1 de março de 2022. 

“Linha do tempo: relembre a escalada de ataques da Rússia à Ucrânia”. Publicado no Uol, em 3 de março de 2022. 

“Guerra na Ucrânia entra na segunda semana com avanço da Rússia, sanções e mortes”. Publicado na CNN Brasil, em 4 de março de 2022. 

“Guerra na Ucrânia entra na segunda semana com avanço da Rússia, sanções e mortes”. Publicado na CNN Brasil, em 4 de março de 2022. 

“Ucrânia persistirá com objetivo de ingressar na Otan, diz presidente; Rússia vê possibilidade de acordo com países ocidentais”. Publicado no G1, em 14 de fevereiro de 2022. 

“Ucrania: Ataques deixam 2040 civis feridos, total de mortos é de 352”. Publicado no Uol, em 28 de fevereiro de 2022. 

“Enerhodar: Cidade nasceu para abrigar a maior central nuclear da Europa”. Publicado na CNN Brasil, em 4 de março de 2022.

“De onde vem a ideia de que a Ucrânia pertence à Rússia”. Publicado no Nexo, em 22 de fevereiro de 2022. 

“Desnazificação e genocídio: a história por trás da justificativa de Putin para invasão da Ucrânia”. Publicado na BBC News, em 28 de fevereiro de 2022. 

“Em novo pronunciamento, Zelensky indica 9 mil soldados russos mortos na Ucrânia”. Publicado no Correio Braziliense, em 2 de março de 2022. 

“A nova mobilização de tropas russas na fronteira com a Ucrânia que põe em alerta EUA e UE”. Publicado na BBC News, em 17 de novembro de 2021. 

“Entenda o conflito entre Rússia e Ucrânia e como ele afeta o Brasil”. Publicado na Agência Brasil, em 29 de janeiro de 2022. 

“Um milhão de refugiados deixaram a Ucrânia em uma semana, diz ONU”. Publicado na CNN Brasil, em 3 de março de 2022.

“Ucrânia pede ajuda humanitária e envio de armas e combustíveis”. Publicado no Estado de Minas, em 26 de fevereiro de 2022. 

“A ajuda militar sem precedentes enviada por EUA e Europa à Ucrânia”. Publicado na BBC Brasil, em 27 de fevereiro de 2022.

“‘Há todos os indícios’ de que Rússia irá invadir Ucrânia, diz Biden”. Publicado na Veja, em 26 de fevereiro de 2022.

“Como o reconhecimento russo de áreas separatistas na Ucrânia pode inflamar ainda mais a crise na região”. Publicado no G1, em 21 de fevereiro de 2022.

“O cancelamento da cultura russa: tem sentido perseguir os artistas do país?”. Publicado no Uol, em 5 de março de 2022.

“Rússia vive onda de cancelamento na cultura após invasão à Ucrânia”. Publicado na Folha de São Paulo, em 3 de março de 2022.

Imagem: reprodução CNN Brasil. disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ucranianos-hasteiam-bandeiras-para-desafiar-o-medo-da-invasao-russa/

Publicado por Ana Carolina Felix


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