100 Anos de Leonel Brizola

por Rocco Gasparini

Neste 22 de Janeiro de 2022, serão comemorados 100 anos do nascimento de Leonel de Moura Brizola, uma das figuras políticas mais marcantes da história do Brasil.

Eu queria publicar algum texto para comemorar a ocasião, mas em vez de me colocar no papel de biógrafo, ao qual não me cabe a menor competência, preferi pegar alguns trechos de sua vida que mais me inspiram como brasileiro e que eu sinto que são importantes para o atual cenário político nacional.

Acredito que um dos grandes problemas da identidade cultural brasileira seja a falta de conhecimento sobre a sua história e sobre seus cidadãos notórios. Essa não é uma opinião muito original de se dizer, mas não me cabem dúvidas de que, em um momento em que o povo está desacreditado da política, cabe um mergulho na discussão da história nacional e internacional para se reconectar com seus ideais ou se apaixonar por novas ideias. Ao meu ver, cai como uma luva o fato de comemorarmos o centenário deste grande homem público no ano em que o Brasil será marcado por uma das eleições mais importantes de sua história.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que devemos acreditar em salvadores da pátria. Penso que temos que fugir desse maniqueísmo fajuto porque simplesmente não existem heróis na história. As pessoas que se deixam levar de maneira irracional por uma figura histórica ou um conjunto de ideias estão fadadas à decepção ou a uma crise de identidade.

O fato é que estamos no fundo de um poço profundo e não vamos sair dele sem conhecer quem somos e para onde vamos.

Tendo isso dito, pretendo expor porque, com seus erros e acertos, Leonel Brizola é uma inspiração para mim e porque seu legado deve ser resgatado. Em um momento em que alguns dos grandes líderes do Brasil parecem estar em conchavo pela estagnação de ideias e falta de projetos, a obstinação de Brizola com seu patriotismo é inspiradora.

  1. Campanha da Legalidade

O século XX foi, sem dúvidas, um dos mais tensos da história brasileira. Após a renúncia inesperada e até hoje bastante nebulosa de Jânio Quadros da Presidência da República, o clima de guerra fria esquentou.

Naturalmente, a renúncia do Presidente da República deveria encaminhar à posse do vice-presidente: o líder trabalhista João Goulart.  No entanto, a crescente onda golpista inflamada pela especulação internacional, setores da elite e das Forças Armadas sentiu o cheiro de sangue na crise do governo federal. O plano passou a ser impedir a posse de Goulart, pisoteando os ditames da Constituição vigente.

O então governador do Estado do Rio Grande do Sul tentou a façanha de coordenar uma campanha de mobilização nacional para impedir o golpe. Com a defesa da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Brizola transformou o Palácio Piratini, sede do Poder Executivo do Estado, em um Quartel General improvisado. Enquanto os civis dentro do Palácio empunhavam uma Taurus .38 e Brizola coordenava o movimento armado de uma submetralhadora, manifestações de ruas pediam a posse imediata de Jango.

Através da Cadeia Radiofônica da Legalidade, uma cadeia de 150 emissoras de rádio, Brizola emitia seus discursos fervorosos a favor do rito constitucional e incitando o espírito democrático na nação.

Foram duas semanas dominadas por uma ansiedade ardente, desencadeada pela iminência de uma guerra civil. O general Machado Lopes, integrante das Forças Armadas que acabou apoiando os legalistas, descreveu a situação como “tensa, porém calma” em um informe ao Ministério da Guerra. Em um cenário reminiscente ao da Guerra Fria, tínhamos dois lados com capacidade e anseio de apertar o gatilho.

É possível dizer que a Campanha da Legalidade foi um dos maiores movimentos de resistência armada da história do Brasil. A defesa intransigente da democracia e do rito constitucional dos legalistas estabeleceram as bases para uma negociação que desarmou o golpe. Ainda que Brizola e seus aliados tenham se sentido cooptados a aceitarem um sistema parlamentarista de meia tigela, a resolução semi-pacífica da situação possibilitou à democracia brasileira ter mais alguns anos de respiro antes do golpe de 64

2.  Compromisso com a educação

Se as suas façanhas como ativista são impressionantes, os seus méritos como administrador não ficam para trás.

Brizola teve a honra de servir como governador em três mandatos: um no Rio Grande do Sul e dois no Rio de Janeiro. Em todas as suas gestões, eu diria que uma pauta que o diferenciou de outros estadistas de seu tempo foi o tratamento da educação como prioridade.

Durante seu mandato, o governo gaúcho estabeleceu mais de 200 parcerias com escolas privadas que, em troca de professores do Estado e verbas públicas, disponibilizaram vagas gratuitas. Além disso, foram construídas 5902 escolas primárias (as famosas “brizoletas”), 278 escolas técnicas e 122 ginásios, totalizando 6302 estabelecimentos de ensino que possibilitaram a abertura de 689 mil matrículas e mais de 40 mil vagas para docentes.

Os resultados são de brilhar os olhos: de acordo com o projeto de pesquisa “Perfis Parlamentares: Leonel Brizola”, o Rio Grande do Sul passou a ter a mais alta taxa de escolarização do Brasil.

Como uma extensão de seu projeto, o governo de Brizola no Rio foi famoso por implementar os CIEPS: os Centros Integrados de Educação Pública ou, como foram apelidados pela população, os “brizolões”. Idealizados pelo vice-governador, o renomado antropólogo e pensador trabalhista Darcy Ribeiro e tendo a sua arquitetura projetada por Oscar Niemeyer, os CIEPS revolucionaram a concepção de ensino integral ao combinarem um currículo escolar extenso com o oferecimento de serviços médicos essenciais de maneira gratuita e atividades recreativas. Além disso, ajudaram a combater a fome ao oferecerem refeições completas aos seus alunos.

3. Confronto com o grande conglomerado midiático

De acordo com Juliana Brizola, seu avô era um “homem do diálogo”. Apesar da fama de esquentado, o histórico de Brizola é de um homem público conciliador, que procurava alianças fora de seu cubículo ideológico. Sobre o PDT, ele indagou numa plenária: “Nós somos um partido que não é inseguro em suas posições. Numa democracia pluripartidarista, as alianças são práticas naturais. Só não faz aliança o partido que é inseguro”

No entanto, na política (e na vida) é necessário saber quando e como se indignar.

Uma das guerras mais sanguinárias que Brizola travou foi contra a Rede Globo. Não satisfeitos em apoiar a ditadura e eleger Collor, Roberto Marinho & Cia passaram a difamar de maneira pouco ética figuras do campo progressista na virada do século.

A principal batalha ocorreu por conta da construção do Sambódromo Marquês de Sapucaí, obra do governo do Estado do Rio enquanto Brizola era governador. Em um editorial publicado em fevereiro de 1992 que posteriormente foi transmitido também no Jornal Nacional, O Globo questionou o alto investimento em uma obra que não tem um caráter essencial. Essa seria uma crítica válida, não fosse o fato de que, no mesmo editorial, Brizola é acusado de ser um governante senil.

Brizola não era o tipo de pessoa que aceitava ofensas à sua pessoa de maneira submissa. Após uma longa batalha de dois anos e meio na Justiça procurando seu direito constitucional de resposta, o momento de redenção foi conquistado. Se a vingança é um prato que se come frio, dá para dizer que o especial da noite estava no ponto:

Essa foi a batalha de desfecho mais épico. Mas outro momento que sedimentou o gaúcho como um combatente do monopólio da informação ocorreu em 1989, quando um Brizola fazendo um cosplay de Incrível Hulk usou o seu tempo de campanha eleitoral para dar um aviso aos telespectadores:

É verdade que, hoje em dia, a Rede Globo e outros grandes personagens da grande imprensa não têm o peso que costumavam ter. O surgimento da internet e de meios de comunicação alternativos permitiu a instauração de um cenário menos hostil à multiplicidade de visões de mundo.

No entanto, o poder dos veículos de comunicação tradicionais não deve ser subestimado, pois ainda são responsáveis por produzir conteúdo de alcance massivo. Uma pesquisa realizada em outubro de 2021 pelo PoderData estima que a TV é o principal meio de informação para 40% dos brasileiros, enquanto a internet (redes sociais, sites e portais) mantém 43% dos brasileiros informados.

Diante desse cenário e conhecendo a capacidade da imprensa de criar, distorcer e invisibilizar discussões no debate público, fica evidente a necessidade de lutar contra o monopólio da informação e a parcialidade dos grandes jornais. A liberdade de imprensa, fundamental para qualquer Estado democrático que se preze, não deve ser confundida com a liberdade para desinformar.

4. Pequena conclusão

É importante lembrar que Brizola era uma figura polêmica dentro da esquerda. Por diversas razões, não existia unanimidade quanto à sua popularidade nem mesmo dentro do campo trabalhista. Porém, diante do desastre que essa onda de conservadorismo irracional, encarnada no bolsonarismo, causou ao país e à incapacidade da velha esquerda de se comunicar com seu eleitorado de maneira franca e propositiva, eu diria que o resgate do legado de Brizola é mais necessário do que nunca.

Meu desejo para este ano é que o fervor implacável de Brizola pela democracia e a sua busca incansável pela soberania nacional inspirem nossos cidadãos a procurarem as respostas para atacar os problemas que assolam o Brasil há décadas. Sou partidário da corrente de opinião que advoga por uma união entre os integrantes desta grande nação através de um pacto selado por um projeto realista e entusiasmante. Neste cenário de um Brasil perdido após o fim da ditadura e mergulhado eternamente numa crise democrática, econômica e social, estou com a plena convicção de que é necessário, mais do que nunca, sonhar com o pé no chão.

Nossos caminhos são pacíficos, nossos métodos democráticos, mas, se nos tentam impedir, só Deus sabe nossa obstinação

Leonel de Moura Brizola
Foto: Daniel Ramalho

Bibliografia

BRAGA, Kenny; DE SOUZA, Borges de; DIONI, Cleber; BONES, Elmar. Perfis parlamentares: Leonel Brizola. Perfil, discursos e depoimentos (1922-2004). Acesso em: 16/01/2022

FUNDAÇÃO LEONEL BRIZOLA – ALBERTO PASQUALINI. Documentário: Legalidade 50 anos. Disponível em: <Legalidade 50 anos – Parte 1/2> . Acesso em: 13/01/2022

METEORO. BRIZOLA VS. GLOBO.Disponível em: <BRIZOLA VS. GLOBO>. Acesso em: 13/01/2022

METEORO. QUEM FOI LEONEL BRIZOLA.Disponível em: <QUEM FOI LEONEL BRIZOLA>. Acesso em: 13/01/2022

PIONEIRO. Brizoletas tentam sobreviver às ações do tempo na Serra. Disponível em:<Brizoletas tentam sobreviver às ações do tempo na Serra |Pioneiro (clicrbs.com.br)> Acesso em: 15/01/2022.

RIBEIRO, Bruno. Brizola contra Rede Globo: 23 anos de uma vitória épica. Disponível em: <Brizola contra Rede Globo: 23 anos de uma vitória épica |PDT>. Acesso em: 16/01/2022

TATTOO NO TOCO. BRIZOLA E AS ALIANÇAS POLÍTICAS. Disponível em: < BRIZOLA E AS ALIANÇAS POLÍTICAS>. Acesso em: 16/01/2022

TATTOO NO TOCO. Brizola fala da Campanha da Legalidade (1961). Disponível em: <Brizola fala da Campanha da Legalidade (1961)>. Acesso em: 15/01/2022.

TV GLOBO. Jornal Nacional – Edição de 1994. Disponível em: <Leonel Brizola x Rede Globo | Direito de Resposta 1994> Acesso em: 16/01/2022

Foto: Ricardo Chaves

Publicado por Rocco Gasparini


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